Bilionários

De onde vêm os bilionários

Michael Corkery

  • Getty Images/iStockphoto

No início do século 20, um jovem jornalista chamado Napoleon Hill embarcou em uma missão que duraria a vida inteira.

Hill se dispôs a estudar centenas das pessoas mais bem-sucedidas do país e escrever um livro sobre como elas haviam realizado tanto.

Hill passou duas décadas analisando as histórias de vida, estratégias e filosofias pessoas de empreendedores e industriais como Henry Ford, William Wrigley e John D. Rockefeller.

O livro que resultou desse trabalho, "Pense e Enriqueça", foi publicado em 1937 e se tornou um guia de autoajuda para americanos comuns em busca de fortuna.

Hill tentou convencer seus leitores-- muitos deles abatidos emocional e financeiramente pela Grande Depressão-- de que com a atitude certa eles também poderiam juntar uma fortuna.

"A pessoa deve perceber que todos aqueles que acumularam grandes fortunas tiveram primeiro sua dose de sonho, esperança, desejo e planejamento antes de adquirirem dinheiro", Hill escreveu.

Oitenta anos depois, as noções igualitárias de Hill parecem soar erradas em vários níveis. Existe um abismo perturbadoramente grande entre as sortes financeiras dos ricos e dos pobres, uma desigualdade que ajudou a desencadear o populismo político na Europa e nos Estados Unidos. (Ironicamente, o presidente Donald Trump, um autoproclamado bilionário, foi levado até a Casa Branca por esse ressentimento.)

A ideia de que o segredo para uma grande fortuna vem de uma combinação de disciplina, perseverança e crença em si mesmo soa pollyânnico em uma era de desilusão geral em relação a como a economia e a sociedade realmente funcionam.

De fato, a probabilidade de se tornar bilionário permanece incrivelmente pequena. A Wealth-X, uma empresa de pesquisas que rastreia a riqueza global, disse que existiam 2.473 bilionários em 2015, um aumento de 148 em relação ao ano anterior e que representa cerca de 0,00003% da população mundial de 7,3 bilhões de pessoas.

Ainda assim, um otimista como Hill, que morreu em 1970, poderia sentir confiança em um dado obtido pela Wealth-X: mais da metade dos bilionários do mundo começou do zero.

E esse número está aumentando. Bilionários que começaram do zero representam 57% do total da riqueza dos bilionários, ou mais de US$4,3 trilhões (R$13,4 trilhões), um número 7% maior em relação a 2014. Enquanto isso, o número de bilionários que herdaram sua fortuna—323, de acordo com a Wealth-X—caiu 29% em relação a 2014.

O setor de tecnologia, hoje em expansão, criou muitos dos gigantes mais recentes que começaram do zero: empresários como Travis Kalanick, cofundador e CEO do Uber, e os cofundadores do Airbnb, Brian Chesky, Joe Gebbia e Nathan Blecharczyk.

"Muitas pessoas têm ideias ótimas. Mas transformar uma ideia em um grande negócio é outra questão", disse Maya Imberg, diretora de pesquisas de mercado da Wealth-X. "Os bilionários tendem a ser extremamente focados".

Em seu livro, Hill tentou mostrar que qualidades como foco e perseverança estavam dentro de todos.

Ele contou a história de como Thomas Edison falhou milhares de vezes antes de aperfeiçoar a lâmpada incandescente e de como Henry Ford pressionou seus engenheiros a desenvolverem o motor V8, apesar de dificuldades técnicas.

"Milhares de pessoas teriam tido uma educação melhor que a de Ford, mas elas vivem em pobreza por não possuírem o plano certo para acúmulo de dinheiro", escreveu Hill.

A Wealth-X é a versão big data do projeto solitário de Hill. A empresa emprega cerca de 150 pesquisadores em todo o mundo que coletam e analisam dados sobre as pessoas mais ricas.

De acordo com esses dados, você pode ter uma chance ligeiramente maior de se tornar um bilionário se tiver frequentado Harvard, que era de longe a faculdade mais popular entre os bilionários. (Stanford vinha em segundo lugar.)

Diplomas em engenharia eram os mais populares entre os bilionários, seguidos por administração, de acordo com a Approved Index, outra empresa que pesquisa os ricos. Existem alguns bilionários notáveis com formação em humanidades, como o investidor Carl Icahn, que se graduou em filosofia em Princeton. Jack Ma, fundador da gigante chinesa do comércio eletrônico Alibaba, tem formação em magistério.

É bem conhecido o fato de que Mark Zuckerberg, do Facebook, e Bill Gates, da Microsoft, largaram Harvard para fundar seus negócios. Mas eles não são os únicos. Cerca de 30% dos bilionários do mundo nunca terminaram uma faculdade.

"É um contrassenso em relação ao que se ouve quando você ainda não é adulto", disse Grace Garland, diretora de pesquisas na Approved Index.

Se os números sozinhos podem servir de guia, suas chances de se tornar um bilionário sendo mulher são especialmente remotas. Em 2015, 140 das 148 pessoas que entraram na categoria de bilionários eram homens. Os 10 maiores bilionários são homens, de acordo com a Wealth-X.

No entanto, apesar da dominância masculina e da exclusividade das faculdades de elite no clube dos bilionários, gurus de autoajuda e pessoas comuns continuam a estudar as biografias e as declarações públicas dos ultrarricos, em busca da fórmula secreta.

Andrew Collins, 37, fundador de uma empresa de marketing esportivo na China, observou os hábitos de leitura dos bilionários.

Dizem que Elon Musk, CEO da Tesla e da SpaceX, e o investidor Warren E. Buffet são leitores vorazes. Uma vez Gates disse que "ler ainda é a principal forma como aprendo coisas novas e testo minha compreensão".

Em uma entrevista recente para a "Forbes", o pai de Gates, William H. Gates Sr., disse que seu filho devorava todo tipo de livro quando criança, incluindo enciclopédias e ficção científica. "Eu adorava que meu filho fosse um leitor tão voraz, mas ele lia tanto que a mãe de Bill e eu tivemos de instituir uma regra: nada de livros na mesa de jantar", ele disse.

Collins disse que muitos desses homens ricos tiveram pais que os ajudaram na conquista do sucesso.

Os pais de Gates providenciaram para que ele pudesse deixar as aulas de lado em seu último ano do colegial para trabalhar com a programação do sistema de gerenciamento da rede elétrica de uma usina local.

Richard Branson, o fundador bilionário do Grupo Virgin, disse que seu pai, um advogado, lhe ensinou a importância de se pensar grande e instilou nele um desejo por excelência.

Em uma homenagem a ele, Branson escreveu: "outra lição que aprendi com meu pai, que teve um grande impacto em minha carreira, foi: 'Se um trabalho vale ser feito, vale fazê-lo bem'. Isso, que era um de seus ditados favoritos, ficou entranhado em mim desde pequeno".

Collins disse que quando ele mais jovem na Austrália, seu pai o fez ler "Pense e Enriqueça" e lhe ensinou como pensar em ganhar dinheiro de diferentes meios para acumular uma fortuna.

"É ridículo as pessoas dizerem que empreendedores nascem assim. Eles se fazem assim", ele disse.

"Você precisa de determinação e de uma autoconfiança inabalável. Isso é indispensável para um bilionário", ele disse.

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