Bem-vindos, hóspedes do Airbnb! Seus vizinhos são os Trumps

Eli Rosenberg

  • Karsten Moran/The New York Times

    Policiais do lado de fora da Trump Tower, em Nova York

    Policiais do lado de fora da Trump Tower, em Nova York

O apartamento tem grandes janelas, uma cozinha elegante e uma ampla vista de Manhattan. Ele ostenta uma localização privilegiada, próxima do Central Park e do Rockefeller Center e promete toda a agitação de um apartamento de luxo em Midtown.

E estava disponível por um preço considerável, mas não totalmente absurdo, de aproximadamente US$ 300 a US$ 450 (R$ 936 a R$ 1.404) por noite através do sistema de alugueis de casas Airbnb. Os interessados só precisariam passar por uma detalhada verificação do Serviço Secreto na entrada.

O apartamento ficava dentro da Trump Tower.

O anúncio saiu do ar na semana passada, horas depois de o "The New York Times" ter entrado em contato com o Airbnb. Mas o apartamento estava disponível para aluguel desde pelo menos setembro passado, bem depois de o prédio que ajudou a tornar Trump famoso ter sido transformado em um centro de operações para sua campanha. E ele permaneceu disponível, e, como seu anúncio no Airbnb observava, bastante popular, cerca de um mês e meio após a posse de Trump.

Mais de 500 pessoas haviam visualizado o anúncio na semana antes de ele ser removido, e o apartamento havia sido reservado para boa parte de março, abril e maio.

O anúncio representava uma oportunidade única na história americana, facilitada tanto pela tecnologia moderna quanto por um presidente dono de um amplo portfólio imobiliário: uma chance de viajantes reservarem um quarto dentro de um edifício que abriga a família do presidente —um dos edifícios mais protegidos de Nova York, se não do mundo— com somente um clique do mouse.

"Foi surreal, para ser sincero", disse Mike Lamb, um engenheiro de softwares da Inglaterra que ficou hospedado no local com sua mulher em dezembro. "Certamente foi uma experiência interessante."

Três hóspedes que ficaram no apartamento o descreveram em entrevistas como um lugar excepcionalmente agradável. Um deles, que se hospedou ali antes das eleições, lembra-se de ter sofrido um atraso quando ele voltou mais ou menos na mesma hora que uma frota de veículos que provavelmente estava transportando Trump. Dois hóspedes falaram sobre a presença de manifestantes do lado de fora.

"Dá para ouvi-los gritando lá de cima do edifício", disse Lamb. "Lembro-me de ter pensado, sentado na cama, 'Eu consigo ouvi-los, será que ele também consegue?'."

Lamb disse que um dia ele conseguiu ver rapidamente Mike Pence, na época o vice-presidente-eleito, saindo do comboio e encaminhando-se para a Trump Tower.

O apartamento estava disponível através do recurso "reserva instantânea", que permite que qualquer um que tenha uma conta no Airbnb reserve uma estadia com somente uma mensagem para o anfitrião. Um repórter do "The New York Times" o reservou dessa forma no mês passado, para uma estadia de um fim de semana em abril.

"Bem-vindos! Estou ansiosa para conhecer você!", respondeu a anfitriã, Lena Yelagina.

Ela disse que encontraria o hóspede na entrada, embaixo, para mostrar o lugar para ele. "Por favor não conte aos funcionários do edifício que é Airbnb, mas sim que você está me visitando", ela escreveu. "Agradeço muito!"

Mas, dois dias depois, Yelagina escreveu novamente para dizer que ela havia descoberto que o hóspede era um jornalista e que ela não queria que seu apartamento fosse usado para descobrir nada sobre Trump ou que aparecesse em uma matéria.

"Peço desculpas por esse pedido, mas preciso me certificar de que temos um acordo preciso e que não terei nenhum problema", ela escreveu.

Depois que o repórter informou a ela que pretendia escrever uma matéria, ela cancelou a reserva e não respondeu a nenhuma pergunta. Registros públicos indicam que Yelgaina é proprietária do apartamento desde 1998 e está listada como dona de outro apartamento no Upper West Side.

Continua sendo um mistério como o anúncio conseguiu passar despercebido em um edifício tão famoso. Pela legislação do Estado, é ilegal anunciar e alugar a maioria dos apartamentos em Nova York por menos de 30 dias quando o anfitrião não está presente. O anúncio da Trump Tower era para o apartamento inteiro, e dizia que ele poderia ser alugado por um período tão breve quanto três noites.

Tampouco ficou claro se o Serviço Secreto sabia a respeito do anúncio.

"Não comentamos sobre nossas operações de segurança", disse Catherine Milhoan, uma porta-voz da agência.

O anúncio não dizia explicitamente que o apartamento ficava na Trump Tower, e o Airbnb não revela endereços até que uma estadia seja reservada. Dois hóspedes disseram que haviam reservado o apartamento e depois se surpreenderam com o endereço que receberam: Quinta Avenida, número 721.

O apartamento atraiu críticas excelentes, obtendo 5 entre 5 estrelas no sistema de avaliação do Airbnb, no qual os hóspedes avaliam a precisão do anúncio, sua comunicação com o anfitrião e a limpeza, localização, relação custo-benefício da casa e procedimento de check-in.

Um dos avaliadores, um estudante do México que ficou na casa em fevereiro, elogiou a excelente vista e localização do apartamento. Ele escreveu que o único inconveniente foi o controle do Serviço Secreto, mas "uma vez que você passa por ele pela primeira vez, o Serviço Secreto é algo que você não percebe mais".

Tanto ele quanto Lamb compararam o procedimento de segurança com o utilizado no aeroporto. Lamb disse que ele incluía verificações com um detector de metal e outra máquina parecida com um "raio-X".

Em uma entrevista concedida por telefone, o estudante, que pediu para que seu nome não fosse usado para não chamar atenção, disse que ele pôde fazer o check-in sem a anfitriã estar presente.

Ela havia deixado instruções e uma chave no térreo. Ele disse que ele e seu namorado entregaram seus documentos de identidade para agentes do Serviço Secreto e lhes disse que ficariam hospedados lá.

"Eles não fizeram outras perguntas", ele disse.

O Airbnb disse através de um porta-voz que ele nunca havia sido contatado por nenhuma autoridade a respeito do anúncio.

A empresa, que tem mais de 3 milhões de anúncios no mundo todo, disse acreditar que essa era a primeira vez em que uma residência em um edifício ocupado por um chefe de Estado estava disponível para ser alugada em seu site.

O porta-voz, Nick Papas, disse que a empresa estava analisando a questão. "Esta obviamente é uma situação singular, então removemos o anúncio de nossa plataforma."

A disponibilidade contínua do apartamento no Airbnb antes, durante e depois das eleições levanta questões sobre como um anúncio desses foi permitido, considerando o tanto de segurança que há dentro e fora da Trump Tower.

Mark Camillo, que trabalhou por três períodos na Casa Branca ao longo de uma carreira de 21 anos no Serviço Secreto, disse que não era função da segurança determinar quem pode ou não pode entrar em um edifício, e sim verificar as pessoas para possíveis ameaças.

"É esse o desafio em uma sociedade livre", ele disse. "Se estivéssemos em países que fossem muito mais opressores, isso nem seria notícia. E todos os telefones no prédio seriam grampeados".

O Airbnb teve de enfrentar a questão da regulação de anúncios ilegais em seu site, tendo entrado em uma briga com a prefeitura de Nova York no ano passado.

A Mayor's Office of Special Enforcement, agência municipal encarregada de garantir o cumprimento de leis locais e estaduais, disse que investigaria o anúncio da Trump Tower. Uma porta-voz da Trump Organization, que administra o edifício, disse que pelas regras do condomínio não é permitido anunciar unidades no Airbnb.

Tradutor: UOL

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