Harmonização de maconha com vinho? Região da Califórnia abraça as possibilidades

Thomas Fuller

Em Santa Rosa (Califórnia)

  • Jim Wilson/The New York Times

    Josh Malgieri, vice-presidente da Sonoma Cannabis Company, checa o crescimento das plantas de maconha em Santa Rosa, na Califórnia

    Josh Malgieri, vice-presidente da Sonoma Cannabis Company, checa o crescimento das plantas de maconha em Santa Rosa, na Califórnia

No coração da região do vinho no norte da Califórnia, um engenheiro civil que virou um empresário da maconha está acrescentando uma nova dimensão à arte da harmonização de bons vinhos com comida gourmet: jantares de harmonização de maconha e vinho.

Sam Edwards, cofundador da Sonoma Cannabis Co., cobra de US$ 100 a US$ 150 (R$ 313 a R$ 470) por uma refeição que experimenta com tudo, desde um pesto de folhas de maconha até fungadas em flores de cannabis harmonizadas com sorvidas de um gelado chardonnay Russian River.

"Eles acentuam a intensidade do seu paladar", disse Edwards, 30, a respeito dos jantares, um deles tendo sido realizado recentemente em uma vinícola com vistas para os vinhedos de Sonoma. "Estamos vendo o que funciona e que sabores estão surgindo".

O condado de Sonoma, conhecido mundialmente por seus vinhos, tem sido ultimamente um campo de experimentação com a maconha. A aprovação do uso recreativo da maconha por eleitores da Califórnia em novembro incentivou autoridades locais a abraçarem a indústria da maconha e as arrecadações tributárias que ela pode trazer.

"Estamos fazendo acontecer", disse Julie Combs, membro do Conselho Municipal de Santa Rosa, que está ajudando a liderar um esforço para emitir licenças para empresas de cannabis. "Essa é uma indústria que realmente pode ajudar nossa região."

Dentre as muitas formas pelas quais a Califórnia está em uma rota de colisão com a administração Trump, desde questões de imigração até o meio ambiente, a entusiasmada adoção da maconha legalizada e regulamentada por parte do Estado pode ser um dos maiores testes do poder do governo federal.

O procurador-geral Jeff Sessions comparou a maconha com a heroína e, na quarta-feira, mencionou a cannabis no contexto do "flagelo que é o abuso de drogas".

Jim Wilson/The New York Times
Sam Edwards, cofundador da Sonoma Cannabis Company

"Eu rejeito a ideia de que os Estados Unidos serão um lugar melhor se a maconha for vendida em cada loja de esquina", ele disse. "E fico espantado em ouvir as pessoas sugerindo que podemos resolver nossa crise de heroína legalizando a maconha, de forma que as pessoas possam trocar uma dependência que arruína vidas por outra que é só ligeiramente menos terrível".

Para os ouvidos de muitos na Califórnia e em outros Estados onde o uso da maconha foi legalizado em graus variados, o estigma que Sessions atribui à cannabis soa como um remanescente de um passado distante.

A maconha, que já é legal para fins medicinais na Califórnia há duas décadas, pode ser encomendada pela internet para ser entregue em domicílio nas maiores cidades do Estado. Um ex-prefeito de Oakland, Jean Quan, se candidatou recentemente para abrir um dispensário de maconha em San Francisco.

A indústria é imensa. A Arcview, uma empresa que conduz pesquisas com cannabis, estima que o mercado da Califórnia sozinho tenha um valor de US$ 7 bilhões (R$ 22 bilhões).

As visões divididas dos Estados Unidos a respeito da maconha produziram um impasse estranho e inquietante. O uso recreativo é legal em oito Estados, inclusive todos aqueles ao longo da Costa Oeste. Ao mesmo tempo, os governos estaduais estão monitorando de perto os sinais do que a administração Trump pretende fazer.

No passado, autoridades federais destruíram plantações e processaram produtores. A lei federal ainda prevê uma sentença mínima de prisão de cinco anos pelo cultivo de uma quantia acima de 100 pés de maconha, embora durante a administração Obama a lei tenha sido aplicada somente em casos que envolviam violência ou gangues.

O porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, alertou recentemente para a possibilidade de um "maior rigor" contra o uso recreativo da maconha.

Jim Wilson/The New York Times
Estufa que a Sonoma Cannabis Company usa para produzir maconha em Santa Rosa

Aqueles que trabalham na indústria são constantemente lembrados do poder que o governo federal tem de intervir em seus negócios, inclusive limitando severamente seu acesso ao sistema bancário.

"Eles podem vir e arruinar sua vida", disse Edwards, o empresário da maconha. "Eles podem jogar você na cadeia, tomar sua terra".

No entanto, assim como tantos outros na indústria canábica aqui —estima-se que existam 9 mil produtores no condado de Sonoma— Edwards está seguindo em frente com sua empresa, que é especializada no cultivo e venda de produtos canábicos livres de agrotóxicos. E ele está planejando mais jantares de harmonização de maconha e vinhos.

"A História protege os audazes", ele disse.

O nome de sua empresa, Sonoma Cannabis Co., não tenta esconder em qual indústria ele está.

Alguns duvidam que a administração Trump tenha os meios de conduzir uma repressão generalizada contra uma indústria tão grande como essa no Estado mais próspero dos Estados Unidos.

"Acho meio improvável neste momento, vendo a administração Trump", disse Terry Garrett, um gerente da Sustaining Technologies, uma empresa de marketing que pesquisa o mercado da cannabis no condado de Sonoma. "Primeiro eles vão reformar o sistema de saúde, prender os imigrantes, construir um muro".

Hezekiah Allen, diretor-executivo da Associação de Cultivadores da Califórnia, um grupo da indústria da cannabis, disse que o clima entre os produtores era uma mistura de empolgação com ansiedade. Suas principais preocupações no momento têm mais a ver com impostos locais do que a possível intervenção federal, ele disse.

Uma proposta aprovada este mês por eleitores em Sonoma abre caminho para o condado emitir licenças, um grande passo para tirar a indústria da clandestinidade.

A política, conhecida como Medida A, favorece pequenos produtores artesanais ao tributar a área de cultivo em vez da tonelagem e ao cobrar alíquotas mais baixas para terrenos menores. Mas ela também dá ao condado uma maior liberdade de elevar impostos sem necessidade de votação.

Mesmo com as alíquotas menores, os impostos estaduais e do condado correspondem à metade da receita bruta de um produtor típico, disse Allen.

"Com alíquotas mais altas, o imposto acabaria sendo proibitivo", ele disse.

A combinação de altas taxas com a ameaça de uma intervenção federal poderia levar os produtores de volta à clandestinidade, segundo Allen e outros. E muitas regulamentações ainda precisam ser escritas antes da introdução completa da maconha recreativa na Califórnia.

"Falando de forma geral, estou me sentindo encorajado", disse Allen. "Mas é uma aposta imensa".

Tradutor: UOL

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