Análise: O maior obstáculo entre Trump e suas metas políticas? Seus próprios erros

Michael D. Shear

Em Washington (EUA)*

  • Kevin Lamarque/Reuters

    Trump dá entrevista coletiva no Salão Oval após fracasso de sua reforma de saúde

    Trump dá entrevista coletiva no Salão Oval após fracasso de sua reforma de saúde

O fracasso do presidente Donald Trump em cumprir sua promessa mais destacada, a de rejeitar e substituir a Lei de Acesso à Saúde, o Obamacare, é a mais forte derrota política em seus primeiros dias na Casa Branca. Mas de modo algum é a única.

Trump, que se vendeu como um vencedor capaz de reverter um país que "não vence mais", sofreu uma série de erros, controvérsias, renúncias e investigações que prejudicaram sua promessa --"Só eu posso consertar isto"-- de reformular o governo com eficiência empresarial.

Faltando um mês para o prazo de cem dias que os presidentes usam para avaliar seu sucesso, os reveses de Trump, na maioria autoinfligidos, são evidência de um político novato, muitas vezes sem interesse pelo funcionamento interno do governo, que luta para exercer sua autoridade constitucional ou entender plenamente os limites do cargo.

"Nenhum governo teve cem dias iniciais tão ruins", disse Steve Schmidt, um antigo estrategista republicano que serviu como conselheiro do vice-presidente Dick Cheney.

Enquanto Trump tenta se recuperar, as dificuldades do presidente para governar com eficácia --formando coalizões, prevendo bloqueios, neutralizando adversários e enxergando além da esquina-- representam uma ameaça muito maior a suas próximas iniciativas para a reforma do código fiscal e da infraestrutura do que qualquer obstrução que os democratas pudessem oferecer.

Schmidt disse que a Casa Branca teria de estar "alucinando" para não reconhecer a profundidade dos desafios do novo presidente. A pergunta para Trump é "Com essas derrotas, ele aprende lições sobre como fazer acordos em Washington?", acrescentou Schmidt.

A resposta ainda não está clara.

Desde o dia da posse, Trump demitiu seu assessor de segurança nacional por mentir, viu tribunais bloquearem por duas vezes sua proibição de viagens a alguns países de maioria muçulmana e se enfureceu quando o FBI anunciou que estava investigando seus associados por ligações com a interferência russa na campanha eleitoral de 2016.

Em seu governo, os militares realizaram um ataque fracassado no Iêmen --que ele aprovou durante o jantar dias após sua posse--, e militares americanos investigam relatos de que talvez 200 civis tenham sido mortos em ataques aéreos recentes em Mossul, no Iraque. O presidente do México cancelou com irritação uma visita à Casa Branca em meio a uma disputa sobre o plano de Trump de construir um muro na fronteira.

O presidente e sua equipe proferiram uma longa lista de mentiras, inclusive uma acusação infundada de que o presidente Barack Obama havia grampeado seus telefones, que os envolveram em dias de controvérsia.

Os índices de aprovação de Trump --que nunca foram altos-- caíram para menos de 40%, o nível mais baixo já registrado neste ponto de uma Presidência.

Autoridades da Casa Branca dizem que o presidente também teve vários êxitos. Sean Spicer, o secretário de imprensa, indicou a nomeação do juiz Neil Gorsuch à Suprema Corte, o discurso bem recebido do presidente em uma sessão conjunta do Congresso e as muitas ordens executivas que ele emitiu.

"Quantas pessoas fizeram tanto em 60 dias?", indagou Spicer. "Há muitos pontos no placar."

Os aliados do presidente, porém, admitem que ele foi prejudicado pela falta de planejamento disciplinado e execução eficaz, muitas vezes porque o governo reage furiosamente a eventos externos ou a uma das postagens inesperadas de Trump no Twitter.

O republicano Newt Gingrich, que foi presidente da Câmara e um firme defensor de Trump durante a campanha presidencial, disse que a decisão dos republicanos de abandonar a lei de saúde na sexta-feira (24) deve convencer o presidente a não contar com o presidente da Câmara, Paul Ryan, ou outros aliados do partido para implementar sua agenda.

"Ele não sabe delegar. O mundo que ele quer é drasticamente diferente de qualquer coisa que eles experimentaram", disse Gingrich.

Ele descreveu Trump como "muito irritado" com os legisladores republicanos por seu fracasso quanto à lei de saúde. "Ele está irritado pelo fato de que eles passaram várias semanas para chegar a um impasse quando Trump tinha certeza de que teriam os votos", disse Gingrich.

Durante uma reunião com Trump na Casa Branca na sexta-feira, Ryan disse ao presidente que sentia muito por não ter conseguido os votos. Trump disse secamente a Ryan que muitos lhe disseram que deveria ter contrariado o conselho do deputado e tentado uma reforma do código fiscal primeiro, refrão a que o presidente retornou com frequência.

Mas Gingrich rejeitou a ideia de que a Presidência de Trump será prejudicada pelo fracasso na saúde ou qualquer outro revés. Ele previu que o presidente conseguirá a confirmação de Gorsuch e comentou que, apesar do fracasso da lei da saúde, Trump na sexta-feira reverteu a rejeição por Obama do oleoduto Keystone XL, projeto muito popular entre os seguidores de Trump.

"Ele foi o presidente nesta manhã. Ele será o presidente amanhã. Ele tem todas as vantagens que isso implica", disse Gingrich. "Ele está tendo uma Presidência melhor do que qualquer um na mídia de Washington pensa."

E Trump não é o único a dar passos em falso no começo.

O presidente Bill Clinton se envolveu em uma polêmica inicial sobre gays prestarem serviço militar. E o esforço de sua mulher, Hillary Clinton, para reformar a saúde falhou de modo tão espetacular quanto o de Trump. Obama perdeu a aposta em uma lei de "limitação e créditos" das emissões de carbono, mas essa derrota aconteceu em seu segundo ano no cargo.

O desafio para Trump é claro, porém: como superar o turbilhão e as disputas internas cotidianas na Ala Oeste e provar que ele pode usar sua experiência como empresário para promover as políticas que prometeu quando candidato.

Para ganhar uma reestruturação do código fiscal do país e um investimento de US$ 1 trilhão em infraestrutura pública, Trump precisará encontrar uma maneira de formar coalizões vitoriosas na Câmara e no Senado, reunindo facções muitas vezes beligerantes do Partido Republicano. Isso poderá ser ainda mais difícil com a reforma fiscal do que foi com a saúde, diante dos interesses monetários que observam cada proposta de mudança. Sobre certas metas bipartidárias, o presidente terá de aproveitar a oportunidade para conseguir alguns votos democratas.

Para ter êxito no uso do poder executivo, o presidente terá de ser mais hábil em esboçar ordens que não sejam contestadas judicialmente. Obama enfrentou problemas semelhantes ao usar com frequência crescente sua autoridade executiva para contornar um Congresso republicano recalcitrante.

Para evitar ser apanhado em negociações intermináveis, Trump terá de abrandar sua guerra verbal com as agências de inteligência e policiais. As investigações podem esgotar a vida política de uma Presidência, como descobriu Ronald Reagan durante o escândalo Irã-Contras e Bill Clinton aprendeu durante as investigações sobre Monica Lewinsky.

E se Trump quiser reparar sua credibilidade pessoal, que foi danificada em parte pelas muitas mentiras que ele articulou, talvez precise conter seu uso do Twitter.

Em uma entrevista a "The New York Times", enquanto os republicanos admitiam o fracasso quanto à lei de saúde, Trump insistiu que o processo legislativo não é diferente do que ele enfrentou em sua carreira no setor imobiliário. Mas na noite de sexta o presidente disse a seus assessores de olhar esgotado que seus antigos negócios eram fáceis, comparados com o que ele acaba de encontrar em Washington.

Enquanto Trump se retirava para a residência da Casa Branca, parecia cansado em todos os sentidos, segundo seus assessores. Havia um desgaste nele que não estava presente na véspera.

Afinal, o início conturbado da Presidência Trump pode ser consequência do modo como ele vê seu relacionamento com Washington --como um forasteiro com pouco respeito pelas amenidades esperadas por políticos de carreira, a mídia noticiosa, diplomatas, lobistas e grupos de interesse.

Em seu discurso de posse, o presidente condenou o establishment, chamando-o de "pequeno grupo" que "aproveitou as recompensas do governo enquanto a população suportou o custo".

Em um pronunciamento na casa de Andrew Jackson, o sétimo presidente dos EUA, no Tennessee, Trump adotou a ideia de que havia paralelos entre seu governo e o de Jackson.

"Foi durante a revolução que Jackson enfrentou e desafiou pela primeira vez uma elite arrogante. Isso lhes parece familiar?", perguntou Trump aos presentes, com um largo sorriso.

"Ah, eu conheço essa sensação, Andrew", completou.

*Alan Rappeport e Maggie Haberman colaboraram na reportagem.

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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