Antes unido contra Obama, o Partido Republicano luta por consenso sob Trump

Jeremy W. Peters

Em Washington (EUA)

  • Jonathan Ernst/Reuters

    24.mar.2017 - O presidente da Câmara dos Representantes, Paul Ryan, anuncia o fracasso na votação da reforma da saúde, em Washington

    24.mar.2017 - O presidente da Câmara dos Representantes, Paul Ryan, anuncia o fracasso na votação da reforma da saúde, em Washington

Sempre que um grande plano conservador em Washington entra em colapso, geralmente é fácil atribuir a culpa aos republicanos linhas-duras que insistem na pureza em detrimento da praticidade.

Mas enquanto os republicanos reviravam os escombros de seu esforço fracassado de substituir a Lei de Atendimento de Saúde a Preço Acessível (apelidada de Obamacare), eles encontravam culpa em quase toda parte para qual olhavam.

O presidente Donald Trump, postando no Twitter no domingo (26), via múltiplos culpados, inclusive um grupo renegado de conservadores da Bancada da Liberdade da Câmara e grupos de fora, como o Clube pelo Crescimento. Esses grupos, que nem sempre trabalham harmoniosamente juntos, se alinharam contra o presidente e contra o presidente da Câmara, Paul Ryan, o símbolo supremo do desprezo deles pelos modos entranhados da capital.

Ao mesmo tempo, alguns viram o presidente também apontando o dedo para Ryan, quando Trump pediu no sábado a seus seguidores no Twitter que assistissem à apresentadora da Fox News, Jeanine Pirro, que pedia que o presidente da Câmara deixasse o cargo.

Por oito anos, essas divisões eram com frequência encobertas pela antipatia compartilhada dos republicanos pelo presidente Barack Obama. Agora, enquanto o partido luta para se ajustar à ordem política pós-Obama, ele se vê diante de uma pergunta incômoda: como se manter unido quando o homem que unia a oposição não está mais presente?

Obama fornecia aos conservadores não apenas uma lei de saúde e um poder de veto para culpar, mas também um rosto que permitia que a oposição deles fosse mais palpável.

"Como Obama não está mais ali, o elemento emocional da oposição foi drenado", disse Rich Lowry, editor da revista conservadora "National Review".

Os republicanos também precisam lidar com um presidente forasteiro que nunca teve afinidade ou lealdade para com seu partido, e que, como político novato, não construiu os relacionamentos em Washington geralmente necessários para se fechar grandes acordos.

"Há essa disjunção", acrescentou Lowry. "Ele não tem um partido no Congresso. Ele não conta nem mesmo com uma ala do partido no Congresso."

Na briga em torno da lei de saúde, não foi apenas a extrema direita, instigada por grupos de fora, que rompeu com a liderança republicana. Há dissidência até mesmo entre os legisladores conservadores intermediários, aqueles que representam comunidades suburbanas fora da Filadélfia e de Washington, assim como Estados rurais como a Louisiana. Até mesmo líderes do partido, como o deputado Rodney Frelinghuysen, o poderoso presidente do Comitê de Apropriações da Câmara, foram contrários ao projeto de lei.

Grupos de interesse na direita também ficaram divididos, com aliados naturais como a Americanos pela Reforma Tributária, o grupo anti-impostos, e a Americanos pela Prosperidade, um grupo pró-livre mercado apoiado pelos irmãos Koch, em lados opostos.

Apesar dos republicanos terem repetido com frequência que proporcionariam liberdade e boa fortuna se assumissem o comando, eles agora foram sacudidos pela conscientização de que a dificuldade para chegarem a um consenso coloca em dúvida se poderão implantar outras prioridades, como a reforma tributária e mudanças na infraestrutura, comércio e imigração.

"É um desafio para o Partido Republicano moderno e para o governo Trump descobrir como chegarem a 218 de forma regular", disse Grover Norquist, presidente da Americanos pela Reforma Tributária, que apoiava o projeto de lei de saúde republicano que fracassou na semana passada. Em geral, 218 é o número de votos necessário para aprovação de uma legislação na Câmara.

Norquist disse que o desejo por amplas mudanças distorceu a percepção de alguns conservadores sobre o que pode ser conseguido e quão rapidamente. "Eles querem mudar as regras", ele acrescentou. "Mas até que possa de fato mudar as regras, elas estão lá e é preciso viver de acordo com elas."

Em um sinal de quão profundamente esse episódio abalou a facção conservadora do partido, um dos membros da Bancada da Liberdade renunciou em protesto no domingo, dizendo não mais acreditar que o grupo é eficaz.

"Dizer não é fácil, liderar é difícil, mas isso é o que fomos eleitos para fazer", disse o legislador, o deputado Ted Poe, do Texas.

O que dificulta o progresso em qualquer questão é o conflito fundamental entre as crenças de Trump, cujos instintos são mais populistas do que conservadores, e os líderes republicanos no Congresso, que defendem uma visão mais orientada a um governo pequeno e políticas de livre mercado.

"Trump, independente do que acredita, conseguiu ver que o que estava sendo oferecido aos republicanos não era realmente o que queriam", disse David Frum, o escritor conservador e ex-redator de discursos do presidente George W. Bush. "Eles queriam maior atendimento de saúde para si mesmos, menos imigração e não mais Bushes. E o que lhes foi oferecido foi menos atendimento de saúde, mais imigração e um terceiro Bush."

O governo Trump agora deseja se concentrar na reforma tributária. E nisso Trump provavelmente encontrará acordo entre os republicanos no Congresso.

Mas elaborar um plano que agrade a maioria dos conservadores não será simples. Eles permanecem divididos em alguns detalhes cruciais, como a taxação de importados. Alguns no partido, como Ryan, defendem esse plano, enquanto outros, como os grupos de defesa política apoiados pelos Koch, argumentam que ele poderia provocar guerras comerciais e elevar os custos manufatureiros.

Expondo o desalento entre muitos na direita após a batalha em torno da lei de saúde, Ann Coulter, a jornalista e polemista, atacou Ryan por buscar "os padrões corporativistas republicanos".

"O que fez Donald Trump se destacar na multidão e da multidão de candidatos presidenciais por 20 anos", ela disse, "foi a imigração, comércio, infraestrutura e a construção do muro. Obviamente, isso era muito, muito popular".

Quanto à postagem de Trump no Twitter no sábado, um funcionário da Casa Branca disse que ela e o ataque de Pirro a Ryan foram uma coincidência, mas que o presidente tem sido pressionado por alguns assessores a considerar o papel de Ryan na derrota do projeto de lei de saúde.

Como os republicanos resolverão as questões da dívida e do déficit também poderão se transformar em armadilhas para o tipo de progresso legislativo que Trump deseja, especialmente após o começo turbulento de sua presidência. Essas questões, pelas quais Ryan e muitos outros republicanos aguardavam ansiosamente para tratar desde que assumiram o poder, não são especialmente importantes para Trump, que está mais voltado para os tipos de projetos que são naturais para ele como empreendedor imobiliário, como infraestrutura.

E debates esotéricos sobre gastos que aumentam o deficit não importarão para os eleitores tanto quanto suas finanças pessoais.

"Quando ele voltar a Rochester na campanha pela reeleição, ele não poderá falar sobre o quanto mudou no déficit, pois ninguém se importará", disse Frank Cannon, um velho ativista conservador.

"Mas se ele puder falar sobre participação no mercado de trabalho, empregos, empregos mais bem remunerados, é com base nisso que ele será julgado. E o destino dos republicanos nos próximos ciclos eleitorais dependerá disso enquanto ele for o presidente dos Estados Unidos."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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