Em clima de censura e parcialidade na imprensa, Sérvia se prepara para eleger presidente

Matthew Brunwasser

Em Belgrado (Sérvia)

  • AP Photo/Darko Vojinovic

    Aleksandar Vucic, primeiro-ministro e candidato a presidente da Sérvia, discursa durante a campanha

    Aleksandar Vucic, primeiro-ministro e candidato a presidente da Sérvia, discursa durante a campanha

Quando ele era ministro da Informação da Sérvia no final dos anos 1990, Alexander Vucic censurou jornalistas, acabou com a carreira de críticos da mídia e serviu como propagandista-chefe para o regime de Slobodan Milosevic, o tirano sérvio desprezado pelas atrocidades que se seguiram à queda da Iugoslávia.

Hoje Vucic é o primeiro-ministro da Sérvia, tendo sido eleito em 2014 como reformista com base nas promessas de conduzir a Sérvia para um futuro democrático e para uma adesão à União Europeia. Ele abriu mão das visões nacionalistas extremas de seu passado.

Líderes ocidentais contam com ele como um parceiro para manter a paz entre as minorias sérvias no Kosovo e na Bósnia, para apoiar suas políticas de imigração e para manter distância suficiente da Rússia, ainda que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, tenha professado seu apoio a Vucic.

No entanto, jornalistas sérvios que retrataram Vucic de forma crítica dizem que pouco realmente mudou. Eles dizem que as táticas de perseguição e de intimidação tornaram quase impossível fazer um jornalismo imparcial.

Stevan Dojcinovic é editor da Crime and Corruption Reporting Network, uma ONG que faz jornalismo investigativo online. Ele tem 31 anos, uma personalidade obstinada, usa barba curta e desgrenhada e piercings.

Ele vinha investigando os bens não declarados da família de Vucic no ano passado quando sua foto apareceu na primeira página do "The Informer", um popular tabloide pró-Vucic em Belgrado, cinco vezes em um mês. Algumas das fotos e das informações pessoas só poderiam ter sido obtidas através de espionagem do governo, diz Dojcinovic. "Espião Francês Sadomasoquista?", era a manchete de capa uma edição.

Outras matérias acusavam Dojcinovic de trabalhar alternadamente para o crime organizado, para o empresário e filantropo George Soros e para agências de inteligência ocidentais, sem explicar como ele conseguiria trabalhar para os três ao mesmo tempo.

"Você não pode realizar eleições democráticas em um ambiente não democrático", disse Dojcinovic.

O repressivo ambiente da mídia de notícias é um dos motivos pelos quais existe pouca cobertura sobre a mais recente manobra de Vucic: ele está concorrendo à Presidência e enfrentará outros 10 candidatos nas urnas este domingo (2). Há grandes expectativas de que vença, mas ele espera evitar um segundo turno. Se o primeiro colocado não receber maioria absoluta dos votos [50% + 1], um segundo turno será realizado em 16 de abril, e os resultados desse embate pode não ser tão previsível.

Vucic diz que renunciará ao cargo de primeiro-ministro caso seja eleito. Embora o trabalho do presidente seja basicamente cerimonial na teoria, ele daria a Vucic o direito de escolher seu sucessor como primeiro-ministro e a capacidade de consolidar seu poder sobre todas as instituições da Sérvia: o partido no poder, o Parlamento, o governo e agora a Presidência, que supostamente deve estar acima da política.

(O incumbente, Tomislav Nikolic, decidiu não concorrer a um segundo mandato de cinco anos.)

Um candidato da oposição, Vuk Jeremic, diz que o cenário midiático da Sérvia se tornou mais obscuro, perigoso e até mesmo criminoso, com jornalistas enfrentando pressões financeiras e proprietários de veículos da mídia enfrentando ameaças e intimidações, campanhas de difamação por parte da mídia pró-governamental e ataques pessoais de Vucic e seus aliados.

"Nunca foi assim antes, esse tipo de desequilíbrio e injustiça", disse Jeremic, ex-ministro de Relações Exteriores, que diz usar quase que exclusivamente as mídias sociais para alcançar os eleitores. "Numa situação anormal como essa, não se pode nem começar a falar em liberdade de expressão".

Dejan Anastasijevic, 55, repórter da "Vreme", uma revista semanal, disse que a Sérvia "nunca realmente teve uma eleição livre e justa para todos os candidatos", mas esta eleição ultrapassa até mesmo as eleições passadas no que diz respeito à ausência de uma disputa real.

"Não existe um verdadeiro debate em lugar nenhum", disse Anastasijevic. Os comentários se limitam a visões "pró-Vucic" e "extremamente pró-Vucic", ele disse.

Anastasijevic disse que a situação de certa forma estava até mesmo pior do que durante a época de Milosevic, que focava sua propaganda na mídia estatal ao mesmo tempo em que permitia que uma imprensa de oposição, robusta ainda que pequena, operasse "como um disfarce para mostrar que ele não era um ditador".

"Hoje existe menos liberdade de expressão e mais risco se você critica Vucic ou seus associados", disse Anastasijevic. "Sua panelinha controla a maior parte da economia da Sérvia, não somente companhias estatais, mas também o setor privado."

Vucic recebeu 120 vezes mais cobertura da imprensa sérvia do que os dois principais candidatos da oposição juntos, de acordo com o Birodi, um grupo de pesquisas independente.

Cerca de 10% das matérias de capa dos jornais sobre Vucic ao longo do último mês eram negativas, de acordo com um estudo feito pela organização de monitoramento não governamental CRTA, em comparação com os 53% e 61% dos principais candidatos da oposição.

Um porta-voz disse que Vucic estava em campanha e indisponível para comentários.

Um dos partidários mais abertos de Vucic é Dragan Vucicevic, editor e dono do "The Informer", que é conhecido por suas matérias de capa apelativas e sórdidas, muitas delas contra críticos de Vucic.

"Cada jornal deve ter uma postura, e neste jornal a Sérvia e os interesses nacionais sérvios sempre vêm em primeiro lugar", disse Vucicevic em uma entrevista, dentro de um escritório onde se vê um retrato de Putin de gorro de pelo preto pendurado na parede.

Embora Vucicevic admita abertamente ser um "amigo antigo" de Vucic, ele nega as acusações de que o "The Informer" seja um cão de ataque político.

"Nós somos a única mídia independente da Sérvia", diz Vucicevic. "Somos independentes do governo americano, de George Soros, da malévola União Europeia, da Fundação Rockefeller e do Instituto Democrático Nacional", ele acrescentou, referindo-se às entidades ocidentais que apoiam a liberdade de imprensa mas muitas vezes são retratadas na mídia de direita como escudeiras de Washington.

O mais recente relatório anual sobre direitos humanos do Departamento de Estado notou diversos problemas com liberdade de expressão na Sérvia, como perseguição a jornalistas, pressão que leva à autocensura, e até mesmo acusações de inconfidência contra críticos.

Desde que Milosevic deixou o poder, "as poucas conquistas democráticas que tivemos ao longo dos últimos 15 anos agora estão indo pelo ralo", disse Jelena Milic, diretora do progressista Center for Euro-Atlantic Studies (Centro de estudos euro-atlânticos) em Belgrado. "Não existe governo, Estado, instituições ou separação de poderes na Sérvia. Existe somente Vucic."

Tradutor: UOL

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