Opinião: Usado como arma política, ato de guerra aumenta popularidade e distrai a atenção

Charles M. Blow

  • Ford Williams/Marinha dos EUA/AFP

Donald Trump voltou atrás em quase tudo o que dizia sobre o envolvimento militar americano na Síria e lançou quase 60 mísseis contra uma base aérea no país.

A declaração oficial de Trump alegou que os ataques foram em resposta ao monstruoso ataque com armas químicas pelo presidente sírio, Bashar Assad, contra seu próprio povo. Mas a declaração também ingressou na ficção de medo, frequentemente promovida para justificar as missões humanitárias: "É de interesse vital de segurança nacional dos Estados Unidos prevenir e deter a disseminação e uso de armas químicas mortais".

Isso faz lembrar o alerta de George W. Bush sobre as "armas de destruição em massa" de Saddam Hussein, uma mentira que nos levou a uma guerra que durou quase uma década.

Não querendo ser indelicado, mas atrocidades acontecem no mundo o tempo todo (e já aconteceram antes em uma escala ainda maior na Síria). Os seres humanos são capazes de crueldade inimaginável. Às vezes as vítimas morrem rapidamente e são mostradas pela mídia para que o mundo as vejam. Outras vezes, elas morrem em câmera lenta, fora de vista e fora das atenções. Às vezes são usadas armas proibidas, às vezes armas convencionais, às vezes abandono, isolamento e fome.

E o mundo em geral, e os Estados Unidos em particular, tem uma forma estranha a respeito de que atrocidades merecem resposta e quais não. Essas decisões podem ser caprichosas, na melhor das hipóteses, ou camuflagens calculadas para motivos escusos, na pior.

De fato, os motivos para uma ação militar não precisam ser singulares, sendo com frequência múltiplos, inseridos um dentro do outro como bonecas matriosca.

Atos de guerra podem ser usados como armas políticas. Eles podem distrair a atenção, abafar acrimônia, aumentar o apetite para gastos militares e aumentar índices de aprovação ruins.

Esse efeito de "união em torno da bandeira" é bem documentado pelos especialistas em pesquisas de opinião.

Como o instituto Gallup escreveu em 2001, depois dos ataques do 11 de Setembro: "Após os ataques terroristas de terça-feira, a aprovação americana à forma como o presidente George W. Bush está realizando seu trabalho aumentou para 86%, o quarto maior índice de aprovação já medido pelo Gallup nas seis décadas em que pede aos americanos para fazerem a avaliação. Apenas os presidentes George H.W. Bush e Harry Truman receberam avaliações maiores, Bush pai por duas vezes durante a Guerra do Golfo, com 89% (a mais alta já registrada) e 87%, e Truman com 87%, logo após a rendição dos alemães na Segunda Guerra Mundial".

É fácil vender o heroísmo de uma missão humanitária ou o medo do terror, ou ambos atrelados, como Trump tentou neste caso.

A tentação de empregar a imensa máquina de guerra americana é sedutora, mas também viciante. A colocação desse poder nas mãos de um homem como Trump, que opera mais por impulso e intuição do que intelecto, deveria fazer o mundo estremecer.

O problema vem quando o brilho inicial se desfaz e vem a escuridão. Nós abrimos buracos em algum lugar do outro lado do mundo e os falcões de guerra, muitos a serviço do complexo industrial-militar, gritam e desfilam com peitos estufados.

Mas alimentar a besta da guerra apenas aumenta o apetite deles. O site de notícias financeiras "Market Watch" noticiou na semana passada: "Pode custar cerca de US$ 60 milhões a reposição dos mísseis de cruzeiro disparados pelas forças armadas americanas contra alvos sírios na noite de quinta-feira", enquanto a revista "Fortune" noticiava que as ações de fabricantes de armas, tão logo começaram a ser negociadas na sexta-feira, apresentaram "um ganho coletivo de quase US$ 5 bilhões em valor de mercado".

A guerra é um negócio, e um negócio lucrativo.

Os americanos, que com razão ficaram chocados com as imagens de crianças mortas, aplaudiram. Eles se sentem orgulhosos por bater na mão de um vilão sem colocar americanos em risco. Mas agora os americanos podem estar inevitavelmente envolvidos. Nosso dedo está na balança e nossa reputação está em jogo.

Com frequência, ação leva a mais ação, à medida que consequências indesejadas brotam como ervas daninhas.

Nos casos mais extremos, nós derrubamos um líder ruim em algum país pobre. Na teoria, isso ajuda os cidadãos daquele país. Mas na realidade complexa que tivemos que aprender repetidas vezes na história recente, isso costuma criar um vácuo onde um homem ruim pode ser substituído por homens ainda piores.

Mas a essa altura estamos atolados até a cintura, de modo que temos que fazer uma escolha impossível: permanecer e tentar consertar o que quebramos, ou abandonar e assistir nossos pesadelos se multiplicarem.

A nobreza da cruzada é consumida pelo atoleiro.

É por isso que todos faríamos bem em conter os discursos de guerra autocongrulatórios e o agitar de pompons de nossos políticos e especialistas, alguns dos quais hipocritamente foram contrários ao uso de força militar pelo presidente Barack Obama, após um ataque químico ainda pior na Síria em 2013.

Por mais justa que possa parecer a punição a Assad, a Síria é um vespeiro de forças hostis aos Estados Unidos: Assad, Rússia e Irã de um lado e o Estado Islâmico do outro. Não é possível atingir um lado sem auxiliar o outro. Desse modo, a Síria é um lugar onde é quase impossível vencer.

Nós já percorremos esse caminho antes. No horizonte se encontra uma colina: íngreme e escorregadia devido às motivações políticas e ambições militares, sangue e tesouro americanos desperdiçados.

Estar cansado aqui não é sinal de fraqueza, pelo contrário. É um sinal de sabedoria duramente obtida.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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