Trump segue seus instintos ao cogitar encontro com Kim Jong-un e Duterte

Mark Landler

Em Washington (EUA)

  • Mike Stewart/AP

    Donald Trump discursa na NRA

    Donald Trump discursa na NRA

O presidente Donald Trump dá continuidade a seu estender de mão a líderes inamistosos na segunda-feira, declarando que se encontraria com o ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, desde que as circunstâncias fossem certas, enquanto o presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, recusou o convite do presidente para uma visita à Casa Branca, dizendo estar "ocupado demais".

As aberturas heterodoxas de Trump, a um déspota com armas nucleares que expurgou brutalmente seus rivais e a um político insurgente acusado de mortes extrajudiciais de suspeitos de envolvimento com drogas, ilustram a confiança do presidente em sua capacidade de fechar acordos e sua disposição de conversar virtualmente com qualquer um.

Nenhum presidente americano se encontrou com um líder norte-coreano desde que o avô de Kim, Kim Il-sung, estabeleceu um Estado stalinista ali depois da Guerra da Coreia. Por mais vaga e improvisada que seja, a oferta de Trump sacudiu uma situação já instável na Península Coreana, que está alarmada com a perspectiva de um confronto militar entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte.

"Kim Jong-un ficaria encantado em se encontrar com o presidente Trump na condição de um encontro de um líder nuclear com outro", disse Christopher R. Hill, um diplomata de carreira que foi emissário especial para a Coreia do Norte durante o governo de George W. Bush. "Se eu fosse Trump, eu evitaria isso."

A resposta oblíqua de Duterte para Trump, entretanto, também mostra as armadilhas de seu tipo pessoal de diplomacia. O presidente já é fortemente criticado por grupos de direitos humanos por abraçar um homem visto por muitos como responsável pelas mortes de milhares de pessoas suspeitas de envolvimento com drogas. Agora, ele também pode acabar sendo esnobado pelo próprio Duterte.

"O risco mais sério com essa série de declarações não coordenadas e controversas é dele minar a moeda mais importante do poder americano: a credibilidade das palavras do presidente", disse Evan S. Medeiros, que serviu como alto conselheiro para a Ásia para o presidente Barack Obama.

Trump expôs inicialmente a ideia de se sentar com Kim durante a campanha presidencial de 2016. Ele a retomou em uma entrevista na segunda-feira para a "Bloomberg News", dizendo: "Se fosse apropriado para mim me encontrar com ele, eu o certamente o faria. Eu me sentiria honrado em fazê-lo".

A Casa Branca esclareceu que Trump só consideraria um encontro caso o líder norte-coreano atendesse uma série de condições, começando por uma contenção de seu comportamento provocador. A Coreia do Norte realizou seu mais recente teste de míssil balístico, que fracassou, na semana passada.

"Queremos manter a possibilidade de que se a Coreia do Norte for séria a respeito do completo desmonte de sua capacidade nuclear e deixar de ser uma ameaça tanto para a região quanto para nós", disse o secretário de imprensa, Sean Spicer, "sempre haverá a possibilidade de isso ocorrer". Mas ele acrescentou: "Essa possibilidade inexiste no momento".

Por ora, o governo Trump está buscando uma estratégia mais tradicional de endurecimento da pressão econômica sobre a Coreia do Norte, principalmente por meio de sua vizinha, a China, e somando a isso a ameaça de uma ação militar. Trump disse na semana passada que apesar de querer resolver a crise com a Coreia do Norte por meio da diplomacia, um "grande conflito" é possível.

Alguns especialistas disseram que a abertura de Trump para a diplomacia é um reflexo da influência da China, que há muito pede para que os Estados Unidos falem diretamente com a Coreia do Norte. Desde o encontro de Trump na Flórida, no mês passado, com o presidente da China, Xi Jinping, ele tem elogiado Xi pelo que insiste ser a disposição da China de usar sua influência sobre a Coreia do Norte para coibir o comportamento desta.

"Os chineses disseram para Trump: 'Você precisa conversar com essas pessoas'", disse Joel S. Wit, um especialista em Coreia do Norte da Universidade Johns Hopkins, que esteve envolvido na diplomacia durante o governo Clinton que resultou em um acordo nuclear com a Coreia do Norte em 1994.

"Eles estão tentando criar as circunstâncias certas para negociações", disse Wit, "aumentando a pressão sobre os chineses, aumentando a pressão sobre os norte-coreanos, e então abrindo uma saída".

Mas o momento da abertura por Trump, disseram analistas e diplomatas, foi irremediavelmente prematuro. Em negociações desse tipo, os presidentes americanos geralmente atuam apenas no final, assumindo o processo após todo o trabalho preparatório ter sido feito, para preencher as últimas lacunas. Até o momento, Kim não demonstrou nenhum interesse em até mesmo dar início a uma negociação dessas.

Hill disse que chegar a um acordo verificável de desnuclearização poderia ser auxiliado pelo tipo de encontro proposto por Trump.

Trump tem falado de forma generosa sobre Kim nos últimos dias, notando que ele sobreviveu aos círculos políticos traiçoeiros em Pyongyang após ter assumido o poder ainda jovem. Trump sugeriu que Kim rechaçou o esforço por parte de seu tio de tomar o poder. Em 2013, Kim afastou seu tio poderoso, Jang Song Taek, que foi posteriormente executado.

Grupos de direitos humanos também suspeitam que Kim esteve por trás do assassinato de seu meio-irmão exilado, Kim Jong-nam, que foi abordado em um aeroporto em Kuala Lumpur, Malásia, por duas agressoras empunhando um líquido contendo o agente nervoso VX.

Além das intrigas palacianas, a família Kim preside um dos regimes mais repressivos do mundo, deixando o país em farrapos e seu povo na miséria.

Quando lhe foi pedido que explicasse por que Trump consideraria uma honra se encontrar com um líder como esse, Spicer disse: "Acho que por ele ainda ser um chefe de Estado". Ele notou que havia "muitas ameaças potenciais em seu caminho e mesmo assim ele conseguiu conduzir seu país à frente", acrescentou Spicer. "Ele é um jovem que está liderando um país com armas nucleares."

Por sua vez, Duterte pareceu não impressionado com o convite de Trump à Casa Branca, feito pelo presidente durante um telefonema no sábado, para surpresa de seu próprio pessoal. O líder filipino disse que ele e Trump tiveram uma conversa amistosa, mas que não se comprometeu a visitar Washington, dizendo que sua agenda está lotada.

"Não posso fazer nenhuma promessa", disse Duterte aos repórteres após uma visita aos navios chineses em Davao City, sua cidade natal. "Eu devo ir à Rússia, também devo ir a Israel."

Caso Duterte rejeite o convite de Trump, ele o pouparia de mais críticas por ser anfitrião de um líder com reputação tóxica. No último domingo, altos funcionários disseram esperar que o Departamento de Estado e o Conselho de Segurança Nacional resistam a uma visita à Casa Branca. Mas na segunda-feira, um funcionário disse que a Casa Branca não fez um convite a Duterte para depois voltar atrás.

Spicer defendeu o convite, dizendo que as Filipinas eram importantes para o isolamento diplomático e econômico da Coreia do Norte. Ele disse que Trump foi informado sobre o histórico de Duterte antes de conversarem por telefone.

Josh Kurlantzick, um alto funcionário do Conselho de Relações Exteriores, disse que espera que Duterte venha aos Estados Unidos, mas pode querer não parecer muito ansioso por isso. O líder filipino fez questão de exibir sua independência em relação aos Estados Unidos, um país aliado por tratado.

"Apesar de apreciar um melhor relacionamento com este presidente americano, ele deverá manter a cautela de não parecer abraçar demais os Estados Unidos", disse Kurlantzick, "dado que dedicou grande parte dos recursos diplomáticos cortejando a China".

*Felipe Villamor, em Manila (Filipinas), contribuiu com reportagem.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos