Dark web alavanca vendas de drogas e desafia autoridades dos EUA

Nathaniel Popper

  • Minh Uong/The New York Times

Com o agravamento da crise de opioides nos Estados Unidos, as autoridades estão enfrentando um elemento ressurgente e incontrolável no comércio ilícito das drogas letais, que ameaça ser ainda mais desafiador que os cartéis: a internet. 

Segundo autoridades policiais, tem havido um número crescente de prisões e de overdoses, com as drogas sendo compradas online. As vendas pela internet permitiram que opioides sintéticos potentes como o fentanil—a causa de overdoses que mais cresce em todo o país—alcançassem salas de estar em praticamente todas as regiões do país, por chegarem em pequenos pacotes pelo correio.

As autoridades têm se frustrado em seus esforços para reprimir o comércio porque esses sites geralmente existem na dark web, onde os compradores podem visitar anonimamente usando navegadores especiais e fazer compras com moedas virtuais como o bitcoin.

O problema das vendas pela dark web parecia ter sido suprimido em 2013, quando as autoridades fecharam o mais famoso site de vendas de drogas, conhecido como Silk Road. Mas, desde então, surgiram inúmeros sucessores, tornando as drogas facilmente disponíveis para dezenas de milhares de clientes que não teriam acesso a elas de outra forma.

Entre os mortos estão dois adolescentes de 13 anos, Grant Seaver e Ryan Ainsworth, que morreram no outono passado na rica cidade turística de Park City, em Utah, depois de tomarem um opioide sintético conhecido como U-47700 ou Pinky. Os rapazes haviam recebido o pó de outro adolescente local, que comprou as drogas na dark web usando o bitcoin, de acordo com o chefe de polícia de Park City.

"É inconcebível que Grant possa ter tido acesso a uma droga como o Pinky tão facilmente, e que tenha se ido tão rapidamente, de uma hora para outra", disse Jim Seaver, pai de Grant. "A dor e a brutalidade dessa tragédia são agoniantes".

Em grande parte por causa de sua potência, os opioides sintéticos se tornaram a causa que mais cresce da epidemia de overdoses, ultrapassando a heroína em algumas áreas. Alguns poucos flocos de fetanil podem ser fatais.

Sua eficácia letal também as torna ideais para serem vendidas online. Diferentemente da heroína e de analgésicos vendidos sob receita médica, que são relativamente volumosos, a quantia de fentanil suficiente para dar barato a quase 50 mil pessoas cabe em um envelope padrão A4.

Os mercados de drogas da dark web ganharam atenção pela primeira vez há seis anos com a ascensão do Silk Road, o site de vendas online criado por Ross Ulbricht. Ulbricht foi preso e o site foi fechado no final de 2013, mas logo se proliferaram os imitadores.

Nenhuma agência federal divulgou dados sobre a prevalência das drogas encomendadas pela internet. Mas os principais sites estão vendendo muito mais do que o Silk Road original, de acordo com descobertas do RAND Europe e de pesquisadores da Universidade Carnegie Mellon.

As autoridades dizem que esses mercados correspondem a uma pequena proporção do tráfico total da maioria das drogas, incluindo a heroína e a cocaína. Mas no que diz respeito aos opioides sintéticos, muitas autoridades que estão rastreando o tráfico dizem que os mercados da dark web logo assumiram um papel mais proeminente e assustador.

A dark web "se tornou uma fonte muito importante de distribuição para esse tipo de droga letal", disse Kathryn Haun, que foi procuradora de San Francisco até o mês passado, e a primeira coordenadora de moedas digitais do Departamento de Justiça. "Ela possibilitou canais de distribuição que não existiam antes".

Até sexta-feira, o principal site de vendas da dark web, AlphaBay, tinha mais de 21 mil anúncios de opioides e mais de 4.100 para fentanil e drogas similares, de dezenas de grandes e pequenos vendedores. Muitos desses anúncios individuais são como itens em um catálogo, representando um suprimento infinito de pílulas, pós e sprays nasais.

No mês passado, autoridades federais anunciaram que foram feitas acusações contra uma operação envolvendo seis pessoas em Utah que vinham comprando fentanil no atacado da China através da dark web e depois transformando o pó em comprimidos, vendendo-os na dark web para usuários nos Estados Unidos.

As autoridades dizem que o grupo havia vendido centenas de milhares desses comprimidos, muitas vezes divulgados como sendo drogas menos perigosas como Xanax e Oxicodona.

O suposto líder da operação, Aaron Shamo, foi identificado por muitos usuários do AlphaBay como o vendedor conhecido como Pharma-Master, que tinha 8.332 vendas verificadas no site.

Os fóruns sociais no AlphaBay e outros sites estão repletos de conversas sobre quão potentes são as drogas, com menções frequentes a viagens que terminaram em prontos-socorros ou em apagões.

"Eu estava injetando devagar, pus um terço da dose para dentro, quando vi acordei com 3 paramédicos em cima de mim", escreveu um usuário chamado AgentOrange 007 em uma postagem no fórum do AlphaBay. "Se não tivessem me encontrado porque eu estava fazendo um som alto de ronco (língua enrolada no fundo da garganta), eu certamente teria morrido".

Autos do processo mostram que no ano passado houve mais de duas dezenas de prisões de traficantes de drogas americanos que vinham tocando operações significativas de compra ou venda de opioides sintéticos online, a maior parte deles ligados a mortes específicas por overdose.

No final de fevereiro, um homem na Carolina do Sul foi acusado de receber mais de 3 kg de fentanil encomendado pela dark web, o suficiente para matar 1,5 milhão de adultos, considerando que somente 2 miligramas já são uma dose letal. 

Algumas semanas depois, em Nova Jersey, autoridades prenderam Chukwuemeka Okparaeke, que supostamente usava o nome de usuário Fentmaster no Alphabay. Ele havia recebido 2 kg de fentanil de um endereço em Hong Kong, de acordo com uma queixa-crime.

Depois, em abril, um morador de Cleveland, Alec Steinberger, 21, foi preso e acusado de receber um pacote de furanil fentanil que estava se preparando para vender nas ruas. Ele supostamente enviou uma mensagem de texto para uma pessoa de 19 anos que estava o ajudando a distribuir as drogas, para alertar sobre sua potência.

"Mano, tomei na noite passada e minhas pupilas encolheram tanto que sumiram, e depois fiquei batendo cabeça por 18 horas", dizia a mensagem de texto, de acordo com a acusação.

Quando o rapaz de 19 anos experimentou as drogas, ele teve uma overdose e morreu.

Okparaeke, Steinberger e Shamo se declararam todos inocentes. Seus advogados não quiseram comentar sobre seus casos.

Autoridades policiais que estão investigando esses casos dizem que documentos públicos não representam o total de casos envolvendo a dark web porque muitos autos de processos não mencionam as fontes online das drogas.

E muitos casos—inclusive a morte no ano passado do músico Prince, de uma overdose de fentanil—ainda estão sendo investigados por causa do advento relativamente recente do fenômeno.

"Ele veio a ter um papel chave na crise da overdose", disse Tim Plancon, que supervisiona a Drug Enforcement Administration, agência federal antidrogas, em Kentucky, Michigan e Ohio, Estados no epicentro da crise da overdose. "Ele se expandiu para além do tradicional contrabando e tráfico de drogas. Existe muito mais envolvido quando você está lidando com gente na dark web com moedas virtuais".

Os Estados Unidos não são o único país a lidar com essa invasão de opioides sintéticos por encomenda. O Canadá e vários países europeus também efetuaram prisões recentemente de suspeitos acusados de serem grandes traficantes de drogas atuantes na internet responsáveis por diversas mortes.

Mas os números são particularmente impressionantes nos Estados Unidos. Em 2015, o último ano para o qual há dados nacionais disponíveis, o fentanil e drogas similares mataram 9.580 pessoas, ou 75% a mais que em 2014. O número de mortes aumentou ainda mais rápido no ano passado em áreas que divulgaram números, como Ohio e New Hampshire. No total, as mortes causadas por overdose de drogas estão subindo nos Estados Unidos, e provavelmente passaram de 59 mil no ano passado.

As autoridades dizem que a maior parte do suprimento ilícito de opioides sintéticos é produzida em laboratórios na Ásia e especialmente na China, onde muitos dos químicos precursores são ou legais ou mais fáceis de se obter.

Os cartéis de drogas latino-americanos também estão obtendo opioides sintéticos da Ásia e levando-os para os Estados Unidos. Mas a facilidade operacional de se enviar drogas pelo correio dá ao método um atrativo óbvio para os produtores chineses, muitos dos quais têm conhecimento técnico suficiente para abrir suas próprias lojas na dark web. 

Um dos vendedores de opioides sintéticos com mais avaliações no AlphaBay atende pelo pseudônimo BenzoChems. O vendedor compartilha vídeos online de suas operações na China.

Em uma série de mensagens trocadas pelo sistema interno de mensagens do AlphaBay, BenzoChems, que se negou a informar seu nome verdadeiro, disse que havia descoberto que enviar pacotes através de Hong Kong, e depois através dos correios americanos, era o método mais eficiente de trânsito.

Alguns produtores chineses também listam opioides sintéticos para venda em sites na internet normal, sem requerer que usuários cheguem até eles através de um navegador especial de dark web. Mas a maioria das queixas-crime nos Estados Unidos parecem envolver drogas obtidas através de mercados que existem somente na dark web.

BenzoChems disse que havia vendido seus produtos em sites normais, mas esse sites logo foram fechados pelas autoridades.

A tecnologia da dark web foi desenvolvida originalmente por agências de inteligência americanas para permitir a comunicação criptografada. Organizações da mídia, incluindo o "The New York Times", a usam para receber informações de fontes vulneráveis.

Mas os mercados ilícitos possibilitados pela dark web tornaram muito mais complicado conter o fluxo de drogas letais do que antes, quando autoridades tentaram parar ondas anteriores de overdoses por drogas.

"Nós poderíamos lhe dar uma boa ideia dos traficantes de drogas na cidade que conseguem encomendar quilos do México—essa é uma mercadoria conhecida", disse Joseph M. Pinjuh, chefe da força-tarefa para o crime organizado no gabinete da procuradoria dos Estados Unidos em Cleveland. "O mais difícil é rastrear a pessoa que está encomendando isso a partir do porão da avó."

Tradutor: UOL

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