Cidade filipina tenta sobreviver no fogo cruzado entre Exército e militantes do EI

Richard C. Paddock e Felipe Villamor

Em Manila (Filipinas)

  • AFP PHOTO / Noel CELIS

    14.jun.2017 - Fumaça preta toma os ares da cidade de Marawi, palco de combate entre o Exército das Filipinas e militantes do Estado Islâmico no país

    14.jun.2017 - Fumaça preta toma os ares da cidade de Marawi, palco de combate entre o Exército das Filipinas e militantes do Estado Islâmico no país

Uma fumaça preta sobe por trás de exuberantes palmeiras. Tanques passam ao lado de elegantes minaretes. Balas caem como chuva sobre ruas vazias.

O cerco na cidade de Marawi, ao sul das Filipinas, entra em sua quarta semana; mais de 200 pessoas foram mortas e boa parte da cidade está em ruínas. A tentativa mais incisiva até o momento de partidários do Estado Islâmico de ganhar terreno no Sudeste Asiático virou um combate urbano naquilo que hoje é em grande parte uma cidade-fantasma.

Em comércios fechados às pressas, leem-se cartazes informando que "atiraremos em saqueadores". Cães vira-latas fuçam por comida nas ruas desertas. Uma garoa leve na terça-feira contribuía para o sentimento de desespero.

As forças armadas filipinas parecem ter adotado uma estratégia de destruir a cidade para salvá-la, conduzindo bombardeios pelo menos duas vezes ao dia.

Os rebeldes estão ocupando uma parte do centro da cidade, controlando postos de verificação em várias pontes e instalando atiradores de elite armados em algumas das mesquitas da cidade. Acredita-se que centenas de civis estejam no meio deles, tornando um ataque do governo mais difícil. Cada lado alega ter cercado o outro; ambos parecem estar se preparando para uma longa batalha. 

Uma batalha combatida casa por casa

Marawi, uma cidade de 200 mil habitantes, fica à beira do lago Lanao, na ilha de Mindanao. O rio Agus, que corre a partir do lago, divide a cidade.

Os militantes ainda detêm a parte da cidade ao sudeste do rio, que no passado foi um centro financeiro e comercial. Os combates mais intensos estão concentrados em uma área de aproximadamente 500 m2, segundo um comandante militar.

Atiradores rebeldes estão posicionados nos prédios mais altos, forçando as tropas filipinas a manterem distância. As forças armadas dizem que os rebeldes estão controlando um quinto da cidade.

"É uma guerra urbana, um combate cara a cara", disse o tenente-coronel Christopher Tampus, um comandante de batalhão de infantaria na linha de frente. "Eles ainda estão resistindo. O combate é casa por casa, prédio por prédio".

O Exército filipino está controlando o espaço aéreo e tem usado helicópteros e aeronaves de asa fixa para bombardear a cidade, infligindo danos pesados, mas, até o momento, sem conseguir expulsar os combatentes.

Conhecida oficialmente como a Cidade Islâmica de Marawi, Marawi é a maior cidade predominantemente muçulmana em um país que é mais de 90% católico. Algumas das construções mais notáveis da cidade são mesquitas.

O Exército filipino diz que os militantes estão usando mesquitas e madraçais como bases para os combates, inclusive para posicionar ninhos de atiradores. Ele reclamou que suas forças não podem atacar essas construções porque elas são protegidas como monumentos culturais.

Força insurgente combinada

Os militantes são uma força combinada de duas insurgências islamitas.

O líder deles é Isnilon Hapilon, designado pelo Estado Islâmico como seu emir no Sudeste Asiático. Ele lidera uma facção da Abu Sayyaf, um grupo militante de décadas de existência mais conhecido por tomar estrangeiros como reféns. Ele está na lista dos terroristas mais procurados do FBI, e os Estados Unidos ofereceram uma recompensa de US$5 milhões (mais de R$16 milhões) por sua captura.

Hapilon se juntou ao grupo Maute, liderado pelos irmãos Abdullah e Omarkhayam Maute. Eles, que estudaram no Oriente Médio, supostamente juraram lealdade a Hapilon.

As forças armadas filipinas dizem que os militantes ofereceram uma resistência muito maior do que se esperava.

A disputa por Marawi representa a primeira vez em que os grupos Maute e Hapilon se juntam para uma operação dessa envergadura. As autoridades dizem que eles também tiveram a adesão de combatentes da Indonésia, da Malásia, da Arábia Saudita, do Iêmen e da Chechênia.

Máquina de propaganda

Com a intensificação dos combates, o Estado Islâmico postou vídeos, supostamente de Marawi, promovendo a narrativa dos rebeldes de que eles estão vencendo e que o Exército filipino "fracassou completamente" em sua tentativa de retomar a cidade.

As imagens mais recentes, divulgadas na segunda-feira, mostram homens disparando armas a partir de edifícios, intercaladas com cenas de Marawi. Elas terminam com uma execução explícita na qual seis homens algemados de camisas laranja se ajoelham e depois são metralhados pelas costas.

Zia Alonto Adiong, um porta-voz do Exército em Marawi, disse que as cenas de militantes disparando armas "parecem ser de Marawi", mas que as das execuções, não. Ele disse que não poderia confirmar a localização e que as camisas laranja das vítimas não eram vestimentas típicas. Ninguém usa isso aqui como uma roupa normal", ele disse.

O vídeo também afirma que mais de 200 soldados filipinos foram mortos, e que os militantes se apoderaram de armas que foram deixadas para trás por forças do governo que bateram em retirada.

"Passados 21 dias desde que combatentes do Estado Islâmico penetraram na cidade de Marawi, nas Filipinas, combates intensos continuam a ocorrer no seu centro, e combatentes do Estado Islâmico estão espalhados por mais de dois terços da área, apertando o cerco contra o Exército filipino, que não consegue reassumir o controle da situação", diz o narrador.

O Exército filipino diz que o governo perdeu 58 soldados e policiais, e que ele está apertando o cerco contra os rebeldes. 

O papel dos Estados Unidos

Os americanos estão fornecendo vigilância e assistência com informações para o Exército filipino como parte de um acordo antigo. Desde o início dos anos 2000, os Estados Unidos estacionaram uma força rotativa de 50 a 100 tropas das Forças Especiais no sul das Filipinas para fornecer treinamento e assistência técnica às forças armadas das Filipinas, em sua luta contra os terroristas.

Agora a inteligência americana está provavelmente ajudando o Exército filipino a selecionar alvos para bombardeio.

Mas tropas estrangeiras são proibidas de combater, segundo a Constituição das Filipinas, e autoridades dos Estados Unidos e das Filipinas dizem que não há tropas americanas em Marawi.

Uma repressão governamental

O presidente Rodrigo Duterte declarou lei marcial por 60 dias na ilha de Mindanao, a segunda maior ilha do país, onde diversos grupos rebeldes islâmicos operaram durante décadas.

Duterte, que enfrenta sua maior crise desde que tomou posse há quase um ano, havia falado em declarar lei marcial em todo o país em sua campanha contra as drogas, que resultou na morte de milhares de pessoas nas mãos de policiais e justiceiros.

Postos de verificação montados em toda Mindanao podem ajudar na apreensão de militantes que fujam de Marawi nas próximas semanas. O pai dos irmãos Maute, Cayamora Maute, e outros parentes, foram presos em um posto de verificação na Cidade de Davao. Uma unidade mista de militares e policiais prendeu a mãe deles, Ominta Romato Maute, no vilarejo de Masiu, a uma hora de estrada de Marawi.

Para o Exército filipino, que tem mais experiência no combate aos islamitas na selva, o cerco de Marawi significou combates urbanos, com tanques do governo percorrendo as ruas e forças militares passando de porta em porta.

Civis encurralados

Os militantes apreenderam um número desconhecido de civis no primeiro dia do cerco. Não está claro quantos sobreviveram. O Exército acredita que os rebeldes estejam usando parte deles como escudos humanos.

Aqueles que escapam da cidade são checados de perto pela polícia.

Dezenas de milhares de refugiados fugiram da cidade quando começaram os combates. Mas cerca de 2 mil civis permaneceram, de acordo com socorristas e a Cruz Vermelha local.

Muitos deles estão encurralados em suas casas ou em outros prédios—os que ainda estão de pé—esperando pelo fim do cerco. Nos últimos dias, alguns conseguiram fugir. 

Milhares dos deslocados foram abrigados em centros de evacuação temporária no subúrbio da cidade. 

*Com reportagem de Richard C. Paddock (Manila) e de Felipe Villamor (Marawi)

Tradutor: UOL

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