"Tem algum homem aqui com quem eu possa falar?": mulheres relatam machismo no trabalho

Susan Chira e Brianna Milord

  • STEPHEN CROWLEY/NYT

    Senadora Kamala Harris, questiona o secretário de justiça dos EUA, Jeff Sessions, durante audiência do Comitê de Inteligência do Senado

    Senadora Kamala Harris, questiona o secretário de justiça dos EUA, Jeff Sessions, durante audiência do Comitê de Inteligência do Senado

Na semana passada, depois do gracejo feito por um membro do conselho do Uber e da interrupção da senadora Kamala Harris durante uma audiência do Comitê de Inteligência do Senado, o "The New York Times" pediu às mulheres que compartilhassem suas próprias experiências. Mais de 1.000 responderam, oferecendo histórias detalhadas das vezes em que foram interrompidas, punidas por falarem o que pensam, subestimadas ou discriminadas em termos de salário, promoções ou gravidez.

Algumas pediram para não ter seu nome revelado, por temerem repercussões na carreira. Vários comentários foram condensados por motivos de espaço.

Algumas mulheres relembraram momentos em que expuseram alguma ideia durante uma reunião, e depois algum colega homem interrompeu, apropriando-se da ideia como se fosse sua.

"Trabalho na indústria de geração de energia, petróleo e gás, e vivo cercada por uma maioria de homens.

Faço sugestões e comentários durante as reuniões, e muitas vezes minhas sugestões são simplesmente ignoradas. Então, alguns momentos depois, um homem na sala apresenta minha sugestão como se fosse dele, e todos demonstram muito apoio e incentivo, por assim dizer.

Quando estou em uma conversa coletiva por e-mail com uma equipe de colegas, e se eu expresso algo que não esteja de acordo com o que um de meus colegas homens diz, ele me envia uma mensagem depois me dizendo que preciso 'suavizar minhas respostas' para ele.

Amigos e parentes que não me viam há algum tempo já me disseram que eu falo 'com muita autoridade', mesmo em uma conversa amigável fora do trabalho, e que eu 'meio que falo como um homem'. Tenho certeza de que comecei a fazer isso por causa do trabalho, uma vez que preciso parecer o menos feminina possível para ser levada a sério". – Jennifer Kelly

"Sou uma engenheira transgênero, trabalho para uma grande empresa aeroespacial. Fiz minha transição no meio da minha carreira. Descobri que, antes da minha transição, minhas contribuições e opiniões durante as reuniões eram ouvidas e consideradas. Após a transição, se eu dou uma opinião ou faço uma afirmação, parece que somente quando um colega homem faz a mesma afirmação é que ela é levada a sério. Ele então leva crédito pela ideia. Sem falar nas constantes interrupções que sofro enquanto estou falando.

Se alguém quiser proclamar que esse tipo de comportamento não existe, tenho minha vida, vivida com dois gêneros, para refutar isso". –Christienne Frank.

Algumas mulheres compartilharam relatos sobre comentários machistas lançados contra elas durante reuniões ou sobre contribuições suas sendo ignoradas.

"Sou professora universitária de informática com doutorado em Ciências da Computação. Recentemente, durante uma reunião sobre contratações de docentes, eu estava explicando como um certo candidato a uma vaga (que era um homem) não deveria ser contratado para nossa equipe docente porque ele nunca havia trabalhado com dados médicos, que são esparsos, complicados e precisam de muita limpeza.

Fui interrompida depois da parte da 'limpeza' por um colega homem que disse, 'Tenho certeza de que você entende muito de limpeza'. As pessoas riram". –Nome não divulgado

"Em uma empresa onde trabalhei, a C-suite era dominada por homens, mas os cargos gerenciais eram ocupados predominantemente por mulheres. Lembro-me de estar sentada junto com duas outras mulheres inteligentes esperando pelo CEO, e quando ele entrou, olhou em volta e perguntou: 'Cadê todos os homens?'

Ele não se dava conta de que nós é que estávamos fazendo as coisas andarem". –Jen Pinner

"Sou uma advogada aposentada da Califórnia. Eu estava tendo uma conversa por telefone com um advogado homem, durante a qual eu defendia energicamente a posição do meu cliente. Fui interrompida no meio da minha frase pelo advogado homem, que disse, 'Acho que você precisa tomar um Midol [remédio para cólica menstrual] e me ligar de novo quando estiver se sentindo melhor'. Embora tenha ficado revoltada com esse comentário machista e ridículo, decidi ignorá-lo e continuei com minha argumentação. Então o advogado desligou na minha cara". –Linda Castro

"Eu trabalhava com investimentos e por algum tempo fui a única mulher da equipe.

Cheguei a ouvir, 'A única razão para você estar na sala de reuniões da diretoria é se você estivesse nos trazendo chá'. Quando eu disse que aquilo era inaceitável, me falaram que eu não sabia aceitar uma piada. Levei essa questão para o chefe do departamento, e ele se recusou a acreditar em mim.

O mesmo chefe de departamento havia feito um comentário quando perguntei sobre oportunidades de transferência para o exterior. Ele me perguntou: 'Por que você quer ir para o exterior? Para arranjar um homem?'

Pressionei meu chefe direto a fazer algo a respeito, e ele tem o mérito de ter tentado. Mas, como era de se esperar, fui excluída por ter falado o que pensava e por reclamar.

A experiência me diz que é uma questão cultural que vem de cima para baixo. Se a alta diretoria não leva isso a sério ou não é responsabilizada, não há esperanças para o resto da equipe". –Nome não divulgado

"Eu era a única sócia mulher de uma empresa de consultoria que estava tentando ganhar um cliente. E eu era a única que tinha alguma experiência significativa e conhecimento nessa situação específica. No entanto, minha ideia foi amplamente ignorada. Quando expus minha frustração, fui repreendida em público e em privado, e ainda ouvi ameaças como 'Se você se comportar assim... Não sei se você deveria dar consultoria aos clientes'. Isso aconteceu quando eu já tinha 25 anos de carreira em consultoria". –Mel Lowe

Algumas mulheres falaram de forma geral sobre a diferença de salários de acordo com o gênero, mas muitas compartilharam histórias específicas sobre receberem menos do que um colega homem no mesmo cargo.

"Uma das minhas favoritas mais recentes aconteceu durante uma revisão anual de desempenho. Falaram que eu não ia receber aumento (nem mesmo um reajuste de acordo com a inflação), então fiquei um pouco surpresa. A resposta do meu gerente foi: 'Não importa. Seu dinheiro é só para diversão, mesmo'". –Nome não divulgado

Enquanto a maior parte das mulheres contou sobre inúmeros casos de machismo e de discriminação por gênero em locais de trabalho, outras elogiaram uma cultura de inclusividade.

"Tive experiências muito positivas em meu local de trabalho. Isso pode surpreender as pessoas, porque sou professora-assistente de teologia em uma universidade evangélica na região Centro-Oeste. Os cristãos, especialmente os evangélicos conservadores, têm uma reputação de adotarem papéis de gênero retrógrados.

Nunca me senti subestimada ou silenciada, mesmo quando sou a única mulher em um comitê. Meus colegas homens entendem (ou pelo menos estão tentando entender) a importância de serem defensores da inclusão total das mulheres.

Acho que a grande diferença na minha situação é o comprometimento teológico da minha universidade com a igualdade de gênero. Às vezes nós, mulheres, especialmente mulheres ativistas progressistas como eu, podemos ver aspectos tão profundos do machismo que acabamos nos esquecendo do fato de que há progressos sendo feitos, e de que existem lugares onde as mulheres realmente prosperam". –Miranda Zapor Cruz

"Eu trabalho em uma estação de tratamento de esgoto, e tenho um alvará na área. Alguns homens literalmente vêm até nossa estação, me veem e perguntam, 'Tem algum homem aqui com quem eu possa falar ?' Também fui acusada de 'conseguir meu emprego indo para a cama com os outros'. Claro, porque toda mulher sonha em ter que ir para a cama com alguém para entrar na indústria do esgoto". –Kristina Gossman

Tradutor: UOL

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