Pioneira da aviação desaparecida há 80 anos volta a ser alvo de buscas nos EUA

Jacey Fortin

  • AP

    Multidão cerca o avião de Amelia Earhart em Londonderry (Irlanda do Norte)

    Multidão cerca o avião de Amelia Earhart em Londonderry (Irlanda do Norte)

Ela desapareceu há quase 80 anos e ainda estão tentando encontrá-la

Amelia Earhart estava prestes a se tornar a primeira mulher piloto a circunavegar o globo quando ela e o navegador Fred Noonan partiram de Lae, Nova Guiné, em um bimotor Lockheed Electra em 2 de julho de 1937.

Mas algo saiu errado na rota para a Ilha Howland, na região central do oceano Pacífico, e ambos desapareceram.

Foi uma notícia chocante na época. Earhart, na época com 37 anos, era conhecida não apenas como uma piloto consumada, mas também como escritora, oradora e até mesmo estilista de moda durante os anos 1930, quando era ainda politicamente correto referir-se a ela como "aviatrix".

Hoje, algumas pessoas insistem que vestígios da piloto foram encontrados e que estão chegando perto de comprovar uma teoria contestada sobre seu desaparecimento.

Para isso, uma nova missão está em andamento. Pesquisadores agora estão seguindo para Nikumaroro, um atol de corais que faz parte das Ilhas Fênix de Kiribati. Com eles estão quatro cães farejadores de restos mortais humanos, até mesmo restos mortais com décadas de idade que podem estar enterrados a vários metros de profundidade.

Os cães são um novo detalhe empolgante, mas o contexto é sério: esta é apenas mais uma expedição em uma busca que já dura décadas, custando milhões de dólares e provocando rivalidades sérias entre pesquisadores.

Esta missão, que parte de Fiji no sábado, é uma colaboração entre a National Geographic, a empresa de turismo Betchart Expeditions e o Grupo Internacional para a Recuperação de Aeronaves Históricas, uma organização sem fins lucrativos com sede na Pensilvânia. Ela é mais conhecida pela sua sigla em inglês, Tighar, que é pronunciada como "tiger" (tigre).

O Tighar está nisso há décadas. Esta será sua 12ª expedição a Nikumaroro.

"Tem sido um longo processo. É como montar um quebra-cabeça", disse Ric Gillespie, o diretor-executivo da organização. Ele vê suas últimas 11 viagens não como uma série de fracassos, mas como um acúmulo lento e constante de evidências que o levarão, algum dia, à prova que ele está procurando.

A National Geographic patrocinou os quatro cães forenses, Berkeley, Piper, Marcy e Kayle, todos border collies, mas não compartilhou os detalhes sobre o custo da expedição desta semana. Gillespie disse que as expedições próprias do Tighar nos últimos anos, que foram financiadas em grande parte por contribuições de seus membros, custaram entre US$ 500 mil e cerca de US$ 2 milhões.

Andrew McKenna, um mergulhador que é membro do Tighar, disse em uma entrevista por telefone de Fiji, na semana passada, que procurará pelo Electra no mar, enquanto os cães farão o trabalho deles em terra.

A estadia deles no atol remoto de Nikumaroro durará oito dias, ele disse. E apesar de a ilha ser muito quente, coberta de vegetação espessa e habitada por enormes caranguejos-dos-coqueiros, ele já gostaria de dispor de mais tempo. "Francamente, você sempre parte quando está começando a se sentir produtivo", ele disse.

Albert Bresnik/AFP
Amelia Earhart, que desapareceu em 2 de julho de 1937


Segundo a hipótese do Tighar, Earhart e Noonan se desviaram de sua rota de voo planejada para o sul e pousaram em Nikumaroro (na época chamada de Ilha Gardner). Eles enviaram sinais de socorro usando energia do motor do Electra, até a maré alta cobrir o avião. Aviões da Marinha sobrevoaram na época a ilha em sua busca pelo Electra e, ao não vê-lo, seguiram adiante.

"O drama está realmente nesse momento", disse McKenna. "Imagine Amelia acenando seus braços freneticamente para os aviões no céu e então eles vão embora, e ela fica literalmente abandonada. O que fazer então?"

Mas nem todos concordam com essa versão dos eventos.

Alguns defendem ideias mais bizarras, alegando que Earhart era uma espiã que foi capturada por agentes japoneses. Também há uma teoria de que ela de alguma forma voltou para os Estados Unidos e viveu uma vida longa e discreta com um nome diferente em Nova Jersey.

Mas historicamente, a ideia mais aceita é a teoria de que o avião de Earhart caiu no oceano e afundou, a teoria endossada originalmente pelo governo americano.

A incompatibilidade entre a narrativa de Nikumaroro e a hipótese de queda no oceano provocou uma rivalidade de décadas entre equipes adversárias de pesquisadores e historiadores. Livros e artigos foram escritos, palavras duras foram trocadas e expedições caras foram lançadas em apoio a ambas as principais teorias.

"Eles querem acreditar desesperadamente que podemos encontrá-la", disse Dorothy Cochrane, uma curadora de aeronáutica do Museu Nacional do Ar e Espaço do Instituto Smithsoniano. "Espero que a encontremos algum dia, mas não é tão importante para mim. O que importa para mim é o legado dela."

Cochrane disse acreditar com quase certeza que Earhart nunca tenha chegado a Nikumaroro.

Mas o pessoal do Tighar diz que as evidências estão a seu favor. Eles apontam para artefatos encontrados na ilha: um zíper de fabricação americana, cacos de garrafas americanas e cacos de um frasco que combina com os de uma empresa americana de pomada para sardas durante os anos 1930.

Cochrane disse que eles podem ter sido deixados por colonos britânicos ou outros que tenham chegado ao atol após o desaparecimento de Earhart.

Gillespie disse que há várias outras evidências em apoio à sua teoria, citando documentos de transmissões de rádio, registros de ossos encontrados na ilha, uma antiga foto que parece mostrar o Electra apontando para fora da água perto do atol em 1937 e mais. Tudo está cuidadosamente documentado no site do Tighar.

Mas evidência, ele disse, não é prova.

"O que o público deseja é uma prova", ele disse, acrescentando que se o Electra não puder ser encontrado, "ele quer um osso com DNA que combine com o DNA de Earhart".

É para isso que servem os cães.

Fredrik Hiebert, o arqueólogo residente da National Geographic Society que integra a expedição, disse estar intrigado com a ideia dos cães farejadores há anos.

"Eles farejam a substância química resultante da decomposição do corpo e ossos humanos, de modo que essa substância é singular", ele disse.

Mesmo assim, Gillespie tem suas dúvidas sobre se os cães poderão encontrar amostras de DNA úteis após 80 anos.

E seus críticos duvidam até mesmo que Earhart  tenha chegado até o atol.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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