Antes cidade modelo, Hong Kong agora enfrenta dificuldades

Keith Bradsher

Em Hong Kong (China)

  • Lam Yik Fei/The New York Times

    Choi Hung Estate, no distrito de Kowloon, em Hong Kong

    Choi Hung Estate, no distrito de Kowloon, em Hong Kong

Quando Hong Kong voltou a ser governada pela China, há 20 anos, a cidade era considerada um modelo do que a China poderia se tornar: próspera, moderna, internacional, com as amplas proteções do regime de direito.

Havia nervosismo sobre como esse lugar poderia sobreviver na China autoritária. Mas mesmo depois que Pequim começou a restringir as liberdades nesta antiga colônia britânica sua reputação como uma das cidades mais bem administradas da Ásia persistiu.

Os trens funcionavam no horário. A criminalidade e os impostos eram baixos. O horizonte se enchia de prédios cada vez mais altos.

Isso tudo ainda é verdade. Mas com a aproximação do 20º aniversário da transferência, no sábado (1), a percepção de Hong Kong como algo especial --uma encruzilhada vibrante entre Oriente e Ocidente, que a China poderia copiar-- está desbotando.

Disputas intermináveis entre o governo local, apoiado por Pequim, e a oposição pró-democracia paralisaram a capacidade do governo de tomar decisões difíceis e concluir projetos importantes.

Lam Yik Fei/The New York Times
Ambulantes vendem roupas de segunda-mão em Sham Shui Po

Apanhada entre modos de governo rivais --as ordens de Pequim e as demandas da população--, as autoridades deixaram os problemas se alastrarem, como a crise de moradias acessíveis, o sistema educacional confuso e o atraso na construção de uma linha de trens de alta velocidade.

Muitos dizem que a disputa sobre o futuro político de Hong Kong a paralisou, e talvez a tenha condenado ao declínio. Em consequência, a cidade é cada vez mais mostrada não como um modelo do futuro da China, mas como uma história de advertência. Para Pequim e seus aliados, sobre os perigos da democracia; para a oposição, sobre os perigos do autoritarismo.

"Há uma sensação crescente de impotência", disse Anson Chan, a segunda autoridade do governo de Hong Kong nos anos anteriores e logo após a entrega ao regime chinês. Ela culpa a interferência de Pequim pelos problemas da cidade. "Temos esse gigante à nossa porta", disse, "e o resto do mundo não parece questionar tudo o que o gigante faz."

Outros distribuem a culpa mais amplamente. Indicam a relutância da oposição a se comprometer e políticas que enfraquecem os partidos políticos, como distritos legislativos com várias cadeiras, que permitem que candidatos radicais vençam com uma minoria dos votos.

Lam Yik Fei/The New York Times
Vista do Victoria Harbor

"Esse tipo de clima político irá perturbar muitas iniciativas que poderão surgir", disse Anna Wu, membro do conselho executivo do território, ou Gabinete.

Uma estação para trens de alta velocidade projetada para Hong Kong está pela metade, anos depois de todas as grandes cidades chinesas serem ligadas por trens-bala.

Hong Kong se classifica só depois de Nova York e Londres como centro financeiro global, mas não tem museus de nível mundial. Após 15 anos de atrasos, foi iniciada a construção de um polo cultural destinado a rivalizar com o Lincoln Center de Nova York, mas as verbas da legislatura poderão ser interrompidas nos próximos dias.

As queixas gerais sobre escolas obcecadas por exames, que deixam os alunos mal equipados para competir com os da China continental, não levaram a uma reforma educacional. O governo tampouco encontrou uma maneira de abordar a irritação pública sobre os preços disparados da habitação.

Hong Kong já foi conhecida pela rapidez e a eficiência com que construía enormes bairros planejados com ampla habitação pública, a intervalos de poucos anos. Mas não conseguiu fazer isso depois que o Reino Unido a devolveu ao regime chinês, em 1º de julho de 1997.

Lam Yik Fei/The New York Times
Estudantes visitam a centro de informação da Autoridade Monetária de Hong Kong

Hong Kong ainda é uma joia sob muitos aspectos, um lugar difícil de não se gostar, e para seus 7,4 milhões de habitantes, difícil de deixar.

Faixas estreitas de arranha-céus à beira-mar situam-se diante de morros cobertos de árvores, protegidos como parques naturais. O aço e o concreto se diluem em trilhas na mata que contornam lagos e cachoeiras, tudo isso não muito longe do enorme e eficiente aeroporto da cidade, parte de uma rede de transporte renovada de metrôs, ônibus, bondes e barcas.

Mas o aeroporto foi construído pelos britânicos antes de partirem, assim como as instituições que realmente distinguem a cidade: os tribunais independentes, o serviço público muito respeitado, a imprensa livre.

Estes foram preservados sob a fórmula "um país, dois sistemas", que prometia a Hong Kong um alto grau de autonomia quando o Reino Unido a devolvesse à China. Mas eles foram debilitados conforme o Partido Comunista cada vez mais interferiu nos assuntos da cidade, intimidando e até abduzindo pessoas consideradas contrárias a seus interesses.

O Movimento do Guarda-chuva, que exige eleições livres e tomou o controle das ruas centrais durante 11 semanas no final de 2014, é apenas uma memória distante. Mas o ressentimento mal-humorado da China continental se espalhou enquanto a evolução democrática de Hong Kong estagnava.

Lam Yik Fei/The New York Times
O distrito central de Hong Kong

Nesta primavera, uma nova executiva-chefe do território, Carrie Lam, foi escolhida por um comitê de cerca de 1.200 moradores, na maioria aliados de Pequim, que seguem suas instruções.

Seus antecessores vacilaram em torno dessas questões, temerosos em ofender a liderança chinesa e irritar o público. Ao mesmo tempo, segundo críticos, a responsabilidade pública limitada permitiu que a incompetência e a corrupção se espalhassem entre as autoridades. Os dois principais membros do governo de uma administração anterior foram julgados por corrupção.

Os aliados de Pequim têm maioria no Legislativo porque a metade dos 70 assentos é escolhida por grupos de interesse geralmente leais ao governo continental. Mas a outra metade é eleita, e os legisladores que defendem mais democracia ganharam a maioria desses lugares. O resultado é um impasse.

Os dois lados concordam que a cidade ficará ingovernável sem algum tipo de mudança política. Mas não conseguem chegar a um acordo sobre o que fazer.

Os democratas querem um mapa do caminho claro para o sufrágio universal --Pequim prometeu em 2007 que "poderia ser implementado" em 2017--, começando por eleições diretas para a chefia do Executivo. Somente quando o governo puder ser cobrado pelo público ele terá um mandato para abordar os desafios que a cidade enfrenta, dizem eles.

Mas para os defensores de Pequim o problema é democracia demais, e não de menos.

Lam Yik Fei/The New York Times
O distrito central de Hong Kong

Em uma entrevista, Lam, que será empossada neste sábado (1º), admitiu "um certo grau de verdade" no argumento de que a falta de reforma política dificulta abordar problemas como habitação, educação e infraestrutura.

Ela acrescentou: "Se tivéssemos o sufrágio universal amanhã, todos esses problemas desapareceriam? Acho que não".

Três anos atrás, Pequim apresentou a Hong Kong uma proposta de permitir que os moradores elegessem o chefe do Executivo, mas só entre um punhado de candidatos aprovados por um comitê sob seu controle. As forças pró-democracia recusaram a oferta, defendendo eleições livres sem essa limitação, e a recusa de Pequim a mudar provocou os protestos do Movimento do Guarda-chuva.

Foi um momento crucial para Hong Kong, em que todos os lados deixaram escapar uma oportunidade de acordo e mergulharam em um prolongado impasse.

O principal erro do lado favorável à democracia talvez tenha sido acreditar que o presidente Xi Jinping pretendia conduzir a China para um futuro mais pluralista.

Depois de quase cinco anos no poder, ele provou ser um autoritário empenhado, que considera a liberalização política uma ameaça.

Parece haver poucas esperanças de que Pequim fará a Hong Kong uma oferta melhor do que a que apresentou há três anos. Jasper Tsang, o recém-aposentado presidente do Legislativo e um antigo aliado de Pequim, disse que as atitudes da liderança chinesa em relação à cidade endureceram.

"As pessoas estão me dizendo que não haverá uma segunda chance", disse ele.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos