Por que a França está aprendendo sobre cultura com o Vale do Silício

Liz Alderman, Benoît Morenne e Elian Peltier

Em Paris

  • Roberto Frankenberg/The New York Times

    21.jun.2017 - Dentro da Station F, em Paris

    21.jun.2017 - Dentro da Station F, em Paris

Mil start-ups dentro de uma estação ferroviária reformada tão extensa quanto uma Torre Eiffel deitada. Salas com pecinhas de Lego espalhadas pelo chão e pufes. Passarelas elevadas fazendo a ponte entre escritórios dentro de contêineres e escrivaninhas ao ar livre. Vagões de trem grafitados transformados em cafés.

O imenso projeto no coração de Paris, o Station F, é um símbolo das ambições da França em ser a capital das start-ups na Europa. Coberto por um arco de vidro e concreto curvado, ele pretende reunir o maior grupo de empreendedores, empresas de capital de risco, incubadoras e aceleradoras do mundo.

Esse ambicioso projeto poderia parecer uma empreitada cara e até mesmo quixotesca demais para a França, um país mais conhecido por sua semana de 35 horas de trabalho e rígidas leis trabalhistas. E vários outros países estão tentando imitar o ecossistema de start-ups do Vale do Silício, com graus variados de sucesso.

Embora a França precise atrair mais investidores internacionais e flexibilizar mais as regras para os empreendedores, o país, com o apoio do governo e de líderes da tecnologia, começou a injetar nova energia no cenário das start-ups.

A França se tornou um dos principais destinos da Europa para investimentos em start-ups; os contratos de capital de risco e de financiamento no ano passado superaram os da Alemanha, ficando atrás somente do Reino Unido na Europa.

Isso não passou batido pelo Vale do Silício. O Facebook e a Amazon estão apoiando o Station F. A Microsoft sediará ali seu mais novo programa de start-ups de inteligência artificial, e terá a companhia de gigantes francesas como a desenvolvedora de videogames Ubisoft e players internacionais como o Line, o aplicativo de mensagens japonês.

O presidente Emmanuel Macron deve inaugurar o local na quinta-feira, como parte do plano da França de se tornar o que ele chama de "o país na liderança da hiper-inovação".

Roberto Frankenberg/The New York Times
Xavier Niel, bilionário do ramo de tecnologia, e Roxanne Varza, do Vale do Silício, na Station F, em Paris

Os Caçadores de Talentos

O Station F é criação de Xavier Niel, um bilionário da tecnologia determinado a transformar o cenário das start-ups da França. Ele investiu 250 milhões de euros (R$ 944 milhões) de seu próprio dinheiro e trouxe uma promissora profissional do Vale do Silício, Roxanne Varza, para liderar o projeto.

— Xavier Niel

"O importante é que criamos sucessos. O risco é que isso não aconteça daqui a alguns anos. Mas esse risco na verdade é nulo."

Muitas vezes chamado de Richard Branson da França, Niel, 49, é um dos mais bem-sucedidos empreendedores de tecnologia do país, com um patrimônio avaliado em cerca de US$ 8,1 bilhões (R$ 26,5 bilhões).

Ele abalou as empresas de telecomunicações francesas ao criar um serviço de internet e celular ultra-low-cost, o Free, que obrigou figuras já estabelecidas da indústria a fazerem o mesmo. Ele, que é um investidor agressivo, cofundou a Kima Ventures, que foca em start-ups em estágio inicial, e uma escola de programação chamada 42, sem mensalidades, professores ou manuais.

Niels vê o Station F como uma forma de ajudar a França a roubar o lugar do Reino Unido como principal hub de start-ups da Europa. Criado em um subúrbio árido de Paris, ele também está tentando empoderar futuros empreendedores, especialmente jovens marginalizados. E ele quer capitalizar a força da França como produtora de gênios da matemática e da engenharia.

— Roxanne Varza

"Quando as pessoas falam sobre a França, elas não a veem mais como uma coadjuvante".

Nascida no Vale do Silício de pais iranianos, Varza, 32, é a ex-diretora-geral da Girls in Tech Paris, uma filial da organização Girls in Tech, que é focada em melhorar a igualdade de gênero em uma indústria dominada por homens, e da FailCon, uma conferência para fundadores de start-ups aprenderem com o fracasso.

Depois de trabalhar em diversos empreendimentos novos, Varza, uma francófila confessa, se mudou para Paris em 2012 para supervisionar as operações de start-ups da Microsoft na França. Niel a recrutou depois de ver artigos que ela havia escrito criticando o cenário de tecnologia da França.

Varza tem tentado atrair para o Station F as start-ups em estágio inicial que têm potencial de serem os próximos "perturbadores" nos setores de saúde, finanças, educação e até moda. A decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia, segundo ela, está sendo uma oportunidade para agarrar talentos.

Os inovadores

Para ingressar no Station F, as start-ups devem ter um protótipo de negócios e um plano de crescimento. Um grupo de 1.000 empresas devem se mudar para espaço até o início de julho. Listamos aqui três delas.

— Inteligência artificial: JetPack Data

Shankar Arul cofundou essa start0up franco-indiana, que permite que os usuários convertam quantidades maiores de dados em gráficos e oferece análises de dados online. Ele tem três funcionários e escritórios em Chennai e em Londres, e o Groupon entre seus clientes.

— Tecnologia na alimentação: La Belle Vie

Essa delicatessen online baseada em Paris, com 25 funcionários, entrega pratos caseiros e hortifrúti para centenas de clientes. Seus fundadores, Paul Lê e Alban Wienkoop, estão apostando no Station F como uma plataforma para uma expansão internacional. Eles planejam explorar a ShakeUpFactory, uma aceleradora especializada em ajudar start-ups no setor de alimentação, para contatos e financiamento.

— Tecidos de alta tecnologia: Révèle

A Révèle desenvolve tecidos de alta tecnologia com absorção de impacto para proteger as mulheres que praticam esportes de contato como rugby e boxe. A empresa, fundada no ano passado em Paris por Clémence Fabre e Laetitia Pingel, logo se expandiu internacionalmente, com metade de suas vendas vindo hoje dos Estados Unidos e do Reino Unido.

Roberto Frankenberg/The New York Times
Karim Oumnia, fundador da DigitSole, em sua sede em Nancy, na França

O espírito empreendedor

Líderes da tecnologia dizem que a França tem um potencial significativo. Em 2016, start-ups francesas atraíram níveis recordes de investimento de investidores-anjos, capitais de risco, fundos de capital de crescimento e investidores corporativos —no mesmo nível de Israel e quase alcançando o Reino Unido.

— Histórias de sucesso

Com o cenário das start-ups na França decolando, o BlaBlaCar, um serviço de compartilhamento de caronas low-cost, foi um dos primeiros casos de sucesso. Frédéric Mazzella teve a ideia depois que ele não conseguiu chegar até a casa de sua família no sul da França para o Natal, em 2003.

Naquela época, a cultura de start-ups francesa era praticamente inexistente. Não havia um ecossistema de incubadoras e financiamento. Ele e seus cofundadores dependeram de dinheiro da família e de amigos durante seis anos até entrarem os fundos de capital de risco.

Hoje o BlaBlaCar é um dos quatro "unicórnios" franceses (start-ups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão), com 45 milhões de usuários em 22 países e uma equipe de 500 funcionários em todo o mundo.

Na França, "empreendedores costumavam ser vistos como pessoas com nada a perder", diz Mazzella, sentado na elegante nova sede de sua empresa perto da Bolsa de Paris, alguns andares abaixo do escritório do Facebook na França. "Agora se tornou aceitável, até desejável, ser uma start-up".

— Obstáculos para o crescimento

O fracasso costuma ser estigmatizado na sociedade francesa —tanto que o governo lançou uma campanha para convencer as pessoas que é aceitável assumir riscos.

Mais de três quartos dos trabalhadores ficam em seus empregos a vida inteira, e sindicatos protestam quando o meio empresarial exige uma flexibilidade no ambiente de trabalho. Os impostos são altos para financiar o sistema de bem-estar social da França, e o código trabalhista de 3.400 páginas introduz novos requerimentos regulatórios a empresas à medida que elas vão crescendo.

É uma cultura que às vezes bate de frente com a energia do empreendedorismo.

Karim Oumnia, 49, fundador da Digitsole, que fabrica um "sapato inteligente" de temperatura controlada que monitora a saúde e se enrola automaticamente em volta do pé do usuário, está considerando ir embora da França para impulsionar seus negócios.

Fundada em 2014, a Digitsole emprega 20 pessoas na cidade de Nancy e recebeu inúmeras encomendas de equipes esportivas europeias. O ex-presidente François Hollande citou Oumnia como um símbolo do empreendedorismo francês.

Mas Oumnia encontrou dificuldades para crescer. Quando ele quis oferecer stock options para atrair e segurar engenheiros e designers, as regras francesas eram tão complexas que ele desistiu do plano. As contribuições sociais praticamente dobraram seus custos com funcionários, comparado com o que gastaria nos Estados Unidos.

A infraestrutura financeira também não está desenvolvida ainda. A França tem cerca de 4.500 anjos, investidores que assumem riscos com start-ups em seus estágios iniciais, comparados com os 18 mil do Reino Unido. Embora tenha mais capital de risco indo para a França, os níveis continuam atrás dos investidos no Reino Unido, na Alemanha e em Israel.

"A França tem muito talento para criar start-ups", diz Oumnia. "O problema é fazer com que elas virem empresas de médio porte que criem empregos em um país onde é alto o índice de desemprego."

"As regulações e os impostos ainda não evoluíram o suficiente para permitir que as start-ups prosperem uma vez que elas decolem", ele diz, acrescentando que espera que Macron vá mudar as coisas. "Então tudo bem dizer, vamos criar mil startups. A questão é, 'Você está criando o ambiente para que elas se tornem vencedoras depois?'""A resposta é, 'Ainda não'."

Roberto Frankenberg/The New York Times
Sala de criatividade na Station F, em Paris

Um empurrão do governo

Macron prometeu tornar o país mais amigável para os negócios, com o governo dando uma atenção particular aos empreendedores. A seguir, um olhar sobre os planos da França para o setor de tecnologia.

— Investindo bilhões

O governo criou inúmeros veículos de investimentos estatais como o French Tech Acceleration Fund e o Large Venture Fund. Liderado pelo banco público francês de investimentos, o Bpifrance, com 42 bilhões de euros sob gestão, o Estado disponibiliza bilhões em empréstimos e subsídios para financiar start-ups e aceleradoras em condições suaves.

Macron anunciou recentemente mais um fundo público no valor de 10 bilhões de euros para investir em start-ups. Os críticos dizem que esse apoio pode tornar difícil discernir se as start-ups francesas são competitivas.

— Promovendo a tecnologia

Em 2014, o governo lançou o French Tech, um amplo programa para lustrar as credenciais do país no setor de tecnologia. Treze cidades francesas foram nomeadas hubs de alta tecnologia, incluindo Bordeaux, mais conhecida por seus vinhos.

O governo também tem apoiado o crescimento de start-ups francesas em dezenas de cidades estrangeiras, inclusive Nova York e Xangai, e promovido empreendedores franceses em grandes eventos da indústria como o Consumer Electronics Show em Las Vegas.

— Oferecendo iniciativas

O governo está tentando atrair talentos internacionais do setor de tecnologia para a França fornecendo um visto de trabalho rápido para empreendedores e suas famílias, ajuda de custo para a mudança e escritórios gratuitos.

— Flexibilizando leis tributárias

A França criou um status tributário especial para "empresas novas inovadoras" e concedeu mais de 1,17 bilhão de euros em isenções fiscais para 6.600 start-ups desde 2004. Ainda assim, os empreendedores dizem que há mais a ser feito.

Em uma aposta para incentivar mais investimentos em start-ups, Macron prometeu isentar ações de empresas do imposto sobre fortunas e introduzir um imposto único de 30% sobre ganhos de capitais, uma redução dos atuais 50%.

Roberto Frankenberg/The New York Times
Escritório na Station F, em Paris

— Os apoiadores

O maior voto de confiança no Station F veio do Facebook.

Alguns anos atrás, a gigante das mídias sociais criou um hub de inteligência artificial em Paris —seu terceiro depois do Vale do Silício e de Nova York— para recrutar entre aquilo que ela via como uma fonte de engenheiros talentosos nas universidades de elite da França e de toda a Europa.

A unidade pesquisa melhorias para reconhecimento de imagem e fala, e outras aplicações de inteligência artificial.

A empresa está ancorando um programa de incubação no Station F chamado Start-up Garage, que fará a mentoria de 12 empreendedores novatos da tecnologia a cada seis meses nos setores de saúde, educação e outros, e capitalizar suas ideias criativas.

Em troca de orientação, o Facebook observará como as start-ups abordam questões como privacidade, e identificará tendências de tecnologia de ponta, diz Caroline Matte, 26, gerente do programa de start-ups do Facebook na França.

"A França pode definitivamente se tornar uma nação de start-ups", diz Matte, uma nativa francesa. "O potencial está lá".

Tradutor: UOL

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