Ativistas desafiam repressão e usam redes sociais para defender direitos no Vietnã

Julia Wallace

Em Hanói (Vietnã)

  • QUINN RYAN MATTINGLY/NYT

    Nguyen Anh Tuan, um ativista de direitos humano que foi interrogado pela polícia em 2011, no Vietnã

    Nguyen Anh Tuan, um ativista de direitos humano que foi interrogado pela polícia em 2011, no Vietnã

Uma proeminente blogueira e ativista ambiental no Vietnã foi sentenciada na semana passada a 10 anos de prisão por acusações de crimes de segurança nacional, incluindo compartilhar propaganda contra o Estado em redes sociais.

Nguyen Ngoc Nhu Quynh, mais conhecida por seu apelido online de Mãe Cogumelo, está sendo mantida incomunicável desde sua prisão em outubro, e a presença em seu julgamento foi rigidamente controlada.

Mas nem uma hora após o veredicto ser proferido na quinta-feira, um dos advogados de Quynh resumiu seus argumentos e postou a declaração final dela no julgamento para seus 61 mil seguidores no Facebook.

"Espero que todos se manifestem e lutem, superem seus próprios medos para construção de um país melhor", ela disse, segundo o advogado. A declaração foi compartilhada milhares de vezes.

No autoritário Vietnã, a internet se transformou no fórum de fato para o crescente número de vozes dissidentes do país. As conexões pelo Facebook, em particular, mobilizaram a oposição às políticas do governo; elas tiveram um papel chave nos protestos em massa contra a forma como o Estado lidou com um desastre ambiental no ano passado.

Agora, o governo está endurecendo seu controle da internet, prendendo e ameaçando blogueiros, assim como pressionando o Facebook e o YouTube a censurarem o que aparece em seus sites.

"O Facebook está sendo usado como ferramenta de organização, como uma plataforma para auto publicação, como dispositivo de monitoração para pessoas quando são detidas e quando são soltas", disse Phil Robertson, vice-diretor para Ásia da ONG de direitos humanos Human Rights Watch.

Ele disse que o Facebook está sendo usado "para conectar comunidades que, caso contrário, não estariam conectadas".

QUINN RYAN MATTINGLY/NYT
Phan Anh Cuong (esq.) é outro defensor dos direitos humanos no Vietnã


Nguyen Anh Tuan, um ativista pró-democracia de 27 anos, disse que o crescente número de dissidentes estabelecendo conexões por meio das redes sociais o encorajou.

Quando a polícia o interrogou pela primeira vez em 2011, ele disse, ele se sentiu completamente só. Seus pais e amigos desaprovavam seus textos políticos, e ele conhecia poucas pessoas às quais poderia pedir ajuda.

Tuan ainda enfrenta assédio policial e seu passaporte foi confiscado. Mas na ocasião mais recente em que foi chamado para ser interrogado, ele postou uma cópia da intimação no Facebook, juntamente com uma nota satírica exigindo ser pago pelo tempo passado sob custódia.

Sua nota se tornou viral e outras pessoas fizeram o mesmo, postando suas próprias intimações policiais no Facebook e pedindo compensação. "Em relação ao ativismo, não me sinto mais solitário", ele disse.

Os usuários do Facebook no Vietnã, que agora chegam a 45 milhões, quase metade da população do país, usam o site para organizar visitas a prisão e vigílias do lado de fora de delegacias de polícia em apoio aos detidos, e solicitam doações para os presos políticos.

E os dissidentes estão cada vez mais migrando seus blogs políticos e pessoais, que podem ser facilmente bloqueados pelo governo, para o Facebook, que é tão amplamente usado que bloqueá-lo totalmente não seria viável.

Tuan ajuda a administrar um fundo que apoia as famílias de presos de consciência, incluindo a mãe de Quynh e dois filhos pequenos. Ele disse que grande parte do apoio agora vem de pessoas de dentro do país, que enviam dinheiro proveniente de suas contas bancárias pessoais, que o Estado pode rastrear. No passado, ele disse, as comunidades vietnamitas no exterior eram responsáveis por grande parte da dissidência e do dinheiro fornecido.

"Elas sabem muito bem que podem ser pegas pelo governo, mas ousam fazê-lo", ele disse sobre seus doadores locais.

Isso não passou desapercebido pelo governo, que também está afirmando sua autoridade de novas formas. Quynh é apenas uma dentre mais de 100 blogueiros e ativistas presos no Vietnã, segundo a Human Rights Watch. Pham Minh Hoang, outro blogueiro popular, perdeu sua cidadania e foi deportado na semana passada para a França, país do qual também tem cidadania.

O governo corta estrategicamente o acesso ao Facebook quando espera protestos, e neste ano pediu tanto ao Facebook quanto ao YouTube que o ajudassem a eliminar as contas falsas e outros conteúdos "tóxicos", como material contra o governo, dizendo ter identificado até 8.000 vídeos no YouTube que se enquadram nessa definição, segundo o jornal local "Tuoi Tre".

O governo também alertou as empresas vietnamitas que seus anúncios não devem aparecer junto com esse tipo de conteúdo.

O Facebook disse que sua política é cumprir as leis locais, apesar de não haver indício de ter removido conteúdo no Vietnã até o momento.

Nguyen Quang A, um cientista da computação aposentado e ex-membro do Partido Comunista que agora é um dissidente, disse sentir que a situação dos direitos humanos permanece tão ruim quanto sempre foi.

Na semana passada, pouco antes de uma entrevista planejada, ele foi pego pela polícia perto de sua casa e levado por uma viagem de 5 horas e meia até o litoral e de volta. Ele disse que já foi detido de forma semelhante outras 11 vezes no último ano e meio.

Ele sugeriu que o governo está sob uma pressão cada vez maior por parte de cidadãos frustrados com a forma como lida com as recentes questões ambientais e de terras.

Quando um vazamento químico na empresa siderúrgica Formosa matou toneladas de peixe no ano passado, o ultraje coalesceu online, onde protestos foram organizados, fotos do desastre foram rapidamente disseminadas e o hashtag #Ichoosefish (eu escolho os peixes) se tornou um grito de guerra.

"Acho que eles também estão com medo", disse Quang A. "Eles veem uma situação perigosa demais para eles, e veem os ativistas pacíficos como um inimigo muito perigoso."

Em um relatório divulgado no mês passado, a Human Rights Watch detalhou o que chamou de "tendência perturbadora" de blogueiros e ativistas sendo agredidos na rua por bandidos conhecidos como "con do". Ela registrou 36 desses ataques de janeiro a abril de 2015, sendo que apenas um foi investigado pela polícia.

O relatório fez uso em parte das fotos e vídeos dos próprios ativistas de seus ferimentos, com frequência gravados de forma trêmula por smartphones e compartilhados rapidamente online.

Jonathan London, um especialista em Vietnã da Universidade de Leiden, na Holanda, disse que apesar da recente repressão, a transformação provocada pela internet em um curto período tem sido "surpreendente e esperançosa".

É "notável que em um país que há apenas 15 ou 20 anos tinha uma das menores taxas de uso de telefone do mundo tenha ingressado rapidamente em uma era de notícias 24 horas e contínuas críticas políticas e sociais acessíveis a todos", ele disse.

Pham Anh Cuong, um engenheiro elétrico de 45 anos, não falava sobre política até dois anos atrás, quando um ativista que ele seguia online, Nguyen Chi Tuyen, 43 anos, foi duramente espancado por cinco homens. Cuong viu fotos online do rosto ensanguentado de Tuyen e ficou alarmado com a brutalidade do ataque.

Hoje, ele se considera "alguém que ergue a voz", mas não plenamente um dissidente. Sua meta é compartilhar informação com parentes e amigos, em vez de depender da mídia convencional, que é quase toda estatal.

"A primeira vez em que escrevi no Facebook, ninguém nem mesmo 'curtiu', elas tinham medo até mesmo de apertar o botão 'curtir'", ele disse. "Agora as pessoas estão começando a curtir e até mesmo a compartilhar."

Offline, ele agora considera Tuyen e outros dissidentes como amigos, e vários deles jogam juntos em um time de futebol, o No-U FC. ("Não U" refere-se à linha em U que marca as reivindicações territoriais da China no Mar do Sul da China, uma questão que mobilizou muitos dissidentes vietnamitas vários anos atrás.)

Uma página monitora meticulosamente as vitórias e derrotas da equipe, assim como os confrontos frequentes de seus membros com a polícia.

Em um café em Hanói na semana passada, os dois amigos simultaneamente conversavam, fumavam sem parar e checavam o Facebook. Eles notaram uma história na mídia estatal criticando Mãe Cogumelo por receber um prêmio em dinheiro de um grupo de direitos humanos em Estocolmo.

Tuyen imediatamente alertou uma diplomata sueca sobre a história e pediu para que o grupo de direitos comentasse.

Os dois começaram novamente a rolar a página.

"Aqui está uma notícia de um dos meus amigos, um médico em Saigon, que soube da notícia de que Mãe Cogumelo está endividada", disse Tuyen.

"O médico em Saigon está dizendo que devemos contribuir com dinheiro para a família", ele disse.

Ele digitou por um instante e depois levantou os olhos de novo.

"Apenas comentei: 'Vou participar'."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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