Como uma viúva enfrenta o ódio após o marido ser morto por ser estrangeiro

Audra D.S. Burch

Em Olathe, Kansas (EUA)

  • Alyssa Schukar/The New York Times

    Srinivas Kuchbhotla e sua mulher, Sunayana Dumala

    Srinivas Kuchbhotla e sua mulher, Sunayana Dumala

Sunayana Dumala tentou de novo entrar na sala de altar que ela e seu marido, Srinivas Kuchibhotla, criaram na casa deles para as orações diárias. Kuchibhotla construiu artesanalmente um santuário de madeira elaborado há dois anos, um pequeno edifício sagrado onde se ajoelham toda manhã. Meses após a morte dele, ele se tornou um local para honrá-lo.

Em uma noite de quarta-feira em fevereiro, um homem com uma pistola semiautomática e uma noção distorcida do orgulho americano transformou pessoas comuns em vítimas e sobreviventes de um tiroteio, tornando Dumala uma viúva.

Kuchibhotla, um engenheiro nascido na Índia, foi confrontado a respeito de seu status de imigração em um bar, depois baleado. Quando a polícia chegou, Kuchibhotla estava morrendo e seu amigo, Alok Madasani, estava ferido. Outro cliente que tentou impedir o ataque também foi atingido pelos disparos.

Exatamente três meses após o assassinato de seu marido, Dumala estava sozinha na entrada da sala de oração, olhando para uma janela que emoldurava nuvens de tempestade. Ele desistiu de entrar.

"Tudo naquela sala, tudo nesta casa", ela disse posteriormente, "me recorda meu Srinu", o apelido que ela lhe deu enquanto namoravam.

Foi no silêncio da manhã seguinte que Dumala, 32 anos, decidiu que finalmente entraria na sala de oração. O que era insuportável no dia anterior parecia possível, apenas por ser o próximo passo doloroso.

Assim ela subiu a escada, passando lentamente pela colagem emoldurada de fotos de casamento, e entrou na sala. Ela limpou cada uma das imagens de deidades com água morna. Então rezou pela paz em um sussurro, suficiente para superar o som das crianças brincando na escola primária vizinha.

De certo modo, o que um homem gritou em fúria e uma mulher proferiu em pesar capturam um dos cruzamentos mais perturbadores dos Estados Unidos.

"Saia do meu país!", gritou o atirador, antes de abrir fogo contra dois indianos que ele disse depois que acreditava serem iranianos.

"Será que realmente pertencemos a este lugar?", a viúva perguntaria em uma postagem no Facebook seis dias depois do tiroteio.

O episódio aconteceu na hora do jantar em um bar de bairro, parte de um espasmo de ódio que parece desenrolar em cidades grandes e pequenas por todo o país, e que estão crescendo em número.

"Tínhamos lido muitas vezes nos jornais sobre a ocorrência de algum tipo de tiroteio", disse Dumala em uma entrevista para a imprensa em fevereiro, na sede da Garmin, a empresa na qual Kuchibhotla era um engenheiro sênior de sistemas de aviação.

"E sempre nos perguntávamos o quanto era seguro?"

A percepção de que seu marido foi morto por causa de intolerância, por não ter nascido nos Estados Unidos, é o que a forçou a sair de seu inferno privado, pessoal. Ela pensou que se as pessoas soubessem as consequências de um crime de ódio, do enorme vazio e dúvidas sem fim gerados, se as vítimas fossem vistas de forma tridimensional, talvez haveria menos medo, menos ódio.

"Minha história precisa ser divulgada", ela disse. "A história de Srinu precisa ser conhecida. Temos que fazer algo para reduzir os crimes de ódio. Mesmo se pudermos salvar uma só pessoa, acho que isso daria paz a Srinu e me daria a satisfação de que seu sacrifício não foi em vão."

Alyssa Schukar/The New York Times
Sunayana Dumala planta no jardim montado pelo seu falecido marido Srinivas Kuchibhotla, enquanto seu pai, Balakrishna, e sua mãe, Varalakshmi, observam em sua casa em Olathe, Kansas

Presságio

Na manhã de sua morte, Kuchibhotla saiu para o trabalho antes de sua mulher. "Tchau", ele disse, passando apressado por ela, uma despedida casual que assombraria Dumala por ser a última e tão breve.

Pouco antes das 18h, Dumala enviou uma mensagem de texto e telefonou para Kuchibhotla para planejarem a noite. O celular dele estava desligado. Ela esperava que pudessem passar aquela noite no quintal, bebendo chá e vendo o sol se por no horizonte.

Dumala ligou para os amigos do casal à procura do marido. Talvez ele tivesse ido tomar uns drinques no Austins Bar & Grill, seu ponto favorito após o trabalho, com Madasani. Mas o telefone de Madasani também estava desligado.

Ela começou a checar o Facebook. Uma história apareceu em seu feed de notícias: três pessoas baleadas no Austins.

"Eu fiquei apavorada, com um sentimento tomando conta de mim. Eu estava sozinha", ela disse, fazendo uma pausa para respirar, com seu rosto molhado de lágrimas. "Isso não é coisa do meu Srinu, eu dizia a mim mesma. Ele teria entrado em contato comigo de alguma forma para me avisar que está bem."

Os instintos de Dumala estavam corretos. Os amigos estavam no Austins em sua mesa habitual no pátio, a mais próxima da porta, discutindo filmes de Bollywood e bebendo duas Miller Lites.

O agressor se aproximou. Testemunhas lembravam dele estar vestindo uma camiseta branca com emblemas militares, com a cabeça envolta em um lenço branco. A intenção dele era descobrir se os homens à mesa pertenciam ao país.

Adam W. Purinton, um homem branco veterano da Marinha, se voltou para os homens de tez morena, ambos vivendo nos Estados Unidos há anos, exigindo saber o status de imigração deles.

"Do nada surge aquele homem de aspecto estranho, e digo de aspecto estranho por causa da raiva na sua expressão", disse Madasani, 32 anos, um engenheiro de sistemas de aviação na Garmin. "Eu não ouvi instantaneamente o que ele estava dizendo, mas vi a expressão no rosto de Srinivas mudar drasticamente. Eu olhei para o Adam, ele caminhou na minha direção, veio até mim e disse: 'Você está aqui legalmente?'"

Madasani não respondeu. Em vez disso, entrou para chamar o gerente. Ian Grillot, 24 anos, e outro cliente pediram a Purinton que fosse embora e o escoltaram para fora do pátio. Mas ele não foi longe, permanecendo andando de um lado para outro no estacionamento.

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Austins Bar and Grill, local onde Srinivas Kuchibhotla frequentava antes de ser morto

Madasani disse que ele e Kuchibhotla decidiram ir embora, mas foram retidos enquanto outros clientes, um por um, pediam desculpas. Um sujeito pagou a conta; o gerente do bar lhes ofereceu outra rodada de cerveja e picles frito, um favorito de Kuchibhotla. "Todo mundo vinha até nós dizendo, isso não nos representa, o lugar de vocês é aqui", ele disse.

O sol de inverno já tinha se posto às 19h15, mas estava incomumente quente. O jogo de basquete da Universidade do Kansas contra a Universidade Cristã do Texas estava no intervalo. O Austins estava lotado de torcedores da Kansas, além de seus frequentadores regulares.

Kuchibhotla e Madasano voltaram a conversar em sua mesa. A clientela no pátio diminuiu durante o intervalo do jogo, mas a transmissão pelos televisores ainda estava a todo volume.

Segundo as autoridades, Purinton voltou ao bar armado com uma pistola. Ele parou na porta do pátio e apontou sua arma para os dois homens.

De repente, o som de disparos. "Pop, pausa, depois pop, pop, pop", disse Tim Hibbard, o dono de uma empresa de software que estava sentado no bar bebendo uma cerveja Blue Moon. "Não foi como nos filmes, onde os disparos são barulhentos e chamam atenção."

Enquanto as pessoas corriam, Vincent Baird, que seguia para o posto de gasolina do outro lado da rua, correu na direção do caos para ajudar. Com quatro anos de experiência como médico do Exército, ele correu direto para Kuchibhotla, cuja respiração era superficial e difícil.

Baird viu o ferimento de bala no peito. Com a ajuda de dois outros, disse Baird, ele recortou um pedaço de um saco de lixo não usado e colocou sobre o ferimento.

Kuchibhotla parou de respirar umas duas vezes, disse Baird. Em cada uma das ocasiões ele realizou compressões no peito até Kuchibhota voltar a respirar e uma ambulância chegar. Kuchibhotla foi declarado morto no Hospital da Universidade do Kansas.

Purinton fugiu em meio ao caos. Ele foi parar em um bar em Clinton, Missouri, a 130 km de distância, onde disse ao barman que tinha atirado em "dois iranianos".

No dia seguinte, Dumala soube dos detalhes horríveis do assassinato de seu marido. Um policial de Olathe e um agente do FBI (Birô Federal de Investigação, a polícia federal americana) lhe disseram quem o matou e o motivo.

Purinton, 52 anos, foi indiciado formalmente por homicídio em primeiro grau premeditado e por duas tentativas de homicídio premeditado. No mês passado, ele também foi indiciado por crime de ódio.

O termo "crime de ódio" vem sendo usado repetidas vezes pela polícia, jornalistas e políticos para descrever a morte de seu marido. De repente, Kuchibhota virou uma estatística de crime de ódio, um exemplo para reforçar a legislação antiódio.

Dumala ficou horrorizada, desconcertada com o homem que tirou a vida de seu marido. "Aquele sujeito, acho que estava ferido, mas não sei o que o feria", ela disse. "O que fez ao tirar a vida dele? Serviu a algum propósito? Aquilo reduziu a raiva dele? Agora até eu estou raivosa, mas isso não me dá o direito de tirar a vida dele."

Em uma tarde de terça-feira em Hyderabad, o corpo de Srinivas Kuchibhotla foi colocado sobre uma pira de madeira. O funeral dele ocorreu nove dias antes daquele que seria seu 33º aniversário.

* John Eligon contribuiu com reportagem.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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