Por que o ataque à corrupção causou uma convulsão no Brasil?

Max Fisher e Amanda Taub

  • Folhapress

Seis anos depois de deixar a Presidência do Brasil como uma figura altamente popular, Luiz Inácio Lula da Silva hoje enfrenta a prisão depois de uma condenação criminal, assim como a veemente oposição de um segmento da população que antes o adorava. Lula foi um herói nacional cujo apoio bastava para decidir eleições, mas hoje sua candidatura presidencial para 2018 parece incerta.

Não foi apenas Lula quem mudou nesse intervalo de tempo. O Brasil também mudou ao seu redor.

O sistema político do país foi construído durante muito tempo sobre uma corrupção generalizada e notória. Lula só foi envolvido recentemente, mas nunca foi segredo que a corrupção é simplesmente como as coisas funcionam. O ditado "rouba mas faz" é comum há meio século.

Esse sistema agora está sendo derrubado por um Judiciário que tem força e independência para contestar até a autoridade mais poderosa e por um público que não vai mais tolerar os antigos métodos.

Mas as raízes da corrupção são tão profundas no Brasil que, como uma árvore tão velha quanto o jardim onde ela está, desenterrá-la pode causar uma tremenda convulsão. O declínio antes impensável de Lula é apenas uma expressão do torvelinho que percorre o Brasil.

Um número surpreendente de figuras políticas estabelecidas foi envolvido, deixando o quinto país mais populoso do mundo com poucos líderes de credibilidade. As lutas políticas internas e a desconfiança do público estão disparadas. Assim como a polarização, enquanto os cidadãos cada vez mais culpam o outro lado pelos problemas do país.

Por um lado, tudo isso sugere que esforços há muito necessários para remover a corrupção, embora dolorosos, estão funcionando. Por outro, esses traumas políticos podem trazer consequências indesejáveis. Analistas veem paralelos preocupantes com a Itália pouco antes da ascensão de Silvio Berlusconi ou mesmo com a Venezuela anterior a Hugo Chávez.

A corrupção política, como escreveram a economista política Miriam Golden e o economista Ray Fisman, é uma espécie de equilíbrio. Ela se espalha ao incluir todos os atores e instituições, que passam a trabalhar para mantê-la. Abalar esse equilíbrio pode desestabilizar tudo o que ele um dia tocou, um processo cuja solução é impossível prever.

Extirpando um sistema podre

A corrupção pode agir como um sistema paralelo que acompanha ou mesmo substitui as práticas jurídicas e políticas formais.

Esse sistema é ilegal por um motivo. Ele suga os fundos públicos para os bolsos de algumas pessoas, evita controles e verificações e mina o regime da lei.

Mas também se torna uma maneira de os cidadãos e políticos administrarem o dia a dia. Na Rússia, por exemplo, o sistema de saúde subfinanciado avança com base em propinas, permitindo que os pacientes tenham acesso a tratamentos que de outro modo talvez não existissem e que os médicos continuem na profissão.
Com tempo suficiente, tais práticas naturalmente se disseminam pelas instituições.

"Você não pode simplesmente mudar o comportamento de algumas pessoas de cada vez", disse Fisman. "É preciso ter uma mudança sistêmica nas crenças de todos sobre o modo de fazer as coisas. E temos relativamente poucos casos recentes de histórias de sucesso em que isso aconteceu.

"O impulso anticorrupção no Brasil é mais que simplesmente remover algumas maçãs podres. Como há muita gente envolvida, a classe política do país está se esvaziando.

Michel Temer, o atual presidente, também foi acusado de corrupção. Caso ele sofra um impeachment, os políticos na linha sucessória estão envolvidos na mesma investigação, assim como muitos legisladores. Eduardo Cunha, o poderoso ex-presidente da Câmara dos Deputados, foi condenado a 15 anos de prisão em março
Esse tipo de rápida reforma pode enfraquecer o próprio sistema político. Na Itália, os processos das "Mãos Limpas" nos anos 1990 ajudaram a reduzir a corrupção que tinha se espalhado pela política do país. Mas também enfraqueceram os partidos e instituições existentes ao ponto do colapso.

Berlusconi, um forasteiro na política e um populista, explorou essa abertura em sua ascensão ao poder. Mas na prática Berlusconi substituiu um sistema de apoio corrupto por outro, interrompendo o progresso antes promissor da Itália. O governo está à deriva.

A indignação pública contra escândalos individuais cresce como bola de neve. Uma pesquisa recente do Datafolha, uma empresa de pesquisas brasileira, encontrou uma insatisfação generalizada com a situação do país.

Isto cria exatamente o tipo de brecha aproveitada por populistas como Berlusconi e Chávez, da Venezuela, que se ergueram em meio a reações populares contra a corrupção.

"Eu realmente temo que, ao ser limpo, todo o sistema desmorone", disse Ken Roberts, um cientista político da Universidade Cornell, dos EUA. "Realmente temo o aparecimento de um Berlusconi brasileiro."

Sociedade polarizadora

A situação política em declínio de Lula aponta outro problema crescente. A sociedade brasileira está se polarizando de uma maneira que se mostrou desestabilizadora em outros países.

Ele continua popular entre seus seguidores, mas é rejeitado por outros. Segundo o Datafolha, 30% dos entrevistados disseram que votariam em Lula, e não nos outros quatro prováveis candidatos, na eleição do próximo ano.

Embora essa seja uma porcentagem maior que a de qualquer outro provável candidato, a pesquisa também revelou uma rejeição de 46% por Lula, sugerindo que ele teria de lutar para vencer num provável segundo turno. Entre os eleitores que se identificaram como de direita, 57% disseram que não apoiariam Lula em nenhuma circunstância.

Quando a instabilidade e a desconfiança do público sobem tão rapidamente quanto no Brasil, os cidadãos muitas vezes culpam não apenas os políticos, mas uns aos outros, ampliando as divisões partidárias em algo mais perigoso.

Sinais disso surgiram no ano passado, quando Dilma Rousseff foi removida da Presidência após sofrer impeachment por acusações de manipular o orçamento federal na tentativa de ocultar os problemas econômicos do país. Seus apoiadores, em protesto, acusaram as elites ricas de removê-la em um golpe que submeteu a democracia a interesses econômicos.

Em manifestações contra Rousseff, alguns participantes não apenas criticaram a corrupção que ocorre na política em geral, mas denunciaram seu partido de esquerda como criminosos que roubavam o Estado ou compravam votos com dinheiro para os pobres.

Enquanto os processos no Brasil dilaceram o establishment político, os partidos e seus seguidores consideram cada nova condenação de um adversário como uma evidência de criminalidade irreparável do outro lado. E cada nova condenação de um dos seus próprios políticos é vista como prova de uma conspiração política contra eles.

"Esse alto nível de polarização nos últimos anos no Brasil é mais típico da Venezuela, da Argentina, mas não estamos acostumados com isso", disse Mauricio Santoro, um cientista político da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, ao site Huffpost, acrescentando: "Todo mundo está meio perdido".

Voltando-se contra o sistema

Tal polarização pode ser especialmente prejudicial quando os partidos e os cidadãos passam a ver até instituições desapaixonadas como parte da luta.

Na Venezuela, quando o Judiciário contestou Chávez, acusou-o de servir às elites empresariais nefastas e de subverter a vontade popular. Seus seguidores passaram a ver os juízes como partidários e inconfiáveis, minando a capacidade de funcionamento do Judiciário.

A política no Brasil não chegou a tais extremos, mas está rumando nessa direção. Lula respondeu à sua condenação retratando o Judiciário como politicamente motivado.

Pesquisas sugerem que quando as pessoas desconfiam profundamente das instituições, e especialmente quando elas veem seus adversários políticos como ameaças perigosas, elas se tornam mais dispostas a apoiar autocratas como seus líderes.

Isso geralmente não significa apoio ao autoritarismo declarado. Em tais situações, os eleitores são mais atraídos para candidatos linha-dura, que prometem eliminar os adversários políticos e as instituições que são consideradas ameaçadoras. Enquanto os seguidores veem esses líderes como protetores da democracia, muitas vezes ela é desgastada.

Milan Svolik, um cientista político da Universidade Yale, concluiu em um trabalho recente que a severa polarização foi um dos grandes motivos de a democracia da Venezuela ter desmoronado com Chávez.

A crescente proeminência de Jair Bolsonaro, um congressista ultranacionalista que defendeu o retorno da ditadura militar no Brasil, sugere a crescente insatisfação. A pesquisa do Datafolha revelou que 15% das pessoas apoiariam Bolsonaro para presidente, colocando-o em um empate para o segundo lugar. Embora Bolsonaro esteja longe de ser um provável vencedor, sua ascensão chocou muitos brasileiros como um sinal da direção do país.

"O Brasil hoje está tão polarizado quanto os EUA", disse Carlos Melo, um cientista político brasileiro, à agência Reuters nesta semana, acrescentando: "Se Lula ficar ausente, sem dúvida abrirá espaço para um líder novo, muito emocional, um pouco como o presidente Trump nos EUA".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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