E se Hitler tivesse invadido o Reino Unido?

Timothy Egan

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    Capacete de soldado britânico em praia de Dunquerque

    Capacete de soldado britânico em praia de Dunquerque

Durante mais de mil anos, as tribos da Europa olharam para as ondas cinza-chumbo do canal da Mancha e pensaram em conquista. "Temos seis séculos de insultos para vingar", disse Napoleão. Eu estava exatamente ali, naquela semana de primavera em que os grandes restos esfarrapados dos Exércitos francês e britânico foram encurralados para o abate pela máquina de guerra nazista, 77 anos atrás.

Talvez muita gente não soubesse, como diz Donald Trump sobre coisas óbvias que ele acaba de saber, que o milagre da evacuação de Dunquerque continua provocando um dos grandes "e se?" históricos de todos os tempos.

A história alternativa hoje é a moda. Uma série de televisão imagina os EUA sob o domínio alemão e japonês ("The Man in the High Castle"). Outra série em desenvolvimento pela HBO nos pedirá para visualizar um novo mundo igualmente horrível: a Confederação escravagista continuando até os dias de hoje.

Ambos os roteiros são absurdos. Mas a questão de se a suástica poderia ter tremulado sobre o Tâmisa é muito mais que ficção de Hollywood.

Graças ao filme "Dunkirk", um olhar íntimo improvável sobre o que Winston Churchill chamou de "um desastre militar colossal", mentes que desanimaram com as atuais políticas de governo impiedosas dos EUA podem voltar a um dia em que mentes maiores conduziam as democracias ocidentais. Fora o fato de diminuir os franceses, o filme é uma bebida energética de combustível especulativo.

Entre 26 de maio e 4 de junho de 1940, os britânicos conseguiram evacuar mais de 330 mil soldados aliados da praia francesa de Dunquerque [em inglês Dunkirk], ajudados de forma considerável por uma flotilha de barcos de pesca e de lazer e outras pequenas embarcações. As tropas tinham sido derrotadas; as que restavam eram alvos imóveis para um golpe fatal. A terra natal, assim como os soldados enfileirados na areia enquanto os nazistas os bombardeavam e metralhavam, estava quase ao alcance da mão.

No final do verão de 1940, a maior parte da Europa ocidental estava sob controle alemão ou de Estados fantoches. A Inglaterra cairia também e daria entrada a um império nazista, com seu terrível genocídio judeu, que poderia ter durado muito além do fim da guerra em 1945?

A primeira grande pergunta é: por que os alemães não liquidaram as forças encurraladas de uma vez? De modo chocante, um dia antes da evacuação, a Blitzkrieg tirou uma folga. Historiadores dizem que as tropas alemãs precisavam descansar e queriam consolidar suas forças para um empurrão final nos aliados para dentro do mar. Depois havia a preocupação de que os tanques atolassem, e o clima não estava ideal para um bombardeio aéreo.

Os franceses, ainda ridicularizados por deixar Paris cair em apenas um mês, contiveram os alemães heroicamente durante alguns dias nos arredores de Dunquerque. Eles podem ter salvo mais de 100 mil vidas com sua ação na retaguarda.

Mais tarde, um comandante alemão deu ordem para deter um dos maiores fracassos da guerra. A maioria dos soldados resgatados viveria para lutar novamente, muitos deles desembarcando na Normandia quando os aliados voltaram para retomar o continente, quatro anos depois.

O fiasco em Dunquerque tornou-se uma vitória psicológica no Reino Unido. Mas isso levanta a segunda grande pergunta: no auge do poder, por que os alemães não cruzaram o canal e marcharam até Londres?

"Hitler sabe que terá de nos quebrar nesta ilha ou perderá a guerra", disse Churchill a seus conterrâneos em 18 de junho de 1940. "Se falharmos, porém, o mundo inteiro, incluindo os Estados Unidos, incluindo tudo o que conhecemos e que nos é caro, afundará no abismo de uma nova idade das trevas ainda mais sinistra, e talvez mais prolongada pelas luzes da ciência pervertida."

E aqui temos a perspectiva de os nazistas desenvolverem uma bomba atômica. Imagine os alemães controlando toda a Europa até os montes Urais, dando aos homens mais maléficos tempo suficiente para desenvolver a mais letal das armas.

Como disse Churchill, não só o Reino Unido estava em jogo, mas terras sob o controle imperial, incluindo os campos de petróleo do Oriente Médio. Os EUA, que tiveram seu próprio movimento pacifista em conflito com Franklin Roosevelt, estavam muito distantes de entrar na guerra.

Os generais de Hitler traçaram planos para uma invasão da Grã-Bretanha, a Operação Leão Marinho. Antes que pudesse haver uma invasão, a Luftwaffe teria de destruir a Royal Air Force (RAF).

A Inglaterra se manteve --no que se tornou sua "melhor hora", na frase mais célebre de Churchill-- porque a RAF superou a Força Aérea de Hitler na Batalha da Grã-Bretanha, que durou um mês.

Mesmo que a Inglaterra fosse ocupada, é razoável pensar que um vigoroso movimento de resistência teria obrigado a Alemanha a manter uma enorme reserva de tropas no local para dominar o reino insular. E Hitler, é claro, tinha outra coisa em mente: a invasão da União Soviética.

Caminhando pela areia do canal da Mancha, é impossível não ver aqueles rapazes trêmulos em Dunquerque, parte da geração da Segunda Guerra Mundial que em breve terá partido totalmente. Antes que eles desapareçam no turbilhão da história, devemo-lhes mais um profundo agradecimento, pela especulação que não pode passar disso.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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