Análise: Novas sanções machucam Coreia do Norte, mas podem não ser o suficiente

Jane Perlez e Rick Gladstone

  • Wong Maye-E/ AP

O governo Trump saudou as mais recentes sanções da ONU contra a Coreia do Norte e suas armas nucleares como as mais severas já impostas, e a fúria norte-coreana com as sanções sugere que causam dor. 

Em uma série de reações de ultraje na segunda-feira às sanções impostas no fim de semana, a Coreia do Norte ameaçou retaliar "milhares de vezes" contra os Estados Unidos, prometeu nunca abrir mão de seu arsenal nuclear e chamou as penas de uma resposta em pânico por um americano valentão. 

Mas especialistas em sanções disseram que não está claro se as medidas impedirão a militarização nuclear da Coreia do Norte ou até mesmo debilitarão sua economia. 

As sanções visam pressionar a Coreia do Norte a negociar, com a meta de que renuncie a suas armas nucleares. Mas Kim Jong-un, o líder norte-coreano, disse repetidas vezes que a capacidade nuclear do país é crucial para sua autodefesa. 

O ministro das Relações Exteriores da Coreia do Norte, Ri Yong Ho, reforçou esse ponto, condenando as novas sanções, na segunda-feira em Manila, durante um encontro ministerial regional que também contou com a participação do secretário de Estado americano, Rex Tillerson. 

"Sob nenhuma circunstância colocaremos as armas nucleares e mísseis balísticos na mesa de negociação", disse Ri em uma declaração. 

"Nem recuaremos um milímetro sequer da estrada para reforço de nossas forças nucleares escolhidas por nós mesmos, a menos que as políticas hostis e a ameaça nuclear dos Estados Unidos contra a RDPC sejam fundamentalmente eliminadas", disse Ri, usando a sigla para República Democrática Popular da Coreia, o nome oficial da Coreia do Norte. 

Em uma resposta mais ominosa, a agência de notícias oficial da Coreia do Norte disse: "Não há erro maior do que os Estados Unidos acreditarem que suas terras estão seguras do outro lado do oceano". 

Como todas as sanções da ONU impostas à Coreia do Norte por mais de uma década, a eficácia da nova rodada, que as autoridades americanas disseram que podem custar ao governo norte-coreano cerca de US$ 1 bilhão por ano, depende da aplicação rígida por parte da China e, em menor grau, da Rússia. 

Ambos os países se juntaram à votação unânime pelo Conselho de Segurança no sábado para penalização da Coreia do Norte. Mas nem a China e nem a Rússia apresentam um forte retrospecto de policiamento das sanções contra a Coreia do Norte. A China, a maior benfeitora da Coreia do Norte, reluta em arrochar sua economia, por temer causar instabilidade em suas fronteiras. 

As sanções adotadas pelo conselho composto por 15 membros deixaram elementos importantes da economia norte-coreana intocados. Por exemplo, a resolução não impôs sanções à importação de petróleo, que são fundamentais para o funcionamento do Estado norte-coreano. 

Além disso, os trabalhadores norte-coreanos que trabalham no exterior e enviam dinheiro para casa, dinheiro que a ONU diz ser usado no programa de armas, poderão permanecer no exterior. As novas sanções impõem um teto para o atual número de trabalhadores no exterior, mas não chegam a exigir que aqueles que já estão trabalhando no exterior voltem para a Coreia do Norte. 

"O número citado pelo governo Trump presume que a China e a Rússia implantarão a resolução", disse Anthony Ruggiero, membro sênior da Fundação pela Defesa das Democracias, grupo de pesquisa baseado em Washington, referindo-se ao US$ 1 bilhão que as sanções poderiam retirar da receita de exportação da Coreia do Norte. "Onze anos de resoluções de sanções das Nações Unidas provam que não o farão." 

Entenda o programa de mísseis norte-coreano

As novas sanções foram uma reação direta aos dois testes norte-coreanos realizados no mês passado de mísseis balísticos intercontinentais, que parecem capazes de atingir o território continental dos Estados Unidos. 

Após a aprovação da resolução, o presidente Donald Trump tuitou: "China e Rússia votaram conosco. Um impacto financeiro muito grande". A embaixadora dos Estados Unidos na ONU, Nikki Haley, disse que as medidas mostram que "não estamos mais brincando" com a Coreia do Norte. 

As novas medidas proíbem todas as exportações de carvão, ferro, minério de ferro, minério de chumbo e frutos do mar norte-coreanos. Elas impõem novas restrições ao Banco de Comércio Exterior da Coreia do Norte, proíbe o país de aumentar o número de trabalhadores enviados para trabalhar no exterior e endurece a fiscalização do transporte marítimo norte-coreano. 

As medidas também impõem um teto a novos investimentos e novos joint ventures na Coreia do Norte. 

A China já concordou neste ano em suspender a importação de carvão norte-coreano e apesar de alguns relatos de contrabando de cargas de carvão, essa proibição parece estar sendo cumprida, disseram especialistas chineses e ocidentais.

 As exportações de minério de ferro norte-coreano, que também são destinadas principalmente à China, encolheram nos últimos anos, mas a receita do Estado com frutos do mar não é tão grande quanto a do comércio de metais, dizem economistas. 

A China aprovou oficialmente as novas sanções. O Ministério das Relações Exteriores em Pequim disse que eram necessárias, e na ONU, o embaixador chinês, Liu Jieyi, pediu à Coreia do Norte que "cesse ações que possam levar a uma escalada ainda maior das tensões". 

Ao apoiar as medidas da ONU e ao fazê-lo conquistando boa vontade por parte do governo Trump, a China parece adiar um conjunto desagradável de sanções que Washington estava preparando para impor à própria China. 

O Departamento do Tesouro está trabalhando em uma série de sanções secundárias contra empresas e bancos chineses que fazem negócios com a Coreia do Norte e ajudam a facilitar seu acesso a moeda estrangeira. 

Mas o governo deseja dar à China a chance de impor as novas sanções da ONU, e hesitará em alienar Pequim ao impor imediatamente sanções contra organizações chinesas, disse Bonnie S. Glaser, uma conselheira sênior para Ásia do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais. 

Apesar da China há muito ser considerada uma aliada da Coreia do Norte, mesmo que uma aliada às vezes rebelde e irritante, ela pode suportar sanções da ONU contra o país, ela disse. Mas Pequim se opõe veementemente a sanções por Washington contra instituições chinesas, particularmente bancos, que ajudem a Coreia do Norte, ela disse. 

"Concordar com o endurecimento das sanções da ONU foi o preço que Pequim estava disposta a pagar para evitar ser atingida por sanções secundárias americanas contra bancos chineses", ela disse. 

Outra consideração para o governo: a filha de Trump, Ivanka Trump, e seu marido, Jared Kushner, devem visitar a China no mês que vem. O ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, disse no fim de semana que a China estava se preparando para receber Trump antes do final do ano. É improvável que Washington queira azedar as relações antes das visitas ao impor as sanções secundárias. 

Isso significa que as empresas chinesas que dão à Coreia do Norte acesso aos dólares americanos e outras moedas basicamente permanecerão livres para continuar realizando seus negócios, disse Ruggiero. 

"Os Estados Unidos darão à China e Rússia tempo para implantar a resolução enquanto empresas, indivíduos e bancos chineses facilitam a evasão das sanções por Pyongyang", ele disse. 

As empresas e bancos chineses são fundamentais para o acesso da Coreia do Norte a moeda estrangeira, disse Ruggiero. Desde 2009, a Coreia do Norte usa entidades chinesas para processar pelo menos US$ 2,2 bilhões em transações pelo sistema financeiro americano, disse Ruggiero em um depoimento ao Congresso no mês passado. 

Ao permitir à Coreia do Norte continuar enviando trabalhadores ao exterior, o Conselho de Segurança abriu mão de um alvo fácil para coibir receita, disse Joseph DeThomas, um ex-funcionário do Departamento de Estado que era especializado em sanções contra o Irã e Coreia do Norte. 

"Ao simplesmente impor um teto aos trabalhadores, o campo fica aberto para uma evasão fácil, fazendo com que trabalhadores adicionais trabalhem de forma clandestina", disse DeThomas. 

Entre 60 mil e 80 mil norte-coreanos trabalham no exterior, muitos deles em empregos no setor de construção em condições terríveis, segundo grupos de direitos humanos. 

As Nações Unidas "garantiram que a Coreia do Norte receba ao menos US$ 500 milhões por ano com a prática" de envio de trabalhadores para o exterior, disse Ruggiero. 

Durante um ponto baixo nas relações entre a China e a Coreia do Norte neste ano, o "Global Times", jornal estatal que às vezes reflete os pontos de vista de Pequim, sugeriu que a China pode estar disposta a reduzir a quantidade de petróleo que envia à Coreia do Norte. Sem o óleo cru chinês, a economia da Coreia do Norte ficaria em perigo. 

As sanções da ONU não tocaram na importação de petróleo, que parecia ser uma medida excessiva demais para a China, disse Ruggiero. 

DeThomas ofereceu uma posição ambígua a respeito das mais recentes sanções. 

"Não estou dizendo que não foi algo bom de ser feito", ele disse. "Estou dizendo que provavelmente é muito pouco, tarde demais. Outras cartas terão que ser usadas pela China, Estados Unidos e Coreia do Sul para que algo muito danoso, sangrento e politicamente catastrófico seja evitado."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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