Homem de Trump na CIA reforça tom político

Matthew Rosenberg*

Em Aspen (Colorado)

  • Doug Mills/The New York Times

    12.jun.2017 - O diretor da CIA Mike Pompeo durante encontro com o presidente Donald Trump, na Casa Branca

    12.jun.2017 - O diretor da CIA Mike Pompeo durante encontro com o presidente Donald Trump, na Casa Branca

Suando sob o brilho intenso dos holofotes, Mike Pompeo, o diretor da CIA, havia chegado ao limite de sua paciência com perguntas sobre a interferência russa nas eleições presidenciais.

"Olha", ele falou rispidamente durante uma rara aparição pública em julho, no Fórum de Segurança de Aspen. "Essa é a 19ª vez em que todos vocês perguntam".

Na verdade, era somente a quarta pergunta sobre a Rússia naquela noite. Mas Pompeo tinha uma desculpa para perder a paciência: ele comanda uma agência que tem certeza de que a Rússia interferiu nas eleições, no entanto serve a um presidente que minimizou as especulações sobre a interferência russa, dizendo que eram "fake news", e que criticou a investigação sobre ela, chamando-a de caça às bruxas.

Todos os diretores da CIA precisam equilibrar as demandas políticas do presidente a quem eles servem com a ideia declaradamente apolítica da agência de si mesma. No entanto, foram raras as vezes em que um diretor enfrentou um descompasso tão grande quanto Pompeo, que talvez seja o chefe de inteligência mais abertamente político da última geração --e um dos membros de gabinete favoritos do presidente Donald Trump.

Diferentemente de diretores anteriores, que costumavam tentar evitar discussões sobre políticas, Pompeo contribui prontamente quando o presidente pede sua opinião, mesmo sobre assuntos muito distantes da segurança nacional, como o sistema de saúde. E ele traz à mesa as visões de um ex-deputado que foi eleito pela primeira vez na onda do Tea Party em 2010, que cravou seu lugar na extrema-direita do Partido Republicano.

Em sua época de Congresso, Pompeo defendia uma vigilância doméstica em larga escala, insistia que simulação de afogamento (waterboarding) não era tortura e ignorou uma greve de fome feita por detentos de Guantánamo, em Cuba, dizendo que se tratava de um ""truque político". Ele disse que acreditava que Hillary Clinton havia tentado acobertar os ataques de 2012 contra o complexo diplomático americano em Benghazi, na Líbia, mesmo depois de uma investigação parlamentar liderada pelos republicanos não ter descoberto nenhuma prova nova que sustentasse a alegação. Assim como a maioria dos parlamentares republicanos, ele foi contra o acordo nuclear do Irã negociado pela gestão Obama.

Pompeo, 53, é só o tipo de cara durão com boas credenciais que Trump admira. Ele se formou como primeiro da classe na West Point, serviu como oficial de tanques no Exército americano e frequentou a Faculdade de Direito de Harvard. Desde que chegou à CIA, ele se mostrou ansioso para ir além dos limites, seja em operações secretas ou chamando a atenção da imprensa pelo que ele considera suas falhas.

No entanto, os atributos que fizeram o presidente se encantar por Pompeo --sua política bélica e prontidão para falar o que está pensando-- foram recebidos com menos entusiasmo pela CIA. A agência entende que seu papel é dar notícias difíceis sem o verniz das preferências políticas, e há preocupações entre a comunidade da inteligência de que os instintos partidários de Pompeo acabem afetando suas visões sobre questões controversas, tais como a interferência da Rússia nas eleições ou o programa nuclear do Irã.

"O grande teste será quando houver um confronto direto entre a agência e o governo", disse Vince Houghton, um historiador especializado em questões militares e de inteligência que é curador do Museu Internacional de Espionagem em Washington.

"Se tivermos outra situação de armas de destruição em massa como do Iraque, se houver um ataque direto à agência de um tuíte de Trump ou algo assim", ele continuou, "veremos se ele abraçou a cultura da CIA --e se eles o abraçaram de volta-- ao invés de ser leal a Trump".

Pompeo parece estar ensinando a CIA a aceitar seu Trump interno. Em resposta a perguntas para esta matéria, Dean Boyd, um porta-voz da agência, respondeu que a única preferência de Pompeo "é pela ação e pela vitória".

Quando foi deputado de Wichita, no Kansas, lar das Indústrias Koch, Pompeo era um favorito dos irmãos Koch, os bilionários conservadores que dirigem a empresa. Mas ele ainda consegue encantar uma plateia de visões políticas diversas, provocando risadas no Fórum de Segurança de Aspen ao fazer piadas sobre coisas como "essa Primeira Emenda confusa", ao mesmo tempo em que ataca alvos prediletos dos republicanos como a gestão Obama e o WikiLeaks (esquecendo-se de mencionar que no passado ele comemorou os vazamentos do WikiLeaks).

Mas Pompeo sabe quem não deve criticar --no caso, Trump. Desde que assumiu a CIA, Pompeo fez o possível para elogiar o que ele descreve como a abordagem de mente aberta de Trump sobre o serviço secreto, ressignificando a grosseira zombaria que o presidente fez das agências de inteligência americanas como sendo um ceticismo saudável de um líder inteligente.

"O presidente", disse Pompeo em uma aparição pública em abril, "está totalmente preparado para ouvir coisas que se opõem à hipótese".

Questionado sobre como ele se dava com Trump, Pompeo respondeu efusivamente. "A relação é, a meu ver, fantástica", ele disse na época.

Stephen Crowley/The New York Times
Mike Pompeo (centro) durante audiência no Comitê de Inteligência do Senado, em Washington

Membros do governo disseram que o presidente estava tão encantado com Pompeo que ele insistiu que o diretor da CIA deveria apresentar pessoalmente seu briefing diário de inteligência quando estivesse em Washington. (Dan Coats, diretor da inteligência nacional, também participa.)

"Houve dias em que pensei que estávamos lá, prontos para fazer o briefing, e eu pensava, 'Sem chances de conseguirmos entrar hoje'", disse Pompeo em abril. "E sabe, todos os dias entramos lá. É como um relógio".

É somente depois do briefing, normalmente no final da manhã ou começo da tarde, que Pompeo atravessa a pé o Rio Potomac até a sede da CIA em Langley, na Virgínia, onde seu acesso imediato a Trump é visto como algo positivo. A agência vê o presidente como seu principal cliente, e a sabedoria popular em Washington diz que um diretor da CIA é tão poderoso quanto a força de seu acesso ao Salão Oval.

"A habilidade de Pompeo de se comunicar em um estilo com o qual o presidente se sinta confortável provavelmente é algo bom", disse Michael Hayden, um ex-diretor tanto da CIA quanto da Agência de Segurança Nacional (NSA).

"Seu trabalho é dizer ao presidente coisas que ele não quer ouvir", disse Hayden. "Mas você precisa conduzi-lo até a verdade --você não pode simplesmente jogá-la na cara dele e sair correndo do Salão Oval".

Autoridades dizem que oficiais de inteligência acharam que Pompeo está ansioso para ouvir sobre seu trabalho e ouvir suas preocupações. E ele conquistou elogios por fazer uma pressão agressiva para expandir a espionagem e operações secretas e promover oficiais veteranos a cargos sênior. Na semana passada, ele viajou para Cabul, no Afeganistão, para discutir sobre cooperação em segurança com líderes do Afeganistão, inclusive o presidente Ashraf Ghani, em um país onde a CIA trabalha de perto com a inteligência afegã e agentes paramilitares da agência passaram anos caçando terroristas.

Antigos e atuais funcionários da CIA, todos falando sob condição de anonimato para proteger suas carreiras, disseram que não houve uma pressão aberta por parte de Pompeo para modificar informações sobre qualquer questão desde que ele assumiu a agência. Mas eles também disseram que Pompeo não fazia segredo de suas opiniões --algo que poderia impedir o tipo de serviço de informações que a agência produz, de acordo com Paul R. Pillar, que passou quase 30 anos na CIA e hoje é pesquisador da Universidade de Georgetown.

"Quando os analistas estão preparando suas avaliações, eles não podem apagar de suas mentes sua percepção do que será bem recebido e do que não será bem recebido", disse Pillar. "Existe o risco de surgir uma parcialidade, ainda que de forma inconsciente".

Pompeo não é o primeiro ex-deputado a dirigir a CIA. Ele vem atrás do democrata Leon Panetta e dos republicanos George H.W. Bush, que dirigiu a agência no último ano da gestão Ford, e Porter J. Goss. Mas nenhum deles enfrentou uma questão como o acordo do Irã, onde eles "tenham assumido uma visão muito contundente como a de Pompeo" sobre uma questão com a qual a CIA ainda estava lidando, disse Pillar.

"A meu ver, nenhum deles continuou sendo tão franco assim depois de assumirem a diretoria", ele acrescentou.

*Com reportagem de Adam Goldman e Eileen Sullivan (Washington), e Maggie Haberman (Nova York).

Tradutor: UOL

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