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Promessas e problemas sobre construção de muro criam polêmicas no sul da Califórnia

Pedestres caminham em direção ao portão de entrada para o México, na fronteira entre EUA e México, em San Ysidro, na Califórnia - SANDY HUFFAKER/NYT
Pedestres caminham em direção ao portão de entrada para o México, na fronteira entre EUA e México, em San Ysidro, na Califórnia Imagem: SANDY HUFFAKER/NYT

Jennifer Medina

Em San Diego (EUA)

29/09/2017 00h01

Em uma faixa de terra empoeirada e cercada por um alambrado, próxima à fronteira, trabalhadores começaram a cavar o solo nesta semana para um protótipo em grande escala de um muro na fronteira com o México.

Os oito modelos diferentes do muro prometido pelo presidente Donald Trump variam entre 5,40 e 9 metros de altura. Quatro serão feitos de concreto e quatro usarão "outros materiais".

Eles estão sendo construídos em uma área cuidadosamente protegida, não muito longe de um campo onde, décadas atrás, migrantes mexicanos se reuniam em plena luz do dia antes de entrar nos EUA ilegalmente.

De muitas maneiras, porém, uma amostra do muro e do que ele pode ou não realizar existe aqui há quase 20 anos. Estendendo-se por aproximadamente 30 quilômetros ao longo da fronteira sul da Califórnia e pelo oceano Pacífico, há duas camadas de aço e concreto, a barreira mais reforçada do país.

O Estado há muito está no centro do debate sobre como deter a imigração ilegal do México e da América Central. Hoje, o resto do país mais uma vez se volta para a região que há muito luta com a segurança nas fronteiras para ver como poderá ser a futura ação repressiva.

E apesar do papel da Califórnia como epicentro da oposição a Trump o governo parece nunca ter pensado em colocar os modelos do suposto muro em outro lugar.

Talvez ninguém aprove o retorno da região ao foco de atenção tanto quanto o deputado republicano Duncan Hunter, cujo distrito cobre a área urbana e rural de San Diego.

O pai de Hunter também representou a região durante muitos anos no Congresso e passou a maior parte do mandato pressionando por barreiras cada vez mais fortes na fronteira. Hunter chama a cerca atual de "um exemplo brilhante do que um muro na fronteira pode fazer".

"Eu disse a Trump que se ele queria ver um modelo já há um pronto, está em San Diego, onde quase não temos imigração ilegal", disse Hunter. "Chame de cerca ou de muro. Ela mudou completamente a área e tornou a fronteira segura de se viver."

De fato, a imigração ilegal aqui foi reduzida a um filete. O número de migrantes apreendidos na região enquanto tentavam cruzar ilegalmente é cerca de 5% do que já foi: aproximadamente 32 mil por ano, comparados com um pico de quase 630 mil em 1986, segundo a Patrulha de Fronteiras dos EUA.

Mas muitos migrantes foram para outros lugares, recorrendo a rotas mais perigosas pelo Arizona e o vale do rio Grande. E a imigração do México em geral diminuiu drasticamente, pois a economia pujante convenceu muitos a não se mudar para o norte.

A infraestrutura e o policiamento custaram bilhões de dólares --não apenas para construir as barreiras, mas também para as consertar e patrulhar constantemente.

A poucos quilômetros de onde os protótipos serão erguidos, Dick Tynan pode ver com facilidade um morro do outro lado da fronteira mexicana, do gramado de sua casa no pequeno haras onde ele vive há décadas.

Em uma tarde recente, ele lembrou que há 20 anos costumava se sentar em uma cadeira de jardim e observar centenas de homens e mulheres que se reuniam no morro toda tarde e esperavam pelo anoitecer, quando cruzavam a fronteira correndo e desciam para as fazendas e estábulos ao longo do riacho local.

"Havia um monte de gente o tempo todo. Era simplesmente o caos. Você os via descer sem ninguém a persegui-los. Ficavam à vontade", disse Tynan. "Não importava o que disséssemos, a quem nos queixássemos, simplesmente ninguém fazia nada a respeito."

Mas nos anos 1990 ele viu uma cerca ser construída: primeiro placas de metal --plataformas para pouso de helicópteros colocadas de lado--, depois colunas de concreto que chegavam a 5,40 metros.

Agora há uma cerca de concertina e agentes da patrulha de fronteira a cavalo ou em caminhonetes mantêm vigilância na estrada todos os dias, às vezes de hora em hora. Afinal os imigrantes pararam de atravessar onde Tynan pudesse vê-los.

Hoje, uma das características mais destacadas da área é o amplo shopping center que fica junto da cerca de arame farpado. Uma subdivisão arrumada de casas de barro fica do outro lado da rua.

Nenhum trecho da fronteira é submetido a tanto monitoramento e tem tantas barreiras físicas quanto a área de San Diego, que é apoiada por dupla camada de cercas, iluminação de estádio e vigilância por vídeo. San Ysidro, o ponto de entrada aqui, ainda é o cruzamento de fronteira mais movimentado do país.

A metade de todas as entradas nos EUA passam por ela. Após anos de queixas de motoristas do México pela longa espera, uma extensão de US$ 740 milhões do cruzamento de veículos está em obras, destinada a aumentar os negócios interfronteiras.

"Houve um esforço e despesas enormes para criar uma fronteira diferente de qualquer outra coisa", disse Wayne Cornelius, um professor na Universidade da Califórnia em San Diego que estuda a região há décadas. "O que isso fez, mais que qualquer outra coisa, foi reorientar os fluxos. Criou um efeito balão de mandar as pessoas para outros lugares e pagar mais aos traficantes para atravessá-las."

Nos anos 1990, imagens de migrantes saltando sobre a fronteira e correndo por rodovias foram captadas por câmeras de noticiários e transmitidas todas as noites na TV, alimentando um firme debate sobre quem deveria ser autorizado a entrar e como.

Os políticos --democratas e republicanos igualmente-- de todo o país vieram aqui para denunciar o que consideravam uma imigração ilegal liberada.

"Qualquer pessoa que more aqui se lembra do tempo em que acordavam com alguém em seu quintal ou na garagem", disse Serge Dedina, prefeito de Imperial Beach, que cresceu na área e lembra de um tempo em que a fronteira era considerada quase uma zona de combate, com centenas de migrantes entrando de forma ilegal diariamente. "Não estamos mais desse jeito. A realidade é que muito pouco em relação à fronteira está parecido hoje."

Desta vez, porém, o clima político é muito diferente. Adversários do muro dizem que a barreira aqui é apenas um pequeno fator que reduz o número de imigrantes que entram ilegalmente, afirmando que a forte economia mexicana foi o principal fator que impediu a travessia dos imigrantes.

Um muro ao longo da maior parte da fronteira sul, dizem eles, levaria as drogas e as pessoas para o terreno mais acidentado, como ocorreu aqui.

As autoridades da Califórnia continuam resistindo, afirmando que já há policiamento rígido na fronteira e que um muro faria pouco mais que antagonizar os aliados mexicanos.

Na semana passada, o secretário de Justiça estadual, Xavier Becerra, democrata, abriu um processo alegando que o plano de construir um muro viola as leis ambientais federais e se baseia em estatutos que não autorizam tais projetos na região.

Apesar do duro esquema de policiamento, ainda há problemas com a fronteira: o fluxo de drogas, armas e migrantes ilegais é uma realidade cotidiana. Naquela manhã mais cedo, antes do nascer do sol, um dos cães da patrulha alertou os policiais para um carro Chevy 2010 enquanto um cidadão americano de 52 anos esperava para passar pelo posto de controle.

Quando os policias revistaram o carro, encontraram 31 pacotes de metanfetamina embrulhada em plástico escondidos dentro do parachoque traseiro. Na rua, segundo os oficiais, os 16 quilos de droga alcançariam cerca de US$ 115 mil.

"Há uma persistência de organizações criminosas que estão constantemente tentando colocar drogas no outro lado", disse Mark Endicott, um agente da Patrulha de Fronteiras que trabalha na região há décadas. "Estamos lidando com atores de baixo nível, que sempre encontram formas de mudar o que fazem para evitar ser apanhados."

"Se não fosse eficiente, eles não precisariam disso", disse Endicott.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves