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Opinião: Como vencer uma discussão sobre armas de fogo

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Imagem: Getty Images

Nicholas Kristof

06/04/2018 00h01

É trágico, revoltante e prenunciado que estejamos novamente lamentando um tiroteio, desta vez, na sede do YouTube, ao mesmo tempo em que os esforços por uma legislação sobre controle de armas se encontram empacados em Washington. As pesquisas mostram que nove entre dez americanos são a favor de medidas básicas para a venda de armas como verificações universais de antecedentes, mas as exceções são o presidente e a maioria no Congresso.

Normalmente os especialistas expõem seus melhores argumentos enquanto ignoram os do outro lado, mas hoje vou tentar algo novo e dialogar diretamente com os argumentos apresentados por defensores de armas.

Vocês, esquerdistas, estão em pânico por causa das armas, mas olhem para os números. Qualquer arma tem menor probabilidade de matar do que qualquer veículo. Mas não estamos traumatizados pelos carros, e não estamos tentando proibi-los.

É verdade que qualquer carro particular tem maior probabilidade de se envolver em uma fatalidade do que qualquer arma particular. Mas carros são, na verdade, um exemplo perfeito de abordagem para a saúde pública que deveríamos aplicar às armas. Não proibimos carros, mas trabalhamos arduamente para regular um produto perigoso com o intuito de limitar os danos.

Fazemos isso através de cintos de segurança e airbags, limites de velocidade e barreiras em rodovias, carteiras de habilitação e condições de seguradoras, não tolerando embriaguez e mensagens de texto ao volante. Uma vez calculei que, desde 1921, nós reduzimos em 95% o índice de fatalidade nas estradas a cada 160 milhões de quilômetros rodados.

É claro, poderíamos só dizer, “carros não matam pessoas, pessoas matam pessoas”. Ou poderíamos dizer que é inútil regular os carros porque então os ciclistas vão simplesmente se atropelar uns aos outros. Em vez disso, contamos com dados e fundamentos para reduzir a carnificina dos carros. Por que isso não é um modelo para as armas?

Por causa da Segunda Emenda. A Constituição não protege veículos, mas protege meu direito a uma arma.

Sim, mas a Justiça descobriu que a Segunda Emenda não impede uma regulação sensata (assim como a Primeira Emenda não impede leis sobre difamação). Não existe nenhuma objeção constitucional a, por exemplo, verificações universais de antecedentes para a obtenção de uma arma. É uma insanidade que 22% das armas sejam obtidas sem nenhuma verificação.

Todos nós concordamos que deveria haver limites. Ninguém alega que existe um direito individual de se ter uma arma antiaérea. Então a questão não é se todas as armas de fogo deveriam ser sagradas, mas simplesmente que um limite deve ser estabelecido. Quando se pensa que mais americanos morreram em consequência de armas desde 1970 (1,4 milhão) do que em todas as guerras na história dos Estados Unidos (1,3 milhão), talvez valha a pena repensar onde esse limite deveria estar.

Vendedor de feira nos Estados Unidos faz demonstração com fuzil AR-15 - AFP - AFP
Vendedor de feira nos Estados Unidos faz demonstração com fuzil AR-15
Imagem: AFP

Epa! Você está inflando os números sobre violência por armas ao incluir os suicídios. Quase dois terços dessas mortes por armas são suicídios, e a dura realidade é que se alguém quer se matar, a pessoa vai encontrar um meio. Não tem a ver com armas.

De fato, isso não é verdade. Especialistas descobriram que barreiras contra suicídio em pontes, por exemplo, evitam que as pessoas pulem e não levam a um aumento significativo de suicídios em outros lugares. Da mesma maneira, quase metade dos suicídios no Reino Unido costumavam ser por asfixia com gás de forno, mas quando o Reino Unido fez a troca para um forno a gás menos letal, os suicídios por asfixia com gás de forno despencaram, e houve poucas substituições por outros métodos. O mesmo vale para as armas.

Não, o problema é mais nossa cultura de violência. Os suíços e os israelenses têm grandes números de armas de fogo, e eles não têm os nossos níveis de violência por armas.

Sim, existe uma verdade nisso. Os Estados Unidos têm problemas sociais inerentes, e precisamos abordá-los com políticas econômicas e sociais mais inteligentes. Mas nós magnificamos os danos quando facilitamos para que pessoas perturbadas estourem com AR-15s em vez de canivetes.

Vocês, esquerdistas, surtam com as armas. Piscinas ou banheiras são mais perigosas para as crianças do que uma arma. Crianças com menos de 14 anos têm uma probabilidade muito maior de morrerem por afogamento do que por armas de fogo. Então por que essa cruzada contra as armas, mas não contra banheiras ou piscinas?

Seus números estão basicamente certos, mas só porque crianças pequenas nadam e tomam banho com frequência, mas não se deparam com armas de fogo com frequência. Mas veja o cenário para a população como um todo: no geral, 3.600 americanos se afogam todos os anos, enquanto 36 mil morrem por armas (sim, incluindo suicídios). Esse é um motivo pelo qual se fala mais em segurança de armas do que sobre segurança de piscinas.

Notem também que uma piscina não vai ser usada para assaltar um vizinho, ou para invadir uma escola. As escolas não têm procedimentos para lidar com uma “crise envolvendo piscina em andamento”. E enquanto cerca de 200 mil armas são roubadas a cada ano, é mais difícil roubar uma piscina e usá-la para fins violentos.

Além disso, nós tentamos deixar as piscinas mais seguras. Muitas jurisdições exigem uma autorização para se ter uma piscina, bem como uma cerca com travas automáticas que impeçam o acesso de crianças. Se temos autorizações e exigências de segurança para piscinas, por que não para armas? Qual o problema de se tentar salvar vidas?

Tradutor: UOL