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Na China, é preciso pagar a maternidade para poder ver seu bebê após o parto

Juliana Brandy Logbo, liberiana que deu à luz gêmeos, em hospital na China - Gilles Sabrie/The New York Times
Juliana Brandy Logbo, liberiana que deu à luz gêmeos, em hospital na China Imagem: Gilles Sabrie/The New York Times

Sui Lee We

Em Cantão (China)

27/05/2018 00h01

Um dia após Juliana Brandy Logbo dar à luz a gêmeas neste mês, na ala de cesariana de emergência de um hospital chinês, ela achou que o pior já tinha passado. Foi então que começaram as exigências por dinheiro.

Primeiro, disse Logbo, o hospital lhe disse que ela teria que pagar US$ 630 (cerca de R$ 2.290) de taxas de hospitalares caso quisesse ver as meninas. Três dias depois, ela disse, o valor subiu para quase US$ 800 (cerca de R$ 2.910 ).

Ela não tinha o dinheiro. As exigências a deixaram aos prantos do lado de fora da ala de recém-nascidos no hospital.

"Eu queria que meus filhos fossem liberados porque eu precisava amamentá-los", disse Logbo, uma liberiana de 28 anos que vive em Cantão. "Eu dei à luz meus bebês, mas não posso nem vê-los. Em que tipo de país eu estou?"

Na maioria dos países desenvolvidos, os pacientes que necessitam de atendimento urgente primeiro o recebem, independentemente de poderem pagar ou não. Mas esse nem sempre é o caso na China.

Logbo está vivendo na China com um visto expirado e não sabe falar chinês. Mas sua experiência é semelhante a de milhões de chineses que precisam lidar com um sistema de saúde inflexível que às vezes exige que os pacientes paguem adiantado pelo tratamento.

A China apresentou um pacote ambicioso de US$ 130 bilhões para tornar o atendimento médico mais barato. O país agora possui um atendimento de saúde quase universal para seus quase 1,4 bilhão de habitantes.

Mas o sistema ainda apresenta falhas na cobertura. Dependendo da doença, se a pessoa vive na cidade ou no campo e de outros fatores, muitos chineses podem enfrentar custos enormes.

E há os resquícios do sistema pago do país. Pessoas que não tem o dinheiro com frequência têm o atendimento negado, mesmo em situações de vida ou morte. Alguns hospitais exigem que os pacientes com algumas doenças específicas primeiro paguem um alto depósito.

Apesar da reforma da saúde supostamente visar tornar o atendimento médico mais acessível, analistas do setor dizem que o problema persiste. Em 2015, por exemplo, as autoridades nacionais de saúde recomendaram que nos casos de pacientes gravemente doentes, os hospitais tinham que "primeiro salvá-los, depois exigir o pagamento".

Novos pais são vulneráveis, segundo reportagens na mídia estatal chinesa.

Em 2012, um casal de Shenzhen teve o acesso aos seus gêmeos recém-nascidos negado por dois meses porque não podiam pagar os quase US$ 19 mil (cerca de R$ 69 mil) de taxas. Em 2011, uma avó de 57 anos em Nanquim, cujo filho devia ao hospital US$ 2.800 (cerca de R$ 10.170) pelo parto de seu filho, se ajoelhou e implorou aos médicos e enfermeiros que permitissem que ele visse seu bebê. Naquele mesmo ano, um hospital em Dongguan disse aos pais que lhe deviam mais de US$ 1.600 (cerca de R$ 5.810) que mandaria o recém-nascido para um orfanato para pressioná-los a pagar. Apesar das famílias inevitavelmente receberem seus bebês, os hospitais podem usar as exigências para pressionar por um pagamento mais rápido e completo.

Rebecca Taylor, uma orientadora de amamentação australiana em Pequim, chamou o caso de Logbo de uma "violação enorme de direitos humanos". Ela acrescentou que a separação de Logbo de seus bebês poderia ser "quase catastrófica" em termos de produção de leite materno.

"Fico triste, decepcionada e horrorizada, mas não surpresa", disse Taylor. "Se alguém precisa ir a algum hospital local para algo, todos sabem que é preciso primeiro parar em um caixa eletrônico para sacar dinheiro. Você literalmente não consegue nada sem pagar."

Logbo reconheceu que sua situação complicava as coisas. O namorado dela, também liberiano e pai das gêmeas, está detido na China desde setembro, ela disse, acusado de emprestar sua conta bancária chinesa para um amigo para a realização de uma transferência de dinheiro.

No Hospital do Povo do Distrito de Huadu, em Cantão, os pedidos por dinheiro começaram cedo. Em 5 de maio, quando Logbo entrou em trabalho de parto, ela teve que pagar US$ 130 (cerca de R$ 475) pela "taxa da ambulância". Após sua cesariana no dia seguinte, ela teve que pagar um depósito de US$ 790 (cerca de R$ 2.870 ).

Logbo deu à luz às 3h da manhã e as enfermeiras levaram os gêmeos sem permitir que ela os segurasse. Quando ela pediu para ver as meninas no dia seguinte, os administradores exigiram uma taxa de alta de US$ 630, ela disse.

Sua amiga Salome Sweetgaye a ajudou a levantar o dinheiro, mas demoraram demais. Em 10 de maio, lhes foi dito que precisavam pagar US$ 800, segundo Logbo. Ela disse ao hospital que não tinha dinheiro. O preço foi então reduzido para US$ 707. Cópias das faturas foram vistas pelo "New York Times".

Naquela tarde, Logbo segurou seus bebês pela primeira vez.

Uma mulher de sobrenome Tang, que trabalha no departamento de reclamações do hospital, contestou o relato de Logbo. "Definitivamente não foi um caso de exigir pagamento antes que ela pudesse ver as crianças", disse Tang, que se recusou a dar seu nome completo. Ela disse que os funcionários do hospital estavam apenas "lembrando" a Logbo da necessidade de pagar.

Tang disse que os bebês de Logbo nasceram prematuros e não podiam ser removidos da UTI neonatal. Muitos hospitais chineses têm uma política de negar aos pais acesso a bebês prematuros, por falta de enfermeiros para monitoramento da visita e medo de infecções.

Logbo rejeitou as afirmações de Tang, dizendo que seus bebês nasceram saudáveis com 37 semanas.

Sweetgaye, 28 anos, confirmou o relato da amiga e disse que o hospital estava "mentindo".

"Eles se recusavam a dar os bebês para Juliana", disse Sweetgaye. "Ela teve que chorar muito."

Os responsáveis pelo hospital não responderam aos pedidos adicionais por comentários.

Logbo, que é formada em administração pela Universidade da Libéria, ganha dinheiro como guia para turistas africanos em Cantão. Ela e seu namorado, que também estava na China com visto expirado, viviam em um apartamento de apenas um quarto próximo de Pequim. Antes dele ser detido, eles planejavam voltar para a Libéria.

Quando viajou para Cantão, Logbo descobriu que estava grávida. Foi aí que seu namorado foi detido. Logbo, que não mais o viu desde então, agora vive em Cantão com Sweetgaye.

Os funcionários do hospital não falam inglês, de modo que não é possível saber se houve algum problema de comunicação. Os funcionários usavam aplicativos de tradução no smartphone, disse Logbo.

Mas as exigências do hospital eram claras, ela disse. Um funcionário, ela disse, digitou em seu telefone que ela precisava pagar 5.000 yuans (cerca de US$ 800) para que os bebês recebessem alta.

Logbo e suas gêmeas receberam alta em 13 de maio, após ela pagar quase US$ 3.500 (cerca de R$ 12.680) no total, dinheiro levantado por meio de doações. Ela batizou as meninas de Grace Annabelle e Gracious Anna.

O sistema pago persiste em parte porque, como dizem alguns médicos, elas acabam ficando com contas não pagas e os hospitais fazem questão de destacar que não são caridades.

Felicity Miller, uma britânica que trabalhava em uma fábrica na China, disse que um hospital de Xangai se recusou a dar à sua filha prematura, nascida em 2011, uma injeção para prevenir o colapso dos pulmões por não ter recebido um depósito de cerca de US$ 1.600. Então ameaçou suspender o tratamento, porque a seguradora dela não fez ao hospital um depósito de quase US$ 7.900.

"Eles disseram: "se não recebermos o dinheiro, suspenderemos o tratamento", disse Miller em uma entrevista por telefone. "E se o tratamento fosse suspenso, ela morreria."

Miller disse que foi embora da China naquele ano por causa de sua experiência.

"Amo muito a China", ela disse, "mas parece que quando as coisas dão errado, lá não é o lugar certo de se estar".

Tradutor: George El Khouri Andolfato