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Venezuelanos ricos fogem do governo Maduro e investem em imóveis na Espanha

24.mai.2018 - O presidente venezuelano, Nicolas Maduro, faz juramento para seu segundo mandato  - Federico Parra/AFP
24.mai.2018 - O presidente venezuelano, Nicolas Maduro, faz juramento para seu segundo mandato Imagem: Federico Parra/AFP

Raphael Minder

Em Madri (Espanha)

31/07/2018 00h01

O país está na ruína econômica. A fome é geral. A inflação é atordoante e deverá atingir 1 milhão por cento até o final do ano. Os hospitais não têm remédios e equipamento, nem mesmo luvas de borracha.

Milhões de venezuelanos travam uma luta diária pela sobrevivência em seu país, mas outros descobriram um porto seguro para seu dinheiro do outro lado do Atlântico: o mercado imobiliário de Madri.

Durante um passeio por Salamanca, bairro elegante da capital espanhola, Luis Valls-Taberner, um assessor de investimentos imobiliários, indicou em quase todas as ruas um prédio que, segundo ele, havia sido adquirido recentemente por algum venezuelano rico.

Valls-Taberner não identificou os compradores. Algumas propriedades, disse ele, foram adquiridas por meio de companhias de investimentos com sede em Miami ou outros lugares, mas o dinheiro vinha da Venezuela.

Os preços dos imóveis em Madri subiram cerca de 17% no ano passado, o maior aumento entre as cidades espanholas, fazendo o custo de vida no centro da capital atingir níveis vistos pela última vez em 2007, antes do estouro da bolha da construção espanhola.

O bairro de Salamanca, com suas lojas de moda e restaurantes, esteve no centro do boom, em parte graças aos venezuelanos ricos. Muitos são adversários do presidente Nicolás Maduro, que fogem de seu país devido ao turbilhão político e econômico. Mas alguns são ligados ao governo e talvez estejam preocupados com seu futuro diante das sanções internacionais e da inquietação social.

"Eu às vezes me vejo sentado em restaurantes em Madri ao lado de pessoas que eu não me sentiria à vontade de ver em Caracas", disse Leopoldo López Gil, pai de Leopoldo López, um líder de oposição venezuelano que está em prisão domiciliar em Caracas, a capital da Venezuela.

Parte do charmoso bairro de San Blás, a Plaza de Santa Ana está no centro histórico de Madri, abriga inúmeros restaurantes, cafeterias e é ponto de encontro das pessoas aos fins de semana - Fellipe Fernandes/UOL - Fellipe Fernandes/UOL
Madri (foto) é um dos destinos favoritos de venezuelanos insatisfeitos
Imagem: Fellipe Fernandes/UOL

Só em Salamanca, pelas estimativas de algumas empresas imobiliárias de Madri, mais de 7.000 apartamentos de luxo hoje são de propriedade de venezuelanos.

Enquanto parte desse capital de investimento vem de associados ao regime Maduro, o grosso é de famílias que enriqueceram décadas atrás, em uma economia cujo principal ativo, o petróleo, foi nacionalizado nos anos 1970.

"As grandes fortunas da Venezuela sempre foram ligadas entre si e dependentes de um bom relacionamento com o Estado", disse o venezuelano Rolando Seijas, fundador da SNB Capital, uma firma de investimentos sediada em Madri cujas atividades vão de serviços de seguros a uma fábrica de peças eletrônicas no sul da Espanha.

Diferentemente dos mexicanos e outros latino-americanos que hoje investem na Espanha, acrescentou ele, "estamos aqui como sobreviventes que sabem que as pontes com nossa terra natal provavelmente foram queimadas".

Na verdade, alguns venezuelanos se tornaram empresários de sucesso na Espanha, criando serviços de entregas, restaurantes e lojas, ou comprando franquias, como a da rede de fast-food americana Subway.

Para escapar da crise na Venezuela, Andoni Goicoechea abandonou os estudos de medicina e se mudou para Madri, onde fundou a Goiko Grill, que hoje opera 44 hamburguerias na Espanha. Em junho, uma firma de capitais privados controlada pelo grupo francês de artigos de luxo LVMH, adquiriu uma participação majoritária no negócio, avaliando-o em 150 milhões de euros (cerca de R$ 650 milhões).

"A prioridade dos venezuelanos era ter uma casa aqui, mas hoje estão se sentindo à vontade na Espanha e entrando em todo tipo de negócios", disse Valls-Taberner.

Os empresários venezuelanos autoexilados, por sua vez, dizem que estão incentivando seus conterrâneos a vir para a Espanha.

"Quando precisamos contratar alguém aqui, sempre procuramos um venezuelano", disse Jorge Neri, cujos ativos na Espanha incluem a Cambio 16, uma publicação noticiosa. "Mesmo que não fôssemos amigos íntimos em Caracas, agora compartilhamos o sentimento de ter sofrido a mesma tragédia."

Os venezuelanos não apenas começaram a comprar imóveis na Espanha, mas também a construí-los. Em 2017, a família Cohén, dona de uma das maiores imobiliárias comerciais da Venezuela, abriu o Sambil Outlet nos arredores de Madri, que se autointitula o maior shopping center da Espanha.

Os Cohén estão entre os venezuelanos que se mudaram para a Espanha em 2012, quando o governo de Madri foi obrigado a negociar uma ajuda econômica europeia. O momento permitiu que eles comprassem ativos espanhóis por baixo preço: o Sambil substituiu um shopping center que faliu durante a crise bancária espanhola.

Neste ano, o grupo Cohén também comprou um prédio em Salamanca que será transformado em uma dúzia de apartamentos de luxo. Entre outros investidores de Salamanca está Miguel Ángel Capriles, um parente do político Henrique Capriles, líder da oposição na Venezuela.

Em meio à crescente pressão internacional sobre Maduro, as autoridades espanholas vêm intensificando esforços para monitorar a entrada de dinheiro venezuelano. É uma tarefa difícil, segundo alguns advogados, pois os venezuelanos ricos sempre mantiveram seu dinheiro no exterior para escapar dos controles de capital e das flutuações monetárias.

"A Espanha tem a obrigação de controlar o influxo de dinheiro, mas os venezuelanos ricos aprenderam há muito que suas poupanças deveriam estar em moeda forte, de preferência em contas no exterior", disse Juan Carlos Gutiérrez, um advogado venezuelano que se mudou para Madri em dezembro passado.

Na verdade, a detenção mais famosa até hoje de um venezuelano na Espanha foi resultado de um mandado de prisão emitido pelo governo Maduro: em abril, a polícia espanhola deteve Claudia Patricia Díaz, uma ex-autoridade do Tesouro que também foi enfermeira de Hugo Chávez, o presidente venezuelano que morreu em 2013; e seu marido, um ex-chefe de segurança. As prisões fizeram parte de um caso de lavagem de dinheiro que incluiu uma investigação da compra pelo casal de um apartamento em Madri em 2015 por 1,8 milhão de euros (R$ 7,8 milhões).

Diante das ligações históricas da Espanha com a América Latina, muitos venezuelanos usaram seus antecedentes familiares para reivindicar um passaporte espanhol. Vários têm parentes que fugiram da Espanha em 1939, depois que o general Francisco Franco ganhou a guerra civil, enquanto outros aproveitaram um programa de cidadania para descendentes de judeus sefarditas expulsos do país em 1492.

Os venezuelanos também estão entre os principais solicitantes do programa espanhol de "vistos de ouro", que concede a residência a estrangeiros que comprem uma propriedade no valor de 500 mil euros (R$ 2,2 milhões) ou mais, medida instituída em 2013 para ajudar a reanimar a economia abalada pela crise.

"Madri está se tornando para os venezuelanos o que Miami já foi para nós e continua sendo para os cubanos", disse Seijas, da SNB Capital, que também dirige uma associação de investimentos e estima que cerca de 280 mil venezuelanos vivam na Espanha hoje, dos quais cerca de 120 mil adquiriram a cidadania espanhola.

Tomás Páez, um professor que estuda imigração na Universidade Central da Venezuela, disse que os venezuelanos hoje formam a comunidade estrangeira de mais rápido crescimento na Espanha, mais que duplicando sua presença nos últimos dois anos.

18.nov.2017 - Antonio Ledezma, líder opositor venezuelano, fala com jornalistas em sua chegada a aeroporto de Madri neste sábado - Juan Medina/Reuters - Juan Medina/Reuters
Antonio Ledezma fala com jornalistas em sua chegada a aeroporto de Madri
Imagem: Juan Medina/Reuters

Javier Cremades, um advogado espanhol e presidente da Cremades Calvo y Sotelo, disse que sua firma, sediada em Madri, representa cerca de 40 venezuelanos que solicitam o visto de ouro. Cremades também esteve na vanguarda das iniciativas espanholas para ajudar os adversários políticos de Maduro, como Antonio Ledezma, o ex-prefeito de Caracas, que fugiu para a Espanha em novembro.

Em julho, Ledezma estava entre uma associação que representa residentes venezuelanos em Madri que pediu ao novo governo socialista que conceda uma situação especial de asilo aos que fogem do regime de Maduro.

Por outro lado, membros da oposição venezuelana usaram as redes sociais para acompanhar na Espanha os "bolochicos", apelido pejorativo dado aos mais jovens herdeiros da República Bolivariana da Venezuela iniciada por Chávez, que se tornou presidente em 1999.

Ativistas de oposição postaram vídeos mostrando venezuelanos bem conectados desfrutando a boa vida em Madri. Eles dizem que seus alvos incluem parentes dos principais oficiais militares e autoridades do governo.

"Estamos falando de autoridades e suas famílias que moram na Espanha, mas cujos salários normalmente não permitiriam comprar um apartamento de 500 mil euros aqui", disse Cremades, o advogado.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves