PUBLICIDADE
Topo

Príncipe saudita promoveu campanha brutal para reprimir a dissensão

O hotel Ritz-Carlton, em Riad, foi o local escolhido pelo governo saudita para deter empresários e membros da família real - Tasneem Alsultan/The New York Times
O hotel Ritz-Carlton, em Riad, foi o local escolhido pelo governo saudita para deter empresários e membros da família real Imagem: Tasneem Alsultan/The New York Times

Mark Mazzetti e Ben Hubbard

Em Washington (EUA)

19/03/2019 00h01

O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, autorizou uma campanha secreta para silenciar os dissidentes, que incluiu vigilância, sequestro, detenção e tortura de cidadãos sauditas, mais de um ano antes da morte de Jamal Khashoggi, segundo autoridades americanas que leram os relatórios confidenciais da inteligência a respeito da campanha.

Ao menos algumas das missões clandestinas foram executadas por membros da mesma equipe que matou e desmembrou Khashoggi em Istambul, em outubro, sugerindo que a morte dele foi uma parte particularmente notória de uma campanha maior para silenciar os dissidentes sauditas, segundo autoridades e associados de algumas das vítimas.

Membros da equipe que matou Khashoggi, que as autoridades americanas chamaram de Grupo Saudita de Intervenção Rápida, estiveram envolvidos em pelo menos uma dúzia de operações desde 2017, disseram as autoridades.

Algumas das operações envolveram repatriação à força de sauditas em outros países árabes e a detenção e abuso de prisioneiros em palácios pertencentes ao príncipe herdeiro e seu pai, o rei Salman, disseram autoridades e associados.

Um dos sauditas detidos pelo grupo, uma professora universitária de linguística que escrevia um blog sobre mulheres na Arábia Saudita, tentou se matar no ano passado após ser submetida a tortura psicológica, segundo relatórios da inteligência americana e outras pessoas informadas sobre a situação dela.

A equipe de intervenção rápida esteve tão ocupada que, em junho do ano passado, seu líder perguntou a um importante assessor do príncipe herdeiro Mohammed se ele daria à equipe bônus para o Eid al-Fitr, o feriado que marca o fim do Ramadã, segundo autoridades americanas familiarizadas com os relatórios da inteligência.

Detalhes sobre as operações vieram de autoridades americanas que leram os relatórios confidenciais de inteligência sobre a campanha saudita, assim como de sauditas com conhecimento direto de algumas das operações. Eles falaram sob a condição de anonimato por temerem repercussões devido à revelação de informação confidencial ou, no caso dos sauditas, por temerem a fúria do governo local.

Um porta-voz da embaixada saudita em Washington disse que o reino "trata de forma muito séria quaisquer alegações de maus-tratos de réus aguardando julgamento ou de presos cumprindo suas penas".

A lei saudita proíbe tortura e responsabiliza os envolvidos em tais abusos de poder, disse o porta-voz, assim como os juízes não podem aceitar confissões obtidas sob coação. O procurador-geral do reino e a Comissão Saudita de Direitos Humanos estão investigando as "recentes alegações", ele disse.

O governo saudita insiste que a morte de Khashoggi, um jornalista dissidente que vivia nos Estados Unidos e escrevia para o jornal "The Washington Post", não foi um assassinato ordenado por Riad. A decisão de matá-lo foi tomada pela equipe no local, disseram autoridades do governo, e os responsáveis estão sendo processados. Agências de inteligência turcas e americanas dizem que o assassinato foi premeditado.

O reino diz que 11 sauditas foram indiciados pelo assassinato e que os promotores estão pedindo pena de morte para cinco deles, mas as autoridades não identificaram publicamente os acusados.

Após o assassinato de Khashoggi, as autoridades sauditas reconheceram que o serviço de inteligência saudita tinha ordens de trazer os dissidentes de volta para casa. O que não reconheceram é que uma equipe específica foi formada para isso.

As autoridades sauditas se recusaram a confirmar ou negar a existência de tal equipe, ou responder perguntas sobre seu trabalho.

A Arábia Saudita tem um histórico de caçar dissidentes e outros cidadãos sauditas no exterior, mas a repressão teve uma forte escalada após Mohammed bin Salman ter ascendido a príncipe herdeiro em 2017, um período em que ele agiu rapidamente para consolidar seu poder. Ele afastou o príncipe Mohammed bin Nayef, que supervisionava os serviços de segurança, dando ao jovem príncipe domínio sobre as agências de inteligência.

Começa julgamento de suspeitos envolvidos na morte de Jamal Khashoggi

Band News

De lá para cá, as forças de segurança sauditas detiveram dezenas de clérigos, intelectuais e ativistas que eram vistos como uma ameaça, assim como pessoas que postaram comentários críticos ou sarcásticos a respeito do governo pelo Twitter.

"Nunca vimos isso em uma escala como essa", disse Bruce Riedel, um ex-analista da CIA (Agência Central de Inteligência) que agora está na Instituição Brookings. "No passado, um dissidente como Jamal Khashoggi não seria considerado digno do esforço."

O Grupo Saudita de Intervenção Rápida foi autorizado pelo príncipe herdeiro Mohammed e era supervisionado por Saud al-Qahtani, um assessor sênior cuja função oficial é de czar da mídia na corte real, disseram autoridades americanas. Seu vice, Maher Abdulaziz Mutreb, um oficial da inteligência que viajava para o exterior com o príncipe herdeiro, liderou a equipe em campo.

Outro agente da equipe era Thaar Ghaleb al-Harbi, um membro da guarda real que foi promovido em 2017 por mérito após um ataque a um palácio do príncipe herdeiro Mohammed.

Mutreb e Al-Harbi estão sendo julgados em Road por acusações ligadas à morte de Khashoggi, disse uma autoridade saudita, enquanto Qahtani está sob prisão domiciliar, proibido de viajar e sob investigação, o que não deixa claro se a equipe ainda está em atividade.

Relatórios da inteligência americana não especificam o quão envolvido o príncipe herdeiro Mohammed esteve no trabalho do grupo, mas disseram que os agentes viam Al-Qahtani como uma "ligação" com o príncipe.

Quando o príncipe herdeiro Mohammed prendeu centenas de príncipes, empresários e ex-autoridades no Ritz-Carlton de Riad em 2017, por acusações de corrupção, Al-Qahtani e Mutreb trabalharam no hotel, ajudando a pressionar os detidos a entregarem seus ativos, segundo associados dos detidos que os viram.

Muitos dos detidos no Ritz foram submetidos a abusos físicos, e um morreu sob custódia, segundo testemunhas. Não se sabe se membros da equipe de intervenção rápida estiveram envolvidos no abuso. O governo saudita negou que qualquer abuso físico tenha ocorrido ali.

Mas foi apenas após a morte de Khashoggi que a extensão do trabalho da equipe começou a vir à tona. Mutreb e Al-Harbi estavam ambos no consulado quando Khashoggi foi morto, segundo autoridades turcas. A inteligência americana a respeito das operações anteriores da equipe levou à avaliação pela CIA, em novembro, de que o príncipe herdeiro Mohammed ordenou a morte de Khashoggi, disseram autoridades americanas.

A CIA se recusou a comentar.

As agências de inteligência americanas não parecem ter provas conclusivas de que o príncipe herdeiro ordenou a morte, mas montaram um padrão de operações semelhantes executadas por agentes sauditas sob autoridade do príncipe.

As agências continuaram reunindo evidências sobre o papel do príncipe herdeiro Mohammed nas operações, e, em dezembro, a Agência de Segurança Nacional produziu um relatório dizendo que, em 2017, o príncipe disse a um alto assessor que faria uso de "uma bala" em Khashoggi caso ele não retornasse ao reino e encerrasse suas críticas ao governo.

Analistas da inteligência concluíram que o príncipe herdeiro Mohammed pode não ter falado literalmente, que não estava ordenando que Khashoggi fosse baleado, mas que pretendia silenciar o jornalista o matando caso as circunstâncias exigissem isso.

O Grupo Saudita de Intervenção Rápida também parece estar envolvido na detenção e abuso de uma dúzia de ativistas de direitos da mulher, que foram detidas no ano passado. As ativistas, que faziam campanha pelo fim da proibição a mulheres conduzirem veículos no reino, incluíam várias figuras conhecidas: Loujain al-Hathloul, que foi presa por tentar dirigir seu carro dos Emirados Árabes Unidos para o reino; Aziza al-Yousef, uma professora aposentada de ciência da computação; e Eman al-Nafjan, a professora de linguística.

No início, as mulheres não foram mantidas em uma prisão, mas foram detidas informalmente no que parecia ser um palácio não utilizado na cidade portuária de Jidda, no Mar Vermelho, segundo a irmã de Al-Hathloul, Alia. Cada mulher foi presa em um pequeno quarto e as janelas foram cobertas. Algumas das mulheres eram frequentemente levadas para baixo para interrogatório, que incluía surras, choques elétricos, simulação de afogamento e ameaças de estupro e morte.

Em um artigo de opinião para o "New York Times", Alia al-Hathloul escreveu que Al-Qahtani estava "presente várias vezes" quando sua irmã foi torturada, e que ele ameaçou matá-la e jogar seu corpo no esgoto.

O tratamento foi tão duro que Al-Nafjan tentou cometer suicídio, segundo um levantamento da inteligência americana.

As mulheres foram posteriormente transferidas para o presídio Dhahban, em Jidda, onde os abusos físicos pararam e seus parentes foram autorizados a visitá-las, disse Al-Hathloul.

O julgamento delas teve início em Riad na quarta-feira (13), mas a presença de jornalistas e diplomatas não foi autorizada, assim como o governo não anunciou quais eram as acusações contra elas.

A autoridade saudita disse que Al-Hathloul, Al-Yousef e Al-Nafjan estavam sendo julgadas "por ligação com atividades que ameaçavam a segurança nacional do reino".

Tradutor: George El Khouri Andolfato