Opinião: Jovens buscam na internet o reforço de suas crenças e seus medos

Mohammed Hanif*

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Para a maioria dos jovens que nunca conheceram ninguém de uma raça ou religião diferente, entrar na internet confirma seus piores temores sobre o mundo.

Mês passado testemunhei a primeira interação de um garoto de 11 anos com a internet. Meu sobrinho sabia o que era a internet, mas ele nunca tinha tido a oportunidade de usá-la. (o acesso à internet no Paquistão ainda é bastante restrito). Perguntei o que ele queria pesquisar, e ele respondeu: o Triângulo das Bermudas. Por que exatamente ele estaria interessado no Triângulo das Bermudas? Porque era onde Dajjal, nossa versão do Anticristo, vivia agora. Pensei que as coisas não haviam mudado muito, uma vez que quando eu era adolescente devorava histórias sobre gênios astutos, monstros sem coração e lugares inóspitos.

Depois ele quis procurar cenas de anjos infligindo torturas a pecadores mortos. Não era possível que existissem tais coisas na internet, certo? Mas existem. Fiquei preocupado que os pais do garoto fossem me acusar de corrompê-lo, e tentei tirar o laptop dele. Só mais um, disse, e depois de barganhar sobre o que ele queria dizer com só mais um —só mais uma busca, não importa quantas ocorrências? Ou só mais uma página? —ele se contentou com um vídeo aterrorizante com um hino de guerra de fundo no qual soldados paquistaneses são vistos atirando contra o Taleban e resgatando crianças sequestradas.

Mas como meu sobrinho sabia sobre a residência do Dajjal e essas maldades além-túmulo? Porque ele havia ouvido sobre isso de amigos da escola. E quando chegou ao fim sua primeira volta pela internet, ele havia visto com os próprios olhos o que só havia ouvido como boato. Dajjal de fato vivia no Triângulo das Bermudas. Vimos mais de uma imagem sobre isso.

Crescer com mitos e lendas é uma parte essencial do amadurecimento em qualquer lugar, mas chega uma hora em que você espera superá-los e confrontar monstros de verdade, como quem você é e seu papel em tornar o mundo o que ele é. Inicialmente você acredita em um deus terrível. Depois você pensa que ele não é terrível o tempo todo e percebe que precisa encontrar seu próprio caminho na vida.

Mas hoje, antes que possam enfrentar o mundo real, as crianças entram na internet, um mundo de GIFs e vídeos desfocados de 15 segundos que eles acreditam ser a realidade, não importa o quão "photoshoppados" sejam, e isso reflete seus preconceitos sobre lugares distantes. Os hindus se importam mesmo mais com vacas do que com humanos? Com certeza. Os israelenses atiram em criancinhas? É só assistir a este vídeo. Podemos passar horas nos assegurando de que o Ocidente é imoral só de olhar todas as fotos de pessoas nuas que ele produz. Tenho certeza de que há vídeos mostrando essas pessoas sendo torturadas no além por usarem tão pouca roupa neste mundo.

Para a maioria dos jovens que nunca interagiram com ninguém que não seja de sua raça ou credo, uma visita à internet confirma seus piores temores sobre o mundo. Existem pessoas por aí que dizem coisas indescritíveis sobre sua religião e sobre seu profeta? Sim, há muitas. Existem países que querem aniquilar o seu? Você pode encontrar na internet mapas onde seu país nem existe. Os pagãos fazem sexo com animais? Sim, mas não vamos assistir a isso.

O ativismo político se torna fácil com a internet. Nossos corações paquistaneses sangram pelo povo da Caxemira que sofre nas mãos do Estado indiano, mas não pelos muitos balúchis que morreram ou desapareceram, vítimas de nosso próprio Estado. Milhares de trabalhadores paquistaneses estão passando fome na Arábia Saudita, mas ainda pagamos muitas rúpias para fazer peregrinações de luxo até a Terra Santa.

Louvamos mártires distantes, acendemos velas virtuais e pintamos nossos lábios de vermelho ou de preto por boas causas. Aplaudimos os protestos nas praças Tahrir e Taksim. Mas raramente notamos as pessoas que marcham pelas nossas ruas pedindo por salários mais justos. Por que é tão difícil ver que nosso próprio Estado age como uma potência colonial ou associar o Black Lives Matter com nosso próprio racismo? Enquanto surfamos pela internet procurando pelo mal nos outros, por que não conseguimos vê-lo em nós mesmos? Pode parecer que estamos cruzando continentes e somando à causa de desconhecidos, mas estamos em grande parte procurando uma irmandade global que compartilhe de nossas visões.

Enquanto conduzia o garoto por sua primeira incursão internet adentro, senti o horror de um homem de meia-idade indignado com os apetites do jovem. Então me lembrei da vez em que eu tinha a idade dele e desligaram a TV, bem no meio de meu primeiro filme de suspense. Naquele momento, percebi que o mundo era fundamentalmente injusto. Depois de sair de casa aos 15 anos de idade, passei alguns anos assistindo todo o lixo que conseguia para compensar por minhas privações iniciais.

Mas então a vida me fez tirar a bunda da cadeira e ir para lugares estranhos e tentar pedir por informações a pessoas cujo idioma eu não entendia. Conhecer pessoas com deuses ou hábitos alimentares diferentes dos meus me fez enfrentar meus preconceitos e perceber meus privilégios. Temo que quando as crianças que estão crescendo online hoje em dia saírem para o mundo real, elas nunca vão parar para perguntar nada a um estranho, por acharem que já sabem todas as respostas.

*Mohammed Hanif é autor dos romances "A Case of Exploding Mangoes" e "Our Lady of Alice Bhatti," e libretista para a ópera "Bhutto.

Tradutor: UOL

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