Partido Conservador do Canadá já tem dois aspirantes a Trump

Chris Berube

  • Mark Davis/Getty Images e Chris Wattie/Reuters

Desde a eleição do premiê Justin Trudeau, muitos americanos começaram a descrever o Canadá como uma utopia progressista e acolhedora. O primeiro-ministro recebe os refugiados no aeroporto! Há mulheres no Gabinete! Lendo o noticiário americano, o Canadá fica parecendo um santuário de esquerda, cujo temperamento sensato o torna imune à marcha do populismo conservador global.

Mas no momento, dois candidatos que estão concorrendo para liderar o Partido Conservador canadense estão explorando suas credenciais trumpistas. Um é um bombástico empresário de reality show sem nenhuma experiência em governo. O outro é uma ex-integrante divisora do gabinete, fazendo uso da imigração como seu tema principal. Ambos têm uma chance real de vencer.

Vamos começar pelo empresário, Kevin O'Leary. À primeira vista, ele parece ter modelado toda sua carreira em Donald Trump. Ele é uma máquina de marcas com opiniões ruidosas, que usa um reality show na TV para promover seus negócios. O público americano (e brasileiro) conhece O'Leary pelo programa "Shark Tank" (exibido no Brasil no Canal Sony), um reality show onde inventores e sonhadores se apresentam a capitalistas de risco para terem seus sonhos validados ou arrasados.

Mas apesar de o programa ter levado O'Leary para o outro lado da fronteira em 2009, ele mantém um pé na política canadense. Ele frequentemente ataca autoridades liberais pelo Twitter. No ano passado, ele ofereceu investir US$ 1 milhão na província de Alberta, mas apenas se a primeira-ministra de esquerda da província, Rachel Notley, renunciasse. Ele tuita críticas a Trudeau e aproveita todas as oportunidades para condenar os altos impostos na província de Ontário, governada pelos liberais, onde ele declara residência. (Apesar de, como apontou o repórter Sean Craig do "National Post", seu perfil no LinkedIn o apontar em Boston até a semana passada.)

Apesar de O'Leary ser um astro de reality show razoavelmente bem conhecido nos Estados Unidos, seu perfil no Canadá é imenso. A "CBC", a emissora pública do Canadá e minha antiga empregadora, deu a O'Leary renome nacional. Ele foi um integrante do precursor canadense do "Shark Tank", chamado "Dragon's Den", e foi apresentador de um show de negócios, ao estilo "Crossfire", chamado "The Lang and O'Leary Exchange". O segmento mais famoso daquele programa foi uma discussão irritada com o jornalista ganhador do prêmio Pulitzer, Chris Hedges, a quem O'Leary acusou de soar como um "maluco" devido ao seu apoio ao movimento Ocupe Wall Street. Na mesma entrevista, O'Leary usou uma linguagem trumpista para descrever o Ocupe como um grupo de indivíduos "muito fracos e sem dinheiro". Assim como os tweets de Trump, as aparições de O'Leary na "CBC" são uma mina de ouro para pesquisadores de oposição que tentam pintá-lo como extremista. Ele já pediu pela proibição de sindicatos e disse que a desigualdade global é uma coisa positiva, já que incentiva os pobres a trabalharem mais arduamente. Ele já voltou atrás nessas declarações, as chamando de "ótima televisão", mas não práticas como base para políticas públicas.

A candidata menos chamativa é Kellie Leitch, uma ex-cirurgiã ortopédica pediátrica que entrou na política em 2011. Leitch serviu no Gabinete de Harper como ministra do Trabalho e da Condição da Mulher, a ganhou proeminência na eleição de 2015, quando se tornou a face pública da promessa de campanha dos conservadores de criação de uma "linha para denúncia de práticas culturais bárbaras". O telefone daria aos canadenses uma linha direta para denunciar crimes como casamentos forçados e mutilação genital feminina. O telefone foi ridicularizado por muitos como um apito de cachorro com pouco efeito prático, já que essas práticas já são consideradas crimes federais. Os conservadores acabaram perdendo a eleição para Trudeau e os liberais, e vários conservadores culparam a linha direta por desviar demais a atenção.

'O'Leary e Leitch enfrentam uma luta colina acima, mas a ascensão deles à liderança não é impossível'

Em uma entrevista antes do anúncio de sua candidatura à liderança, Leitch conteve as lágrimas e expressou pesar por seu envolvimento na defesa da linha direta. Mas de lá para cá, Leitch disse que lamenta a forma como a linha direta foi anunciada, não a política em si. Até o momento, sua campanha pela liderança se concentra na política de identidade e no fantasma da imigração. Sua principal promessa é um "teste de valores canadenses" para os novos imigrantes e refugiados que entram no país, além do teste regular de cidadania.

Então, qual é a probabilidade de O'Leary ou Leitch de fato assumirem a liderança do partido? Até o momento não há muitas pesquisas sobre a disputa, e com 14 candidatos concorrendo, ninguém despontou como favorito. A primeira pesquisa desde o lançamento da candidatura de O'Leary o apontou com 27%, atrás de "outra pessoa" com 38%. (Ele está com 31% das intenções de voto entre os membros registrados do partido.) Ao longo do ano passado, Leitch se manteve consistentemente entre os principais candidatos, com algumas pesquisas lhe atribuindo 9% das intenções de voto, outras com 19%. Mas a candidatura de O'Leary roubou parte de seu apoio, com apenas 2% dos canadenses a escolhendo em uma pesquisa realizada nesta semana.

Há bons motivos para acreditar que nenhum deles vencerá. Cada candidato apresenta falhas sérias. O'Leary não fala francês. E a disputa pela liderança do Partido Conservador busca dar prioridade igual a cada distrito eleitoral. Isso significa que os distritos muito conservadores em Alberta têm o mesmo peso que os de Quebec que contam com menos membros do partido. Isso é um grande problema para O'Leary, já que um quinto dos distritos eleitorais canadenses é de maioria francófona. Apesar de ser possível um candidato que fala apenas uma língua vencer sem os eleitores franco-canadenses, isso nunca aconteceu antes, e os líderes conservadores que não falam bem francês tradicionalmente enfrentam dificuldades. O'Leary está apostando que os cidadãos jovens e bilíngues de Quebec vejam a política de línguas como sendo menos relevante que a de empregos, mas muito poucos jovens bilíngues são eleitores do Partido Conservador para começar.

Quanto a Leitch, a mais recente pesquisa sugere que sua candidatura está em declínio. E por já ter sido ministra, ela tem mais dificuldade em alegar que é uma forasteira anti-Ottawa. Durante um recente encontro com simpatizantes, alguém lhe fez uma pergunta cética sobre seu plano de revogar a Lei Indígena. Leitch respondeu que seu plano foi bem pensado, notando: "Por favor, entenda que eu tenho 22 títulos. Não sou idiota".

A gafe (se gabar de seus diplomas acadêmicos e títulos honorários como credencial intelectual) deu o que falar, em parte porque Leitch tem apenas 16 títulos, pelo menos no site parlamentar. (Ela agora alega ter 18.) Mais importante, uma defesa construída em torno de quantas distinções e títulos universitários Leitch obteve provavelmente não funcionará junto aos eleitores de classe trabalhadora.

E então há o maior problema para ambos: Justin Trudeau. Apesar de sua popularidade ter caído nos últimos meses, seu índice de aprovação ainda é de razoavelmente altos 48% e o Partido Liberal conta com uma vantagem grande o suficiente em grande parte das pesquisas para formar um governo de maioria. Qualquer coisa pode acontecer nos próximos dois anos e meio (Trudeau está enfrentando um escândalo de pagamento por acesso envolvendo levantamento de fundos para o partido), mas a lua de mel de Trudeau foi incomumente longa, assim como prossegue sua campanha sem fim.

Em outras palavras, O'Leary e Leitch enfrentam uma luta colina acima, mas a ascensão deles à liderança não é impossível. A maioria dos eleitores na verdade gosta da ideia de Leitch de teste de valores, e O'Leary faz questão de mostrar que está fazendo aulas de francês. A verdadeira força deles como candidatos só ficará clara quando o campo começar a estreitar. Enquanto isso, eles continuarão ganhando manchetes, enquanto candidatos mais moderados permanecerão no banco de trás. Independente do que aconteça, esta disputa testará uma suposição bastante canadense: a de que excesso ruidoso e nativismo não têm lugar em nossa vida política.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos