Como Frankenstein me ajuda a pensar em minha pesquisa genética de ponta

Kevin M. Esvelt

  • Luis Robayo/AFP/Getty Images

    25.jan.2016 - Mosquito Aedes aegypti é fotografado sobre a pele humano em laboratório do International Training and Medical Research Training Center, em Cali, na Colômbia

    25.jan.2016 - Mosquito Aedes aegypti é fotografado sobre a pele humano em laboratório do International Training and Medical Research Training Center, em Cali, na Colômbia

Parece banal declarar que o futuro de nossa civilização será determinado pelas tecnologias que inventarmos e pela sabedoria com que as usarmos. Essa banalidade pode explicar por que dedicamos coletivamente tão pouco tempo a nos preocuparmos sobre como melhor procedermos. A literatura oferece muitas histórias de alerta, mas é raro fazermos uma pausa para reavaliá-las sob a luz das capacidades modernas.

No início de "Frankenstein" de Mary Shelley, talvez o primeiro romance de ficção científica, Victor Frankenstein faz um alerta pessoal:

"Aprenda comigo, se não por meus preceitos, ao menos por meu exemplo, sobre quão perigosa é a aquisição de conhecimento e quão mais feliz é o homem que acredita que sua aldeia é o mundo inteiro, do que aquele que aspira ser maior do que sua natureza permite."

Somos afortunados além da medida por tantos grandes cientistas ignorarem esse conselho. De vacinas e antibióticos a comida e energia abundantes, os avanços tecnológicos libertaram grande parte da humanidade do pior das doenças e necessidades. Nossos ganhos podem ser frágeis, exigindo uma dieta constante de novas descobertas para serem mantidos, mas são reais e merecem celebração.

Mas é arrogância presumir que os triunfos do passado garantem qualquer medida de sucesso no futuro. Como um cientista pesquisador trabalhando em uma nova abordagem controversa para engenharia ecológica, eu reli recentemente "Frankenstein" e fiquei surpreso com sua profundidade.

Longe da caracterização popular do "cientista interfere na vida, resultando em tragédia", Victor Frankenstein é um ser humano profundo, porém falho, cujos erros são relevantes para os pesquisadores atuais. Independente de ter sido ou não a intenção de Shelley, a mensagem do romance é clara: sabedoria é saber se, quando e como desenvolver novas tecnologias, e quando guardá-las pelo máximo de tempo que pudermos.

Em 2013, após ajudar a desenvolver o CRISPR, um bisturi molecular para cortar precisamente e editar qualquer sequência de DNA, eu percebi que poderíamos usá-lo para construir sistemas de genética dirigida para alterar características de populações silvestres. É assim que funciona: em vez de usar o CRISPR como ferramenta para editar o DNA uma vez, podemos programar o genoma do organismo para realizar a edição por conta própria, então deixá-lo procriar com um par silvestre.

Na prole, o CRISPR converterá a sequência original de DNA herdada do pai silvestre em uma nova versão editada. Com duas cópias, a geração seguinte certamente herdará a edição, assim como a próxima, a próxima e a próxima. Pense nisso como um "localizar e substituir" para todas as populações silvestres. As implicações poderiam ser profundas: como Austin Burt, do Imperial College London previu há mais de uma década, aprender a explorar a genética dirigida poderia nos permitir impedir mosquitos de transmitirem a malária.

Nenhuma prosa pode fazer justiça à simples elação da descoberta, apesar de Shelley ter feito uma tentativa digna. Como Victor Frankenstein relata: "Eu pisei no céu em meus pensamentos, agora exultante em meus poderes, agora queimando com a ideia de seus efeitos".

Essa foi minha experiência quando percebi as implicações de unir o CRISPR com a genética dirigida para criação de uma ferramenta que poderia ajudar a erradicar doenças, salvar espécies ameaçadas e reduzir a necessidade de pesticidas, uma forma de resolver problemas ecológicos com biologia, não tratores.

Mas a emoção da invenção pode se transformar em um canto de sereia. Como disse famosamente Robert Oppenheimer: "Quando você vê algo tecnicamente doce, você vai em frente e faz, e discute o que fazer a respeito apenas após obter seu sucesso técnico. Foi assim que aconteceu com a bomba atômica".

Não precisa ser assim.

A maioria das tecnologias exige recursos substanciais para serem aplicadas e terem impacto no mundo; pense no motor a vapor, eletricidade e vacinas. As poucas que não, como programas de computador, ainda costumam exigir adoção voluntária por muitas outras pessoas. Essas restrições dão normalmente aos indivíduos uma oportunidade de escolherem seletivamente não participar, como fazem os amish, e de modo mais amplo proporcionam à sociedade uma chance de considerar as ramificações.

Mas no caso da genética dirigida baseada no CRISPR, qualquer pessoa com o treinamento certo poderia alterar ecossistemas inteiros a manes que sua criação seja ativamente combatida e removida. No pior cenário, um sistema de genética dirigida "global" sem oposição poderia ser disseminado por toda a população de uma espécie específica no mundo, potencialmente afetando inúmeras pessoas sem seu consentimento.

Apesar de que a maioria das mudanças genéticas poderia não causar nenhum efeito ecológico, não poderíamos saber ao certo sem testá-las em áreas pequenas (isto e, sem um genética dirigida global), e indivíduos agindo por conta própria não realizariam esses testes. Imagine se uma pessoa (mesmo bem intencionada) na, digamos, Nova Zelândia, promovesse um trabalho global de genética dirigida visando reduzir ou remover uma população invasora de ratos, ao lhes causar infertilidade.

Mesmo se funcionasse bem, possivelmente salvando muitas espécies ameaçadas, o resultado não se restringiria àquela área. Ele poderia se disseminar (ou ser disseminado) por avião ou navio para a Eurásia e provavelmente provocaria um colapso das populações nativas de ratos ali, com sequências ecológicas desconhecidas. (Esse é o principal motivo para os pesquisadores de genética dirigida enfatizarem as salva-guardas de laboratório, e também o motivo para meu grupo estar trabalhando no desenvolvimento de um sistema baseado no CRISPR que esgota seu combustível genético e então para.)


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'Arrogância tecnológica é ignorar as sugestões dos outros, mesmo que apenas ao negligenciar informá-los com antecedência'
 

Felizmente, poucas pessoas possuem a perícia e conhecimento necessários para inserir genes em organismos que se reproduzem sexualmente, e a grande maioria delas trabalha com moscas de frutas, longe de ser uma espécie importante. Após três anos avaliando os riscos potenciais, minha melhor avaliação atual é que a genética dirigida dificilmente representará uma ameaça de biossegurança, ou mesmo um grande risco ecológico. Colocando de forma simples, os sistemas de genética dirigida se disseminam lentamente, podem ser detectados de forma barata e infalível, e podem ser facilmente corrigidos e enfrentados.


Mas também seria arrogância presumir que essas sejam as únicas preocupações. Se alguém colocasse unilateralmente um processo como esse em ação, capaz de alterar toda uma espécie silvestre, mesmo se não funcionasse bem ou não tivesse efeitos mensuráveis, as consequências para a confiança pública em cientistas e governança seriam devastadoras, talvez o suficiente para minar a pesquisa que nossa civilização necessita desesperadamente.

É importante notar, entretanto, que há uma grande diferença entre genética dirigida e a história de ficção de Mary Shelley: Victor Frankenstein não pediu conselho a ninguém.

Muitos dos meus colegas e mentores, particularmente George Church, Kenneth Oye, Jeantine Lunshof e James P. Collins, trabalharam comigo e outros na avaliação da genética dirigida e suas consequências potenciais. Juntamente com vários outros especialistas de diversos campos, incluindo representantes de organizações ambientais, nós discutimos as implicações, riscos, benefícios, concluindo no final que não apenas era seguro contar ao mundo sobre nossa descoberta, como eticamente necessário fazê-lo antes que alguém a testasse em laboratório.

Se dependesse apenas do meu julgamento, as coisas poderiam ter ocorrido tão mal quanto na ficção.

Até mesmo a ficção poderia ter sido pior. Caso Victor Frankenstein tivesse criado uma companheira fértil para sua criatura, isso certamente representaria uma ameaça existencial para a humanidade, com certeza o primeiro exemplo tecnológico do gênero na literatura. Caso tivesse compartilhado o segredo com outros, com certeza outra pessoa teria feito algo equivalente. (Quando perguntado sobre "os detalhes particulares da formação de sua criatura", a resposta de Victor é, "Está louco, meu amigo?")

Mas com essa mesma tecnologia, a humanidade também poderia ter abolido doenças e envelhecimento, fome e miséria, talvez nos tornando invulneráveis a esse tipo de risco existencial. É evidente que o inventor fictício não pensou nisso. E mesmo se tivesse, sua avaliação solitária dos riscos e benefícios não seria tão precisa como se tivesse consultado um grupo diverso.

Arrogância tecnológica é ignorar as sugestões dos outros, mesmo que apenas ao negligenciar informá-los com antecedência. Ela é mais comum entre aqueles que sofrem da maldição do conhecimento: os cientistas.

Esse é o motivo para meus colegas e eu buscarmos assegurar que toda a pesquisa de genética dirigida ocorra abertamente à luz do dia. As pessoas merecem opinar em decisões que podem afetá-las e o desenvolvimento de sistemas de genética dirigida por trás de portas fechadas lhes nega essa oportunidade. Mesmo fora o risco moral, manter em segredo planos de pesquisa, como os atuais empreendimentos científicos nos incentivam a fazer, é terrivelmente ineficiente e perigoso.

Isso não apenas retarda o ritmo dos avanços, colocando em risco nossa habilidade de sustentar nossa civilização, como praticamente convida o risco de catástrofe global. Ninguém, seja uma autora de ficção científica ou o próprio Austin Burt, previu uma forma de genética dirigida tão versátil como a permitida teoricamente pelo CRISPR. O que mais não previmos que poderia ser realmente perigoso? E diante dessa possibilidade, por que raios enviarmos nossas pequenas equipes de ultraespecialistas, a maioria trabalhando por conta própria e em segredo, para descobrir e abrir todas as caixas tecnológicas que puderem?

É melhor tornar padrão a abertura dos planos de pesquisa, permitindo que diversas equipes avaliem os novos avanços, implementem medidas para conter e impedir qualquer coisa considerada realmente perigosa, do que seguir em frente às cegas.

É claro, qualquer reestruturação por atacado do empreendimento científico também seria um ato de arrogância temerária. Minha regra pessoal para engenharia ecológica: comece de forma local e aumente apenas se justificado. Neste caso, o melhor "teste local" é o campo da pesquisa de genética dirigida. Revistas científicas, financiadores, autores de políticas e detentores de propriedade intelectual deveriam mudar os incentivos para assegurar que todos os experimentos de genética dirigida sejam abertos e responsáveis.

A mensagem da ficção e da realidade é clara: os cientistas devem se considerar moralmente responsáveis por todas as consequências de seu trabalho. O mínimo que devemos fazer é reunir humildade suficiente e pedir ajuda.

Este artigo integra a parte Frankenstein da Futurografia, uma série na qual a Future Tense apresenta aos leitores as tecnologias que definirão o amanhã. Todo mês, nós escolheremos uma nova tecnologia para apresentá-la. Future Tense é uma colaboração entre a Universidade Estadual do Arizona, a organização New America e a revista "Slate".

 

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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