Crise do Qatar mostra que os EUA não podem se dar ao luxo de uma instabilidade no Golfo Pérsico

Ilan Goldenberg

  • Fayez Nureldine/ AFP

    Homem passa diante de anúncio da Qatar Airways em Riad, na Arábia Saudita

    Homem passa diante de anúncio da Qatar Airways em Riad, na Arábia Saudita

O anúncio feito no domingo à noite por Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos e Bahrein de que cortariam relações diplomáticas e fechariam fronteiras e o espaço aéreo para o Qatar foi o ápice de uma rixa antiga entre os Estados do Golfo.

A surpreendente escalada de tensões latentes representa um embaraçoso revés —e um tremendo novo desafio— para o presidente Trump, que esteve na região há duas semanas proclamando um sucesso sem precedentes na união do mundo árabe tanto contra o extremismo sunita quanto contra a ingerência iraniana.

Durante muito tempo o Qatar foi a ovelha negra do Conselho de Cooperação do Golfo. Com o início dos protestos em todo o mundo árabe em 2011, os qatarianos apoiaram movimentos afiliados à Irmandade Muçulmana, enquanto os árabes e os sauditas os viam como uma grande ameaça à estabilidade regional.

No Egito, o Qatar apoiava o governo eleito de Mohammed Mursi da Irmandade Muçulmana enquanto os demais Estados do Golfo apoiavam o general Abdel-Fattah el-Sissi, que derrubou a Irmandade e iniciou uma ampla repressão contra ela. Na Síria, o Qatar enviou, irresponsavelmente, armas e dinheiro para a guerra civil com pouco escrutínio das forças de oposição, levando à ascensão de uma oposição extremista.

Os sauditas e os qatarianos também entraram em conflito quanto ao Irã. A Arábia Saudita vê a República Islâmica do Irã como um inimigo implacável, enquanto os qatarianos sempre assumiram uma abordagem mais agnóstica, amplamente levados pelo fato de que eles compartilham um imenso campo de gás com o Irã. E, apesar de seu pequeno tamanho, os qatarianos tentaram ter mais influência ao adotar todas essas políticas, uma abordagem que irritou seus vizinhos maiores.

Ainda assim, foi estranho o momento dessa ruptura. Os qatarianos se juntaram à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos na coalizão para a guerra no Iêmen, e as relações haviam melhorado nos últimos dois anos. O gatilho mais próximo parece ter sido o falso relato de um discurso incendiário feito pelo emir do Qatar, que foi divulgado pela mídia saudita e árabe.

Outros relatos indicaram que os Estados do Golfo estavam furiosos com o Qatar por pagamentos de resgate feitos a agentes da Al Qaeda e autoridades de segurança iranianos para conseguir a soltura de membros da família real qatariana que eram mantidos como reféns. Mas isso não explica por que, após anos de tensões, a Arábia Saudita e o Egito escolheram este momento para romper com o Qatar.

Outra possibilidade é que os sauditas e seus parceiros tenham se sentido encorajados pela visão de mundo anti-Irã e anti-Irmandade Muçulmana do governo Trump, que se alinha quase que inteiramente com suas perspectivas e bate de frente com o Qatar. Mas, no final, essa decisão parece ter a ver primeiramente com política regional, não com os Estados Unidos.

Para o governo Trump, isso representa um momento delicado. Há operações aéreas americanas contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria e contra a Al Qaeda no Afeganistão sendo coordenadas a partir da Base Aérea de Al-Udeid no Qatar, onde cerca de 10 mil tropas americanas estão estacionadas.

Os Estados Unidos têm outras grandes bases no Bahrein, onde a 5ª Frota da Marinha está estacionada, e nos Emirados Árabes Unidos, na Base Aérea de Al-Dhafra. As operações e o acesso não estão em risco. Mas se os Estados Unidos estão investindo tanto nesses três países, ele quer que eles cooperem, o que é algo muito difícil para eles com as relações diplomáticas cortadas.

Mais importante de tudo é o fato de que o governo Trump fez uma grande aposta ao alinhar o mundo árabe contra o extremismo sunita e o Irã. Autoridades do governo falaram sobre a possibilidade de uma Otan árabe, e a viagem do presidente para Riad, onde ele se encontrou com o emir do Qatar e o chamou publicamente de amigo, tinha a intenção de unificar países muçulmanos sunitas contra ameaças em comum.

Duas semanas depois veio o cisma político mais profundo que o Conselho de Cooperação do Golfo já vivenciou em décadas. Mas os sauditas, árabes e egípcios poderiam argumentar com razão que essa coalizão seria mais forte se o Qatar mudasse parte de seu comportamento problemático.

Nós já estamos vendo os possíveis efeitos. O Irã está tentando tirar vantagem ao sinalizar que se a Arábia Saudita cortar carregamentos de alimentos para o Qatar, ele tentará suplantá-los. No entanto, isso pode ser mais fala do que ação, uma vez que é difícil ver os iranianos sendo capazes de lançar uma operação como essa rapidamente. E, de fato, os Estados do Golfo estão contando com o fato de que seu apoio é insubstituível e forçará os qatarianos a mudarem suas políticas.

O Iraque emitiu um comunicado em apoio ao Qatar, o que coloca a Arábia Saudita e o Iraque —dois parceiros-chave na luta contra o Estado Islâmico— em oposição. Em vez de um mundo árabe unificado enfrentando desafios parecidos, parece que estamos vendo exatamente o contrário.

Para o governo Trump, o desafio será navegar por esse cenário complexo e evitar uma crise que poderia minar grandes prioridades presidenciais. Para fazer isso será necessário ter uma abordagem de governança diferente do que a equipe Trump tem demonstrado até o momento.

Esse é exatamente o tipo de questão onde líderes de alto escalão do governo precisam acionar a equipe de profissionais. As questões são complicadas e delicadas, e requerem pessoas que venham prestando atenção aos detalhes nos últimos anos. Essas pessoas existem e estão sentadas em Doha e em Riad escrevendo freneticamente telegramas com análises ponderadas e informativas. Será que alguém em Washington escutará?

Até o momento, Jared Kushner tem sido o braço direito de Trump para lidar com os Estados do Golfo sem procurar grande apoio de especialistas. Será que ele tentará navegar sozinho pelo complexo mundo da política entre países árabes?

Enquanto isso, no Departamento de Estado, será que Rex Tillerson continuará dependendo quase que exclusivamente de dois assessores —Margaret Peterlin e Brian Hook— para todas suas informações? Ou será que ele de fato se envolverá com autoridades americanas na Arábia Saudita, no Qatar e na seção do Oriente Médio do Departamento de Estado para ouvir suas perspectivas?

Esse poderia ser outro grande teste para a equipe de política externa do novo governo. Com base em sua atuação até o momento (a recusa do presidente Trump em afirmar o Artigo 5º, a saída do acordo climático de Paris), há poucos motivos para ser otimista. Teremos de esperar para ver como ela lida com uma crise que desta vez não foi autoinduzida, mas que ainda assim poderia ter repercussões profundas.

Tradutor: UOL

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