Estudantes de Hong Kong que protestaram contra o governo agora querem fazer parte dele

Alan Wong

Em Hong Kong (China)

  • Kin Cheung/AP

    1º.jul.2015 - Milhares saíram às ruas de Hong Kong em protesto pela democracia plena e pedindo a renúncia dos líderes da cidade, controlados pelo governo chinês

    1º.jul.2015 - Milhares saíram às ruas de Hong Kong em protesto pela democracia plena e pedindo a renúncia dos líderes da cidade, controlados pelo governo chinês

Um grupo de jovens estudantes que pretende conseguir maior autonomia para Hong Kong está formando um partido político para participar das eleições locais este ano. A medida deverá irritar a liderança chinesa, que combate diversos movimentos separatistas em suas fronteiras.

"Queremos recuperar nosso futuro", disse Joshua Wong, líder do grupo Scholarism, que convocou os estudantes para manifestações que paralisaram ruas de vários bairros aqui em 2014, como parte de uma campanha pela reforma democrática conhecida como Movimento Guarda-Chuva.

Em aproximadamente uma década, disse Wong em uma entrevista na quarta-feira (17), o novo partido fará pressão por um referendo que permitirá que os eleitores de Hong Kong determinem se querem se separar da China depois de 2047, quando terminará a promessa chinesa de 50 anos de autonomia para a antiga colônia britânica e um governo sob o princípio de "um país, dois sistemas".

"Tenho certeza de que o Partido Comunista Chinês vai nos reprimir, mas isso não me preocupa", disse ele.

Oscar Lai e vários outros membros do grupo vão disputar a eleição legislativa no próximo outono [no hemisfério norte]. Wong, 19, ainda é muito jovem para se candidatar. Ele enviou um pedido de revisão judicial das leis eleitorais de Hong Kong, em outubro passado, para diminuir de 21 para 18 a idade mínima para os candidatos, embora seja pequena a perspectiva de modificar esse limite antes da eleição.

"Ninguém na atual legislatura levantou a questão do futuro de Hong Kong depois de 2047", disse Lai, um estudante de 21 anos. "Nós vamos trazer para a legislatura a mesma resistência firme que os manifestantes mostraram no Movimento Guarda-Chuva."

Ho-fung Hung, professor-associado de sociologia na Universidade Johns Hopkins, em Baltimore (EUA), disse que é uma questão de tempo para que as pessoas decepcionadas com o ritmo da democratização e com o fracasso do Movimento Guarda-Chuva em produzir mudanças comecem a questionar o futuro de Hong Kong após 2047.

"Entre os ativistas da geração mais jovem, há uma concepção cada vez mais ampla de que os democratas mais velhos falharam em Hong Kong", disse ele, "pois apoiaram seu retorno à China no início dos anos 1980, apesar de a maioria da população não aprovar, como mostraram muitas pesquisas de opinião na época".
"Cada vez mais eles exigem um novo começo para Hong Kong", disse Hung. "A questão de 2047 torna-se uma brecha para eles tentarem."

Se tiverem sucesso, Lai e seus aliados serão os mais jovens legisladores de Hong Kong. (A idade média dos integrantes atuais é superior a 50.) Ele disse que ainda não decidiram um nome para o partido e que não quiseram dar mais detalhes até que façam um anúncio formal, em meados de abril.

Grupos políticos dirigidos por estudantes, como o Scholarism, ganharam proeminência durante o Movimento Guarda-Chuva, que defendia a eleição livre do líder do governo de Hong Kong. Eles rivalizaram com os partidos estabelecidos tanto em popularidade quanto em reconhecimento, segundo pesquisas realizadas pela Universidade de Hong Kong.

A medida provavelmente irritará o governo chinês, que condenou alguns manifestantes em Hong Kong como "separatistas radicais" depois de uma feroz batalha de rua na semana passada no movimentado bairro comercial de Mong Kok, que deixou dezenas de manifestantes e mais de 80 policiais feridos.

"A China vai enfrentar um sério dilema sobre Hong Kong", disse Hung. "Se a China identificar uma grande ameaça de separatismo em Hong Kong e recorrer à repressão pesada, como fez no Tibete e em Xinjiang, a comunidade internacional certamente verá o fim do modelo 'um país, dois sistemas', e o papel de Hong Kong como centro financeiro offshore estará ameaçado."

O governo chinês não conseguiu conter a ascensão de um movimento separatista em Hong Kong com as leis de segurança que costuma usar contra dissidentes no continente, pois Hong Kong tem um sistema jurídico separado e uma legislatura própria. A primeira e única tentativa de introduzir tais leis em Hong Kong, em 2003, foi recebida com grandes protestos e esfriou depois que ficou claro que não havia um número suficiente de legisladores que a apoiavam.

Isso não quer dizer que Pequim permita que a secessão fermente à vontade em Hong Kong.

O Partido Comunista Chinês, sob a liderança de um presidente mais dedicado que nunca ao proselitismo, emitiu uma diretriz em janeiro pedindo novos esforços para promover o patriotismo entre os jovens de todo o país, incluindo Hong Kong, para manter a unidade nacional.

"Intensificar os esforços para educar jovens em Hong Kong, Macau e Taiwan sobre o patriotismo", diz o documento, emitido em janeiro pelo Ministério da Educação do partido, sob uma seção intitulada "Manter a unidade étnica e nacional, intensificar o reconhecimento do país".

Mas qualquer esforço para instigar o patriotismo nas escolas daqui poderia retroagir, como ocorreu em 2012 quando o governo tentou impor um currículo de "educação nacional" nas escolas que difundia visões favoráveis ao Partido Comunista Chinês. A tentativa foi cancelada depois de protestos liderados por Wong.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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