Cidadãos se mostram mais resilientes do que lideranças do Ocidente

Sylvie Kauffmann

Em Paris

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Por 18 terríveis meses, os franceses se mostraram notavelmente resilientes. Mais até que seus representantes.

Alguns dias antes do atentado terrorista no Dia da Bastilha em Nice, o presidente Obama estava na Polônia para a reunião de cúpula da Otan, com sua cabeça tanto em Dallas quanto em Varsóvia. Quando o ouvi durante sua coletiva de imprensa de encerramento, dia 9 de julho, chamou-me a atenção o tom triste, cansado e quase derrotista com o qual o líder da nação mais poderosa do mundo falou sobre as divisões dentro da sociedade americana, depois das mortes daquela semana. "Isso não é quem somos", ele insistiu, como se estivesse tentando convencer a si mesmo.

Quando ele falou em Dallas três dias depois, na cerimônia em homenagem aos policiais mortos a tiros, o presidente Obama parecia ter recuperado sua confiança. Mas, dois dias depois, no dia 14 de julho, me lembrei daquele breve momento quando ele baixou a guarda enquanto eu ouvia outro presidente, François Hollande, falar durante uma entrevista a uma TV francesa. Hollande disse que o estado de emergência em vigor desde os atentados terroristas de 13 de novembro seria em breve suspenso. Mas por mais otimista que ele quisesse soar, com uma eleição presidencial em vista em 10 meses, ele ainda parecia lúgubre no final. "Ser presidente", ele disse, "significa ter de encarar a morte e a tragédia."

Isso foi na hora do almoço no Dia da Bastilha. Às 3h da manhã, o presidente francês estava de volta à televisão, depois do massacre que matou 84 pessoas na encantadora Promenade des Anglais em Nice, para anunciar que o estado de emergência seria estendido, pela terceira vez. "A França é forte, mais forte que os fanáticos que querem atacá-la", ele disse. Seus adversários logo o ridicularizaram, ou por ele ter sugerido que o estado de emergência seria suspenso, ou por mantê-lo em vigor ainda que ele tenha se mostrado inútil em evitar o ataque em Nice.

Hoje, a França e os Estados Unidos são provavelmente os dois alvos principais do terrorismo islâmico no Ocidente. Na França, nosso governo alerta que devemos "aprender a viver com o terrorismo." Mas justamente quando elas precisam ser mais fortes, nossas sociedades parecem frágeis, tensas, perturbadas por fortes ares de revolta contra suas elites e uma ordem econômica que aprofundou as desigualdades. Conseguirão elas resistir ao choque?

Contrariando todas as expectativas nos últimos 18 meses --com três ondas sangrentas de ataques terroristas e incidentes terroristas esporádicos, greves, protestos violentos contra uma reforma da lei trabalhista, alto desemprego e enchentes--, os franceses se mostraram surpreendentemente resilientes. A pesquisa anual da Comissão Nacional Consultiva dos Direitos Humanos, realizada em janeiro, até mostrou um aumento na tolerância "apesar da postura de algumas figuras públicas". Enquanto a crise econômica de 2008 reduziu a tolerância, os ataques de 2015 produziram o efeito contrário, "levando a uma autorreflexão e a uma mobilização cívica" contra extremistas, de acordo com a comissão.

Da mesma maneira, a pesquisa sobre Atitudes Globais de 2016 do Pew Research Center descobriu que a França (o país da União Europeia com as maiores populações muçulmanas e judaicas) era a segunda nação europeia que mais valorizava a diversidade, só perdendo para a Espanha.

O campeonato europeu de futebol, sediado pela França logo antes do ataque de Nice, também inspirou intenso fervor no público francês por sua equipe nacional tão diversa; ele torceu pelo time até o fim, cantando empolgadamente a Marselhesa, mesmo depois de ter perdido o jogo final.

No entanto, algumas estatísticas do Ministério do Interior mostram um cenário diferente: o número de atos criminosos racistas subiu 22,4% em 2015. A razão para essa contradição, sugerem os especialistas da Comissão de Direitos Humanos, é que enquanto os indivíduos que cometem tais atos estão se tornando mais radicalizados, a sociedade como um todo está mais ciente dos perigos da polarização. Essa atitude transparece em um número crescente de iniciativas cívicas, e em resultados das eleições regionais de dezembro passado: depois de a Frente Nacional, de extrema direita, ter se saído muito bem no primeiro turno, os eleitores se uniram contra ela e evitaram que ela conquistasse uma região sequer no segundo turno.

É incerto se tais reações saudáveis prevalecerão após o massacre de Nice ou qualquer outro no futuro. Com uma considerável população de imigrantes do Norte da África e uma grande força local da Frente Nacional, a própria cidade de Nice é especialmente vulnerável.

A triste realidade é que pessoas de boa fé não são ajudadas por um establishment político bastante medíocre. Poderia haver uma unidade nacional na base, se pelo menos houvesse alguma no topo.

Isso voltou a se mostrar imediatamente depois do ataque do Dia da Bastilha. Enquanto cidadãos de todos os meios e cores se juntavam para prestar suas homenagens às vítimas na Promenade des Anglais, enquanto floristas de Nice se uniam para cobrir a avenida ensanguentada de flores com a nação ainda em choque, nossos políticos discutiam sobre se o governo poderia ter evitado mais essa atrocidade. Com a eleição presidencial de 2017 em vista, o rival e antecessor de Hollande, Nicolas Sarkozy, nem esperou pelo fim dos três dias de luto nacional para disparar um ataque feroz contra o que ele considerou uma passividade do governo.

O debate político na França ainda não chegou ao fundo do poço como a campanha para o referendo do dia 23 de junho sobre a saída do Reino Unido da UE, nem as declarações surreais de Donald J. Trump, mas está se encaminhando nessa direção. Plantu, um antigo chargista do "Le Monde", sente que os políticos, a mídia e as redes sociais roubaram seu emprego: "Hoje eles são mais caricaturais do que minhas próprias caricaturas", ele disse. Em uma entrevista ao "Journal du Dimanche" no domingo, o primeiro-ministro Manuel Valls se mostrou abertamente preocupado quanto a uma tendência que ele descreve como "a trumpização da mente das pessoas". Ele disse que essa "não pode ser nossa resposta ao Estado Islâmico."

Quando os cidadãos se comportam de forma mais sensata do que homens e mulheres que competem para representá-los, é sinal de que chegou a hora de olhar seriamente para o estado de nossos sistemas políticos e seu impacto sobre nossas sociedades no futuro, especialmente quando as democracias modernas se encontram ameaçadas por forças externas que declararam guerra contra elas.

* Sylvie Kauffmann, diretora editorial e ex-editora-chefe do "Le Monde", contribui com artigos de opinião.

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