Excursões propõem tirar viajante de sua zona de conforto em Jerusalém Oriental

Debra Kamin

Em Jerusalém (Israel)

  • Hazem Bader/AFP

    Meninos olham para carro de palestino que foi morto por forças de segurança israelenses após tentativa de ataque, em Jerusalém Oriental

    Meninos olham para carro de palestino que foi morto por forças de segurança israelenses após tentativa de ataque, em Jerusalém Oriental

Mahmoud Muna, um livreiro palestino em Jerusalém Oriental, não mede palavras quando se trata de suas posições a respeito do controle israelense sobre sua parte da cidade, e suas opiniões podem ser difíceis para israelenses ouvirem.

Ao menos, ele presume que são. Muna raramente conversa com os judeus israelenses que vivem do outro lado da Linha Verde. Como a maioria dos 800 mil cidadãos que compartilham desconfortavelmente imóveis na capital contestada de Israel, onde árabes e judeus estão separados em lados opostos e as comunidades são rigidamente segregadas entre religiosos e laicos, o trânsito cotidiano de Muna é restringido por linhas reais e invisíveis.

Mas em uma noite fresca de verão neste mês, Muna ajudou um grupo de turistas culturais a cruzar uma dessas linhas. Sua livraria no histórico American Colony Hotel se tornou uma parada da "Sete Formas de Dissolver Fronteiras", excursões pela cidade rotuladas como "jornadas docudramáticas a realidades alternativas" que levam os participantes para fora de sua zona de conforto e a partes de Jerusalém às quais nunca iriam.

As excursões de quatro horas, que serão realizadas ao longo de setembro com sete itinerários diferentes (daí o nome), foram criadas pelo Mekudeshet, um festival de artes de três semanas por toda a cidade. Os itinerários são mantidos em segredo, com os participantes informados apenas sobre o ponto de encontro inicial.

As 40 pessoas na excursão recebem sistemas de áudio e são convidadas a percorrer toda a rota do trem. Ao longo do caminho, Karen Brunwasser, a vice-diretora da Estação da Cultura de Jerusalém, uma organização em Jerusalém Ocidental que promove o Mekudeshet, apresentou um monólogo ao vivo profundamente pessoal, intercalado com música e trechos de poesia, para descrever os marcos que passavam pelas janelas e sua própria ligação com a cidade.

Após descer do trem em Beit Hanina, um bairro palestino cuja estação do veículo leve sobre trilhos foi cenário de distúrbios ferozes em julho de 2014, os participantes foram guiados até o outro lado dos trilhos e convidados a retraçar sua jornada, dessa vez parando para conhecer uma série de "dissolvedores de fronteiras" ao longo do caminho.

Cada uma das sete excursões apresenta seus próprios personagens, entre eles Eran Tzidkiyahu, o filho que fala árabe de vendedores judeus no mercado e que trabalha como guia de uma excursão que leva os israelenses a Jerusalém Oriental; Nadim Shiban, diretor do Museu de Arte Islâmica em Jerusalém Ocidental; e Chaya Gilboa, uma ex-judia ultraortodoxa que é uma das principais vozes em defesa do pluralismo e dos direitos das mulheres em Jerusalém.

Ahmad Gharabli/AFP
Forças de segurança israelense montam guardam em campo de refugiados em Jerusalém Oriental

A excursão de domingo teve início com uma apresentação de Yehuda Greenfield, cujo escritório de arquitetura, SAYA, foi contratado, como parte do Acordo de Genebra, para projetar a fronteira física (ruas, conexões de transporte e até mesmo travessias de pedestres da Cidade Velha compartilhada) que faria parte de um acordo de status final dividindo Jerusalém Oriental e Ocidental.

"O conceito de uso de fronteiras, e estar envolvido em fronteiras, é muito natural para os cidadãos de Jerusalém", disse Greenfield.

Ela terminou na Praça Sião, uma grande parada de transporte coletivo, com uma conversa com Sarah Weil, uma lésbica que se tornou ativista após a morte de Shira Banki, uma menina de 16 anos morta a facadas na Parada do Orgulho Gay de Jerusalém do ano passado por um homem ultraortodoxo. Weil passa as noites de quinta-feira na praça, encorajando estranhos de formações diferentes a compartilharem um momento juntos.

"Meu trabalho é fazer essas pessoas que passam umas pelas outras pararem e olharem umas às outras", ela disse ao grupo.

A discussão na livraria de Muna, na divisa de Jerusalém Oriental e Ocidental, ocorreu no meio da excursão.

"Foi prometido a vocês uma chance de ouvir alguém que trabalha em prol de algum tipo de mudança em Jerusalém, assim, contarei a vocês como passo minhas tardes", disse Muna ao grupo, que era composto quase que totalmente de israelenses e turistas judeus.

Ele então detalhou seu trabalho voluntário como coordenador cultural em Jerusalém Oriental, criando eventos de arte, teatro e dança, trabalho que é necessário, ele diz, porque o governo israelense fechou as instituições culturais nos bairros palestinos de Jerusalém.

Por 25 minutos, o grupo bebeu café e ouvi Muna expor seus pensamentos sobre o que descreveu como um amordaçamento por Israel dos líderes culturais e religiosos ("Isso criou uma enorme quantidade de contradição em nossa sociedade"); como ele explora a cultura para criar mais discurso político ("Estamos politizando a cultura, por ser o único espaço disponível para nós"); e até mesmo a onda de ataques palestinos com facas na cidade ("Os soldados israelenses podem ser seus amigos e entes queridos, mas para nós são símbolos da ocupação e um alvo legítimo").

Yiscah Smith, uma ativista transgênero nascida nos Estados Unidos que participava da excursão e que vive em Nachlaot, um bairro de Jerusalém Ocidental, saiu do American Colony abalada pelas palavras de Muna.

"Isso realmente me perturbou, o que foi bom, pois foi o motivo para ter vindo", ela disse. (Smith contará sua própria história como parte de uma excursão "Dissolvendo Fronteiras" diferente neste mês.) "Nós precisamos ouvir essas coisas. Precisamos não ter medo disso."

Brunwasser, natural da Filadélfia e que vive em Jerusalém há 11 anos, disse que a Estação da Cultura de Jerusalém, cujos integrantes são quase exclusivamente judeus israelenses, entende suas limitações ao planejar as excursões.

"Queremos borrar as fronteiras da cidade, mas também não fingimos não ser quem somos e que a situação em Jerusalém não é a que é", ela disse. "A realidade é que a maioria de nosso público ainda é israelense. E sabemos que para nosso público, o simples fato de parar e descer do trem em Beit Hanina é algo que grande parte dele nunca fez."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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