Programas de TV contrabandeados podem mudar a Coreia do Norte?

Jieun Baek*

  • Ed Jones/AFP

Informações estrangeiras por si só não transformarão o país rapidamente, mas oferecem esperança de mudanças incrementais

Em meados do ano, tomei o café da manhã com um adolescente que tinha acabado de completar um curso relâmpago que busca ajudar desertores norte-coreanos a se adaptarem às suas novas vidas na Coreia do Sul. Na condição de um órfão pobre na Coreia do Norte, ele sobreviveu a duros invernos contrabandeando filmes estrangeiros pelo congelado rio Tumen. Ele enchia meias femininas de dinheiro e as atirava para a outra margem do rio em suas partes mais estreitas. Do outro lado, seus pares chineses enchiam as meias de DVDs e pen drives e as mandavam de volta.

O governo norte-coreano vê a posse de informação e conteúdo estrangeiro não-autorizado como crime contra o Estado, com punições que variam de trabalhos forçados em campos de prisioneiros políticos até pena de morte. Apesar dessas consequências draconianas, os norte-coreanos comuns consomem informação estrangeira em quantidade cada vez maior.

Esses programas de TV, filmes e programas de rádio estão ajudando a transformar a forma como os norte-coreanos veem o mundo exterior, e mais importante, como veem seu governo. Entrevistas com desertores e pesquisa realizada no país deixam claro que sementes de dúvida a respeito do regime estão sendo plantadas nas mentes dos norte-coreanos, promovendo novas ideias e mais pensamento autônomo.

Informações estrangeiras por si só não transformarão o país rapidamente, mas oferecem esperança de mudanças políticas incrementais.

Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos patrocinaram programas de informação destinados aos cidadãos soviéticos na esperança de criar pressão interna pela liberalização. Programas de rádio, revistas e literatura proibida circulavam dentro do bloco soviético com a ajuda de emigrantes antissoviéticos.

Funcionou. A informação ajudou a minar a alegação do governo soviético de que o comunismo era uma forma superior de governo. A disseminação de informação na Coreia do Norte poderia ter o mesmo efeito.

O mercado clandestino de informação da Coreia do Norte teve origem na fome de duas décadas atrás, que matou entre 800 mil e 2 milhões de pessoas. Com o sistema de distribuição do governo incapaz de atender suas necessidades, os norte-coreanos se voltaram para os mercados não oficiais e ilegais. Hoje, estimados dois terços da população dependem de centenas de feiras livres para alimentos e outros bens, incluindo informações estrangeiras. Uma economia de mercado nascente se enraizou.

Contrabandistas, drones, DVDs, pen drives, balões a gás e panfletos lançados do céu são usados para disseminar informação no "Reino Eremita". As redes de distribuição se tornaram tão sofisticadas que as pessoas em algumas partes da Coreia do Norte podem assistir dramas sul-coreanos populares apenas 24 horas após a exibição em Seul. Pessoas que trabalham para organizações não-governamentais, lideradas por desertores na Coreia do Sul, recebem mensagens de texto de seus contatos norte-coreanos com pedidos específicos para programas de TV e filmes estrangeiros.

Uma desertora de 24 anos de Musan, Coreia do Norte, que se descreveu como fã de filmes estrangeiros quando ainda vivia no Norte, me disse que tinha aprendido na escola que os sul-coreanos corriam pelados e passavam fome por serem muito pobres. Mas os filmes sul-coreanos mostraram para ela que seus professores ensinavam mentiras. "Eu percebi rapidamente que a Coreia do Sul era muito mais desenvolvida que a Coreia do Norte", ela me disse.

Pesquisas e entrevistas com desertores a respeito da Coreia do Norte ajudam a pintar um quadro de um país passando por mudanças sociais e políticas.

Mais norte-coreanos estão envolvidos em comportamento e atividades sociais ilegais, incluindo imitar a forma como se fala em Seul e usando cortes de cabelo e roupas não aprovadas para imitar celebridades sul-coreanas. Há relatos de que a geração do milênio norte-coreana está experimentando práticas de cortejo ocidentais como namoro, após assistir programas de TV e filmes da Coreia do Sul e dos Estados Unidos, violando os códigos confucianos conservadores de conduta entre os sexos.

Outra desertora de 24 anos de Musan me disse que a moda nos programas sul-coreanos populares (tiaras enfeitadas, jaquetas curtas, jeans de última moda e até mesmo kits para permanentes) está disponível nas bancas no mercado em sua cidade. As meninas reviram as caixas no mercado para encontrar os tênis e echarpes mais elegantes para se parecerem com as atrizes de Seul.

As atitudes e percepções políticas a respeito da liderança também parecem estar mudando. O Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais apontou em um estudo recente que há uma crescente insatisfação com o sistema político. A desconfiança em relação ao governo está crescendo. Um número crescente de norte-coreanos, especialmente aqueles nascidos durante ou após a fome dos anos 90, não confiam no governo norte-coreano para provisões. As crianças pedem dinheiro às suas mães para comprar uniformes escolares nos mercados, em vez de trocar os vales do Estado por uniformes escolares.

Os Estados Unidos e outros países devem patrocinar as campanhas de informação para manutenção da pressão por mudança dentro da Coreia do Norte, com mais fundos e treinamento para as organizações lideradas por desertores que criam programas de rádio e vídeo para distribuição dentro do país. Parceria com empresas para criação de métodos inovadores de disseminação de informação (como telefones por satélite e drones de baixo custo), assim como o investimento em desertores com conhecimento de jornalismo, aumentarão a qualidade e a quantidade da informação enviada à Coreia do Norte.

Um ex-professor de ciência da computação norte-coreano, Kim Heung-Kwang, que agora dirige a Solidariedade Intelectual com a Coreia do Norte, uma das várias organizações que enviam informação para o país, me contou como foi descobrir os programas de rádio estrangeiros enquanto vivia lá.

Após uma dieta de propaganda do governo de Pyongyang, os norte-coreanos podem considerar confusa a informação verdadeira proveniente do exterior, até mesmo chocante. Mas posteriormente, ele disse, "sua mente se abre sem nem mesmo perceber".

*Jieun Baek é autor de " North Korea's Hidden Revolution: How the Information Underground Is Transforming a Closed Society", ou "A revolução oculta da Coreia do Norte: Como a informação clandestina está transformando uma sociedade fechada", em tradução livre, não lançado no Brasil

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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