Opinião: EUA ruma para um atoleiro com a Coreia da Norte, mas crise pode ser revertida

Joel S. Wit*

Em Washington (EUA)

  • Wong Maye-E/ AP

Eu me reuni com autoridades do governo norte-coreano por mais de duas décadas, primeiro por quase 10 anos como parte de meu emprego no Departamento de Estado, depois como pesquisador trabalhando para universidades e centros de estudos. Essa experiência me deixou familiarizado com os pontos de vista dos norte-coreanos a respeito da segurança de seu país.

Acredito que o presidente Trump está cometendo um erro imenso se achar que a ameaça de um ataque militar e uma escalada de sanções persuadirão a Coreia do Norte a abrir mão de suas armas nucleares. 

Após dois meses de revisão, o governo Trump implantou uma política que enfatiza a pressão, incluindo a ameaça de força militar e novas sanções contra a Coreia do Norte, assim como novas restrições visando punir empresas chinesas com laços com Pyongyang. Apesar de, em teoria, isso visar persuadir a Coreia do Norte a parar com seu comportamento provocador, retornar às negociações e abrir mão de suas armas nucleares, isso não funcionará dessa forma.

Essas ameaças apenas farão o governo norte-coreano fincar seus pés e seguir em frente com seus programas nuclear e de mísseis, enredando os Estados Unidos em uma crise purulenta na península coreana, que pode escalar até sair de controle. 

Por mais de 60 anos, a Coreia do Norte foi bem-sucedida não apenas em resistir à pressão das grandes potências, principalmente os Estados Unidos, como também nas tentativas de manipular seus apoiadores, a União Soviética e a China. Isso reflete um forte nacionalismo, assim como um princípio caro aos norte-coreanos: o de que na condição de um país pequeno em um confronto de vida ou morte com a mais poderosa nação do mundo, qualquer demonstração de fraqueza representaria um suicídio nacional. 

A visão antiga e profundamente entranhada em Pyongyang é de que a verdadeira intenção de Washington é se livrar do regime norte-coreano, devido à ameaça militar que representa a aliados americanos como a Coreia do Sul e Japão, por suas grandes violações de direitos humanos e agora seu arsenal nuclear. 

O secretário de Estado americano, Rex Tillerson, tentou tranquilizar a Coreia do Norte durante sua visita a Tóquio no mês passado, dizendo: "A Coreia do Norte e seu povo não precisam temer os Estados Unidos ou seus vizinhos na região, que buscam apenas viver em paz com a Coreia do Norte". Mas a afirmação do vice-presidente Mike Pence, nesta semana em Seul, de que os Estados Unidos buscam colocar um fim à repressão na Coreia do Norte, quando vista de Pyongyang, claramente é traduzida como uma política de mudança de regime. 

Ameaças como essa reforçam a visão em Pyongyang de que a Coreia do Norte precisa de armas nucleares para se proteger contra um país muito maior e muito mais poderoso. Essa é a mensagem que ouvi repetidas vezes dos norte-coreanos, mais recentemente em uma reunião privada da qual participei com autoridades do governo, que declararam que seu país não teria desenvolvido armas nucleares se não visse os Estados Unidos como sendo uma ameaça ou não fosse submetido às provocações americanas e sul-coreanas.

Coreia do Norte exibe arsenal durante desfile em Pyongyang

As ações americanas em outros países, seja o apoio à mudança de regime na Líbia ou o lançamento de ataques aéreos contra a Síria por seu uso de armas químicas, reforçam esse ponto de vista. 

O governo Trump também pode estar errado se acreditar que a China refreará a Coreia do Norte. O esforço do presidente Trump de estabelecer uma cooperação com a China, combinado com a ameaça de uma ação militar americana contra a Coreia do Norte, parece ter produzido alguns resultados, como a ameaça recente pela China de impor novas sanções à Coreia do Norte. Mas quão longe a China está disposta a ir? 

Há preocupações legítimas em Pequim de que uma pressão econômica excessiva sobre a Coreia do Norte possa causar uma instabilidade perigosa ali. Além disso, os norte-coreanos provavelmente resistirão às táticas de queda de braço chinesas tanto quanto à pressão americana. As tentativas pela China de envio de altos diplomatas para Pyongyang na semana passada teriam sido rejeitadas pela Coreia do Norte. A maioria dos observadores esquece que o arsenal nuclear da Coreia do Norte está apontando para a China tanto quanto para os Estados Unidos e seus aliados. 

Nas próximas semanas, a combinação de subestimar a intransigência norte-coreana e superestimar a influência da China exporão a incapacidade do governo Trump de deter o programa nuclear da Coreia do Norte e possibilidade de escalada das tensões. As declarações belicosas de Pyongyang ameaçando uma guerra termonuclear, a exibição dos novos mísseis em um desfile no último fim de semana e o teste fracassado no domingo, de um míssil com capacidade de atingir alvos no Nordeste da Ásia, podem ser os passos iniciais da Coreia do Norte. 

Se o governo Trump mantiver o curso atual, isso levará a um beco sem saída. Pyongyang seguirá em frente com seus programas nuclear e de mísseis, as ameaças americanas soarão cada vez mais vazias se força não for usada devido aos riscos muito reais de provocar uma resposta militar norte-coreana contra a Coreia do Sul e o Japão, e o apoio de Pequim diminuirá à medida que procurar por uma saída das tensões.

Como resultado, o governo acabará preso em uma política de terra de ninguém, tendo como únicas opções um recuo para a política fracassada do governo Obama de "paciência estratégica" (sem dizer, é claro) ou dobrando as sanções contra a China e posicionando mais defesa antimísseis e forças na região. 

O tempo não está ao lado do presidente Trump. O governo deveria considerar seriamente abrir mão da pressão visando uma rápida retomada do diálogo com a Coreia do Norte. Na verdade, o governo americano já deveria estar discretamente conversando com os norte-coreanos, seja por meio dos contatos com a missão de Pyongyang nas Nações Unidas ou outros canais, enfatizando a determinação de Washington em defender os interesses americanos e deixando claro que os Estados Unidos não têm interesses hostis em relação à Coreia do Norte. Os americanos também deveriam deixar claro que desejam explorar caminhos pacíficos à frente.

O passo seguinte para o governo deveria ser iniciar "conversações a respeito de negociações", permitindo a ambos os lados expressarem suas preocupações (no caso dos Estados Unidos, os programas nuclear e de mísseis da Coreia do Norte). Se meio-termo for encontrado, e a Coreia do Norte estiver disposta a tratar de forma objetiva uma eventual promoção de uma península coreana livre de armas nucleares, os dois países então seguiriam em frente para uma retomada de negociações formais. 

Não há garantias de que essa abordagem funcionará. Mas o refrão constante do governo Trump de que "todas as opções estão na mesa" deve significar exatamente isso, não apenas um ataque militar, mas também uma ofensiva diplomática.

Ao fazê-lo, o presidente Trump evitaria o atoleiro que se aproxima, fortalecendo a cooperação com a China e dando a Pyongyang uma saída do confronto atual que preservasse sua dignidade, antes que seja tarde demais.

*(Joel S. Wit é um membro sênior do Instituto EUA-Coreia da Universidade Johns Hopkins e fundador de seu site a respeito da Coreia do Norte, 38North.)

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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