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Só estimular uso do transporte público não resolve problemas de congestionamento

Isadora Ruiz

Isadora Ruiz

26 anos, é especialista em mobilidade urbana e responsável pela Iniciativa Smart Cities da FGV Projetos

Especial para o UOL

02/08/2014 06h00

Desatar o nó do trânsito e melhorar a qualidade de vida urbana do cidadão tornou-se o objetivo central das políticas urbanas no Brasil, principalmente a partir do ano passado, quando a mobilidade nas grandes e médias cidades virou uma das principais bandeiras das manifestações populares.

As origens dos problemas atuais são bem conhecidas: a falta de investimentos em infraestrutura e transporte de alta capacidade, e a predominância de políticas que priorizam o transporte individual. Mas falhas no passado não justificam novos erros.

Políticas de estímulo ao uso do transporte público, como a implantação de faixas exclusivas para BRTs (corredores de ônibus), aliviam, mas não resolvem a questão. Para ser eficiente, o sistema deve abranger diversos modos de transporte, promovendo integração tarifária, física e operacional.

O que falta no Brasil são soluções inteligentes que otimizem e garantam a manutenção dos resultados obtidos pelos investimentos em infraestrutura urbana. O conceito principal é estabelecer comunicação entre os meios físico e digital, aumentando a disponibilidade de dados e informações para os usuários dos sistemas. Essas melhorias, no entanto, estimulam novas viagens e podem se tornar ineficientes se não foram acompanhadas de medidas de gestão de demanda. 

O conceito de “gerenciamento da mobilidade”, por exemplo, redistribui as viagens ao longo do espaço e do tempo, diminuindo a concentração de veículos nas ruas e aumentando a qualidade dos deslocamentos. Ao adotar medidas como a redução da oferta de estacionamento ou a criação de pedágios urbanos, cidades como Cingapura, Estocolmo e Londres conseguiram reduzir os congestionamentos, melhorar o desempenho do transporte público e reduzir a emissão de gases tóxicos.

O “gerenciamento ativo de tráfego” é outra medida que utiliza os recursos tecnológicos das vias expressas, como câmeras, painéis de mensagem, radares e laços magnéticos. Isso ajuda a monitorar e maximizar a capacidade da infraestrutura viária de forma praticamente imediata e pouco onerosa.

Essa solução, já bastante utilizada nos Estados Unidos e em alguns países da Europa, aproveita-se do fato de que, ao contrário do senso comum, altas velocidades não aumentam o fluxo de veículos. Assim, dados do tráfego em tempo real influenciam a velocidade permitida para que a média se aproxime da chamada “velocidade ótima”, que resulta no fluxo máximo.

De acordo com pesquisas feitas em 2007 e 2011 pela FHWA (órgão federal de gestão de estradas americanas), estratégias como a harmonização de velocidades e o uso temporário da faixa de acostamento aumentam de forma significativa a segurança viária e são capazes de proporcionar uma redução de 10% a 30% no tempo de viagem, com aumento de até 8 km/h na velocidade média de trechos congestionados.

Infelizmente, os gestores brasileiros ainda estão tímidos na exploração de ferramentas inovadoras para o gerenciamento da mobilidade urbana. Como exemplo positivo, destaca-se a iniciativa da concessionária Concepa, que vem elaborando pesquisas junto à Agência Nacional de Transportes Terrestres para viabilizar a implantação de um sistema de gerenciamento ativo de tráfego na BR-290, no Rio Grande do Sul.

Na maioria das cidades brasileiras, porém, falta consenso político sobre os benefícios de se investir em tecnologia, inovação e acesso ao conhecimento de tais soluções. Sem falar na crença de que tecnologias são custosas e de difícil implantação. No entanto, já passou da hora de superar essas barreiras e evitar que a imobilidade de hoje emperre nosso desenvolvimento sustentável, culminando em um colapso urbano no futuro próximo.

De fato, não se trata de copiar modelos de sucesso ou identificar uma fórmula mágica que resolverá todos os problemas. O principal é estimular a discussão e a implementação dessa abordagem técnica, ou seja, quebrar o tabu.

Antes de investir muito dinheiro e tempo em projetos estruturantes de grande envergadura, é preciso esgotar as possibilidades de maximizar a eficiência da infraestrutura já existente.O fundamental é identificar as melhores soluções para cada problema específico, buscando sempre alinhar tais soluções à realidade específica de cada região.

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