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Posse de Macri beneficia exportações brasileiras

Juan Jensen

Juan Jensen

40 anos, é sócio da 4E Consultoria, professor do Insper e mestre e doutor em economia pela USP

Especial para o UOL

10/12/2015 06h00

De acordo com as propostas apresentadas durante a campanha, o presidente eleito da Argentina, Mauricio Macri, deverá implementar três ajustes principais na política econômica do país no que diz respeito a taxa de câmbio, quadro fiscal e inflação. Espera-se também uma nova orientação nas políticas de comércio internacional, com efeitos significativos para a economia brasileira, e nas políticas setoriais. Os primeiros efeitos de recuperação da economia argentina poderão aparecer já a partir do fim de 2016.

O novo governo argentino deverá retirar as restrições existentes para a compra de dólares e para as importações de bens e serviços, mas o Banco Central não conta com reservas. Hoje, a taxa de câmbio oficial está muito apreciada em termos reais. Para limitar a desvalorização que ocorrerá, o governo tem que tratar de aumentar a oferta de dólares no mercado. Para isso, deve ocorrer alguma negociação com o FMI (Fundo Monetário Internacional), o qual poderia fazer um empréstimo ao país. Outro instrumento a ser utilizado pelo governo para acumular divisas prevê a utilização de estoques de produtos agrícolas mantidos por produtores à espera de uma taxa de câmbio mais depreciada para sua comercialização.

A liberalização do mercado de divisas deve levar ao governo eleito a renegociar com os holdouts (fundos que não aderiram à renegociação da dívida). A aprovação de mudanças nos termos de renegociação de débitos não pagos pelo governo argentino depende de mudanças de lei aprovadas pelo Congresso. O presidente eleito não possui maioria no Legislativo e precisará de muita habilidade na articulação política para aprovar medidas na casa.

O segundo elemento importante na condução da política econômica diz respeito ao quadro fiscal. A Argentina apresenta um desequilíbrio ainda maior nas finanças públicas do que o Brasil. O país deverá registrar um deficit primário de 4,3% do PIB em 2015, de acordo com a consultoria Ecolatina.

A reversão do resultado deficitário nas contas públicas dificilmente ocorrerá com aumento de arrecadação, haja vista que a expectativa é de contração do PIB para 2016, assim como via aumento de tributos, dado que a carga tributária já é de 34% do PIB. As finanças públicas da Argentina deverão continuar em situação de desequilíbrio no curto prazo. Algumas medidas pontuais como a retirada de subsídios, que representam 5 pontos percentuais do PIB, podem ser implementadas, principalmente sobre as classes mais ricas.

O terceiro aspecto relevante para a condução da política monetária pelo governo eleito na Argentina é a inflação. O fato de o câmbio e várias tarifas públicas estarem fora do lugar implica a necessidade de se promover uma correção de preços relativos, nos moldes como praticado pelo governo brasileiro a partir do início de 2015.

Consultorias independentes estimam que a inflação argentina esteja hoje em torno de 25% ao ano. Considerando um pass-through de aproximadamente 50%, a inflação no país poderá chegar a 40% no fim de 2016. A realidade inflacionária da Argentina, portanto, impõe o desafio ao novo governo de implantar um plano anti-inflacionário crível no curto prazo.

No plano externo, a eleição de um governo conservador sinaliza uma visão mais pró-mercado nas relações comerciais da Argentina. Espera-se que as restrições impostas para importações sejam revogadas e que o comércio com importantes parceiros, como o Brasil, seja retomado. A agenda de acordos de livre comércio deverá ganhar destaque, especialmente o acordo de comércio negociado entre o Mercosul e a União Europeia. Posteriormente, acordos do bloco econômico com os EUA e a entrada na aliança do Pacifico podem ser viabilizados.

Para as empresas exportadoras brasileiras, a eleição de Mauricio Macri representa boas oportunidades. Em torno de 20% das importações argentinas são provenientes do Brasil, das quais cerca de 90% são produtos manufaturados. Alguns setores influenciados pela retomada do comércio bilateral entre os países são o automotivo, alimentos e bebidas, calçados, têxtil, entre outros.

Em termos setoriais, espera-se que o novo governo argentino implemente políticas industriais mais horizontais, de modo que intervenções microeconômicas sejam retiradas. Os produtores de alimentos devem se beneficiar com a aproximação ao Brasil em razão do aumento do poder de negociação com demais blocos econômicos. O imposto de exportação de soja deverá cair.

Considerando os inúmeros desafios colocados ao novo governo argentino e a partir das últimas crises experimentadas pelo país, espera-se que a recuperação da economia ocorra a partir do fim de 2016. O conjunto de medidas a ser implantado pelo governo é mais harmonioso do que o introduzido pelo governo brasileiro devido à melhor integração esperada entre as políticas monetária, cambial e fiscal. O impacto sobre a confiança de empresas e consumidores tende a ser relevante do ponto de vista da credibilidade do governo e, por consequência, sobre o crescimento.

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