Brasileiros têm dificuldade cultural em lidar com o dinheiro

Rodrigo Noel

Rodrigo Noel

Especial para o UOL

As recentes situações e realidades econômicas enfrentadas no Brasil e em outros países despertaram, em muitos, sentimentos de dúvida e preocupação com relação aos seus investimentos e ao planejamento financeiro familiar.

Será que, no atual cenário, estarei seguro com as aplicações financeiras feitas em outro momento? Devo mantê-las ou procurar alternativas? Essas são dúvidas comuns e que se tornaram mais frequentes nos últimos meses. As respostas podem ser muito mais simples do que se imagina.

Um estudo recente realizado pelo Itaú Unibanco sugere que o brasileiro não possui uma relação sustentável com o dinheiro. Geralmente, suas decisões de consumo e investimento são determinadas mais pelas respostas a desejos e menos por decisões racionais que levem ao planejamento de longo prazo.

Essa falta de planejamento financeiro não deve ser associada apenas à baixa escolaridade média da população. Sugere-se que, mais do que um eventual conhecimento parcial sobre o tema, exista também uma dificuldade cultural de lidar com o dinheiro e pôr em prática a tarefa de preparar-se para o futuro.

Mesmo entre as famílias que têm conseguido formar poupança, a situação não costuma ser muito diferente. Geralmente, elas não estão preparadas para decidir corretamente o que fazer com a poupança acumulada.

Observando a captação líquida da maioria dos investimentos, nota-se que a principal determinante da decisão de investimento costuma ser seu retorno passado. No entanto, para um correto planejamento das finanças, avaliar apenas o desempenho passado e os riscos esperados das alternativas de investimento mostra-se insuficiente. É necessário entender o conjunto de compromissos que se farão presentes ao longo da vida –despesas com a manutenção do padrão e estilo de vida, saúde, lazer e necessidades básicas de consumo.

Igualmente importante é considerar que os ativos de uma família não são compostos apenas pelos ativos financeiros, mas também pelo capital humano, que representa o valor presente dos rendimentos futuros advindos do trabalho.

Sensibilidade a mudanças

Uma vez estimado o valor atual de todos os ativos e passivos de um indivíduo, torna-se possível calcular o valor de seu patrimônio líquido (PL) e sua sensibilidade a mudanças nos preços de ativos e variáveis econômicas. Com este conjunto de informações, pode-se estimar se o total de ativos será suficiente para fazer frente às necessidades futuras.

Adicionalmente, torna-se possível identificar a necessidade de ajustes no acúmulo de poupança. Da mesma forma, a análise da sensibilidade do patrimônio líquido a variáveis de mercado, como a inflação e a taxa de câmbio, pode ser de vital importância para ajustar o risco do portfolio ao grau de aversão de cada um –o quanto se está disposto a correr certo risco para ampliar o retorno financeiro.

Esta abordagem mais ampla da alocação de ativos é conhecida pela sigla em inglês ALM (Asset Liability Management) e é um grande passo para a tomada de decisões mais conscientes com relação ao planejamento financeiro de longo prazo. 

Imaginemos um indivíduo extremamente avesso ao risco, que esteja prestes a se aposentar e que, durante sua vida profissional, acumulou recursos suficientes para sua aposentadoria. Ao fazer uma escolha baseada apenas no objetivo de minimizar o risco do investimento, aplicando em um fundo pós-fixado que prevê reajustes atrelados a determinados índices, como a taxa Selic, ele teria suavizado a oscilação diária dos seus ativos.

No entanto, essa decisão não levou em consideração que seu passivo, sua aposentadoria, é um fluxo de compromissos futuros basicamente indexados à inflação. Isso significa que sua decisão de investimentos, apesar de apresentar baixa volatilidade do ativo, o manteria vulnerável aos cenários de estresse em que a inflação acelere e a taxa de juros de curto prazo não apresente a elevação correspondente.

Ainda neste exemplo, se o investidor hipotético optasse pelo investimento em títulos indexados à inflação, apesar da volatilidade maior no ativo, sua "riqueza líquida" –o patrimônio líquido– ficaria menos arriscada, já que o indexador seria o mesmo em ambos os lados do balanço.

Por isso, o planejamento financeiro se mostra uma ferramenta essencial para que indivíduos ou famílias possam suavizar as diferenças entre estes fluxos, mantendo um estoque de liquidez que proporcione segurança e um padrão de vida relativamente estável.

Esse planejamento, considerando a realidade presente e futura das famílias, pode ser um importante fator para que mudanças de cenários e da atividade econômica não prejudiquem o futuro e a estabilidade financeira dos investimentos e reservas de capital.

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Rodrigo Noel

42 anos, é especialista de portfólio da Itaú Asset Management. Possui MBA em Finanças e Mercados de Capitais pela Fundação Getúlio Vargas

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