Apenas alguns setores sociais demonizam o Estado brasileiro

Adriano Oliveira

Adriano Oliveira

Especial para o UOL

O cientista político e presidente do Ipea, Jessé Souza, em recente entrevista à Folha, e no seu excelente livro "Tolice da Inteligência brasileira" (2015) sugere que o Estado brasileiro é demonizado. O que advém do Estado é ruim. Onde o Estado está presente, a ineficiência existe. Portanto, o poder estatal brasileiro é visto por muitos como uma instituição desnecessária e que só atrapalha.

Interpreto a premissa exposta não como algo universal. Ou seja, todos condenam o Estado brasileiro. Observo que Jessé Souza sugere que em dados espaços sociais existe a condenação do Estado. Em outros, talvez não exista. No espaço onde existem autores com teses e ideias liberais, o Estado é demonizado. Nesse caso, o poder público, para alguns, não pode ser indutor do desenvolvimento ou provedor ativo de políticas sociais, por exemplo.

Já outras pessoas, como o professor Marcus André Melo, vão na direção oposta. Também em entrevista à Folha, discordou de Jessé Souza. Para Melo, o Estado brasileiro não é demonizado. Ao contrário, é exaltado, defendido. E tal exaltação e defesa são observadas na história brasileira. São diversas obras que defendem o ente estatal. Portanto, não existe tradição liberal no Brasil. Mas tradição iliberal.

O debate entre Jessé Souza e Marcus André Melo foi brilhante e enriquecedor. Contudo, faltam aos argumentos de ambos opiniões oriundas da opinião pública. Ou seja: o que os brasileiros pensam do Estado? Os brasileiros desejam mais participação do Estado nos ambientes social e econômico? Essas são perguntas vitais.

No livro "A classe média brasileira" (2010), Bolívar Lamounier e Amaury de Souza, mostram, através de pesquisa de opinião pública, que os brasileiros, em sua maioria, possuem mentalidade estatista. Defendem a intervenção do poder público na economia. E que o Estado deve gerenciar diversas atividades, como aposentadoria, universidades e abastecimento de água.

Com a mesma metodologia, Alberto Carlos Almeida, no livro "A cabeça do brasileiro" (2007), afirma que o brasileiro, majoritariamente, ama o Estado. Para o autor, entre escolher o poder estatal ou a iniciativa privada no provimento de serviços, os brasileiros preferem o primeiro.

O Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau (IPMN) fez a seguinte indagação aos candidatos recifenses do Enem, em outubro de 2015: "Para você, o crescimento econômico e social do Brasil requer:". Foram apresentadas aos estudantes assertivas, e, diante delas, eles responderiam sim ou não. Pelo resultado do exame, 87,3% concordam que o Brasil precisa de mais concursos públicos; 37,8% consideram que as privatizações das estatais são necessárias para o crescimento social e econômico, e 49% afirmam que não.

Bolívar Lamounier, Amaury de Souza e Alberto Carlos Almeida mostram que a opinião pública brasileira é, majoritariamente, estatista. Os dados da pesquisa do IPMN entre os candidatos do Enem sugerem que a juventude brasileira também é. Portanto, a demonização do Estado está em alguns setores sociais. E a idolatria dele em parte majoritária dos brasileiros.

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Adriano Oliveira

41 anos, é doutor em Ciência Política e professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco. É também autor de livros, dentre os quais "Eleições não são para principiantes - Interpretando eventos eleitorais no Brasil" (ed. Juruá)

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