Curadoria de conteúdo é o lugar do humano na internet

Giselle Beiguelman

Giselle Beiguelman

Especial para o UOL

Ninguém sabe ao certo o tamanho da internet, mas alguns indicadores são suficientes para convencer o mais cético dos céticos que ela é o maior reservatório de conteúdo já criado pela humanidade. Não há paralelo possível com nenhum período anterior.

A Wayback Machine, um serviço do Internet Archive que arquiva, desde 1996, sites publicados na web, já ultrapassou 460 bilhões de páginas indexadas. E isso não inclui páginas acessadas com senhas, como a das redes sociais. Em 2014, comemorava o marco de 400 bilhões de páginas, que equivaliam a um montante de 8,9 petabytes (8900 terabytes) armazenados.

É um volume impressionante. Especialmente se lembrarmos que em um "mísero" terabyte (1000 Gigabytes) cabem cerca de 16 mil horas de músicas e mais de 300 mil fotos.

Mas mais impactante que o volume em si é a velocidade de crescimento desse patrimônio. Suas escalas transcendem qualquer capacidade humana de dimensionamento e medida. São compatíveis apenas com a do crescimento do tráfego de dados da internet. Eles devem chegar a 1 zettabyte neste ano. É algo como 1 trilhão de Gigabytes e esse número dobrará nos próximos cinco anos.

Britney Spears versus Montaigne

Isso nos põe diante de uma inédita overdose documental. Ela explica a demanda pelo curador de conteúdo. Alguém capaz de fazer a filtragem, a reorganização e a interpretação do que se procura e é encontrado na internet.

Termo recorrente nos blogs de marketing digital, curadoria de informação ou de conteúdo vem acompanhada de frases pretensiosas, receitas de sucesso e dicas milagrosas (como tudo que, em geral, é publicado nessa área, aliás).

A despeito da futilidade desse tipo de abordagem, o assunto é estratégico. Está na fronteira entre a sociedade de informação –de acesso à inovação e às TICs– para a sociedade do conhecimento, na qual a informação é a base para a produção do saber e não um fim em si mesmo.

Em síntese, curadoria de informação é a chave para evitar um mundo ocupado por clones de "Funes, o memorioso". Para quem não conhece, esse é um dos mais tristes personagens do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986).

Funes lembrava de tudo. "Recordava cada folha de cada árvore de cada monte". Registrava detalhes e mais detalhes, mas tinha muita dificuldade em compreender, por exemplo, que cão é mais que uma palavra que remete a uma coisa. É um símbolo que abarca uma variedade enorme de cachorros de diversos tamanhos, cores e formas. Funes sofria muito. Não conseguia pensar, pois pensar, nos lembra Borges nesse conto, demanda a capacidade de abstrair.

Traduzido em linguagem digital, poderíamos dizer que Funes era uma inesgotável máquina de armazenamento de dados dispersos. Um servidor imenso equipado com um bom, ou ótimo, programa de indexação e busca. E só.

Acesso a informações é fundamental, mas é preciso ir além da separação do joio do trigo que os programas de busca e os aplicativos de organização da informação fazem. E esse ir além implica repertório cultural, capacidade de transitar dentro e fora das redes, no "mundo ao vivo", e transcender a(s) tela(s). Sem esse background, continuaremos pobres novos ricos.

Não é por acaso que o verbete da Britney Spears na Wikipedia seja tão mais elaborado que o sobre Montaigne (1533-1592), o filósofo francês que nos ensinou que duvidar é pensar (e vice-versa).

Essa operação é central hoje. É ela que permite a passagem do dado à informação e da informação ao conhecimento. E não é um atributo de uma programação do sistema. Está na órbita da conjunção do software com o "peopleware", e não na do algoritmo em si.

Falamos aqui de algoritmos que se baseiam na verificação de padrões coletados a partir de metadados. Registram mapas de escolhas anteriores que fizemos e indicam o que deveríamos encontrar. Diante do volume de dados com que lidamos, não conseguimos viver mais sem eles. Eles permitem que operemos a dadosfera.

Mas transformar o dado em informação, e a informação em conhecimento, depende de expertise, análise e interpretação. Isso é curadoria de conteúdo, um privilégio humano, demasiadamente humano.

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Giselle Beiguelman

é artista e professora da FAU-USP. É coautora, dentre outros, de "Futuros possíveis: arte, museus e arquivos digitais". Expõe "Memória da Amnésia" no Arquivo Histórico de São Paulo, até 2 de abril (www.desvirtual.com)

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