Eliminar a fome na AL e no Caribe é uma meta ambiciosa, mas possível

José Graziano da Silva

José Graziano da Silva

Especial para o UOL

Há 25 anos, na América Latina e no Caribe, quando começou o desafio dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, 14,7% da população era afetada pela fome. Mais de 66 milhões de pessoas eram incapazes de obter os alimentos que necessitavam para viver uma vida saudável. Hoje, o panorama é completamente diferente.

Graças aos enormes esforços dos países da região, a porcentagem de subalimentação caiu para 5,5%, o que representa 30 milhões a menos de pessoas sofrendo com a fome –apesar de a população ter aumentado em 163 milhões de pessoas. A desnutrição aguda em crianças menores de cinco anos também diminuiu, e hoje afeta apenas 2%.

Isso se deve principalmente ao grande compromisso político na região, aos resultados positivos da combinação do crescimento econômico e o reforço dos sistemas de proteção social, à formulação e aplicação de políticas públicas diversas e à solidariedade entre os países da região refletidas nas atividades de cooperação Sul-Sul.

Porém, vamos falar com clareza: esses avanços não são suficientes. O grande problema do continente não é mais a falta de alimentos, mas o acesso –ou seja, a pobreza–, e também o excesso. A obesidade é agora uma praga tão séria como a fome. Na região, 20% a 25% dos adolescentes são obesos, ou seja, 1  a cada 5.  Entre as crianças, aproximadamente 3,9 milhões também passam pelo mesmo problema de obesidade.

Apesar de a América Latina e o Caribe terem dado um salto, os desafios pendentes, para alcançar a meta de fome zero, ainda são consideráveis: 34 milhões de homens, mulheres e crianças convivem com a fome, 27 milhões vivem na pobreza extrema e a proporção de adultos obesos supera os 22% em muitos países da região.

Representantes de governos da América Latina e do Caribe vão se reunir na Cidade do México durante a Conferência Regional da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), entre hoje e  3 de março. A ideia é buscar soluções conjuntas, não só para diminuir a fome e a má-nutrição, mas para eliminá-las de uma vez por todas. É um objetivo tão ambicioso quanto possível. A Conferência acontece a cada dois anos, e nela os governos fixam as prioridades de trabalho na região, mas a deste ano acontece em um momento muito especial da história da América Latina e do Caribe.

Erradicar a fome e a má-nutrição é o objetivo de uma das três iniciativas regionais que a FAO apresentará aos governos durante o evento. A primeira delas, também conhecida como Iniciativa América Latina e Caribe sem Fome, busca apoiar os países na execução do compromisso de acabar com a fome em menos de uma década, no ano de 2025.

A região foi pioneira ao assumir esse desafio e tem respondido a ele por meio do seu principal órgão de integração, a Celac (Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos), que, em 2015, começou a implementar o Plano de Segurança Alimentar, Nutricional e Erradicação da Fome. Esse acordo político, sem precedentes, está fortalecendo e dinamizando os esforços regionais para pôr um fim definitivo na fome.

A segunda iniciativa regional da FAO está centrada em fortalecer a agricultura familiar, os sistemas alimentares e o desenvolvimento sustentável. Põe o foco nos agricultores familiares, que enfrentam múltiplas dificuldades no acesso a recursos produtivos, mercados, infraestrutura básica, serviços públicos, tecnologia e financiamento. Apesar disso, a agricultura familiar é a coluna vertebral do sistema alimentar regional.

Doenças e segurança alimentar

A terceira inciativa regional da FAO busca fomentar o uso sustentável dos recursos naturais, a adaptação às mudanças climáticas e gerir adequadamente os riscos de desastres, que são aspectos chaves para enfrentar crises como o atual surto do vírus Zika, uma doença que não respeita fronteiras e só poderá ser controlada por meio do esforço coordenado de todos os países da região.

As condições mais quentes e úmidas, criadas por meio das mudanças climáticas, não só facilitam a transmissão de doenças transfronteiriças, afetando a segurança alimentar e a saúde, como também aumentam a frequência e a intensidade dos desastres naturais, que causaram perdas de US$ 11 bilhões no setor agrícola da região, entre 2003 e 2013.

Um terço da população da região vive em áreas de alto risco de desastres. A seca seguida por excesso de chuvas e inundações severas, por exemplo, tem efeitos devastadores no chamado corredor seco, que atravessa El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Costa Rica e Panamá, onde mais de um milhão de famílias vivem da agricultura familiar de subsistência.

A América Latina precisa manter a liderança que alcançou nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e utilizar uma grande variedade política e estratégias exitosas na luta contra a fome –que é desenvolvida pelos países para avançarem nos novos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, assumidos pela comunidade internacional durante 2015. Esse último objetivo também propõe a mesma meta já sugerida para a região: erradicar a fome completamente. 

O que há poucas décadas parecia uma meta inalcançável hoje é vista ao alcance das mãos. É o sonho de uma geração: uma América Latina e Caribe livres da fome e plenamente sustentáveis. Podemos ser a primeira geração sem fome.

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José Graziano da Silva

é diretor-geral da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura)

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