Crise dificulta o empreendedorismo por necessidade

Carolina Ruhman Sandler

Carolina Ruhman Sandler

Especial para o UOL

Quem nunca sonhou em não ter mais chefe, ser dono dos próprios horários e ainda trabalhar com o que gosta? Montar um negócio é um desejo de uma boa parte dos brasileiros. Quando a crise bate e o desemprego avança a níveis recordes, pode parecer uma ótima solução pegar o valor da indenização e investir na abertura de um novo negócio. O que poderia dar errado?

A empolgação do início pode abrir espaço para o que os economistas comportamentais chamam de viés de confirmação: a tendência de nos lembrarmos ou interpretarmos informações de forma que confirme as nossas crenças. Em outras palavras, é quando passamos a dar atenção somente para os dados que dizem o que queremos ouvir.

Quando uma pessoa que perdeu o emprego resolve empreender, o risco de cair no viés de confirmação é enorme. Imagine um exemplo: um nutricionista que perdeu o emprego em uma multinacional e resolveu abrir uma clínica de nutrição. Ele se diz: "Sou bom no que faço, tenho o dinheiro da rescisão, vou poder montar a minha clínica e vai dar tudo certo".

Com essa linha de raciocínio, ele não chega a questionar como está o mercado de nutrição para pacientes individuais ou como vai conseguir uma nova clientela. O profissional também não pesquisa a melhor localidade para a sua clínica e não tem parceiros que possam indicar o seu trabalho. No final das contas, ele montou a clínica com a cara e a coragem, contando com a sorte, e sem ter feito um planejamento real antes.

Com o avanço do desemprego, que já atinge 11,4 milhões de pessoas no país, segundo o IBGE, um número enorme de pessoas vem procurando trabalhar como autônomos. No entanto, de acordo com o órgão, o número de trabalhadores por conta própria caiu 1,3% no último trimestre –um porcentual que representa um contingente de 314 mil pessoas. Segundo o IBGE, o motivo da queda é simples: a crise tem tornado cada vez mais difícil empreender.

Os fatores que dificultam o empreendedorismo por necessidade em meio à crise são diversos: taxas de juros altíssimas dificultam a obtenção de linhas de crédito; o poder de compra das famílias caiu com o avanço do desemprego e a queda da renda; a falta de planejamento adequado antes de lançar o negócio próprio.

Em especial, um plano de negócio bem montado pode ser a diferença entre o sucesso e o fracasso de um novo empreendimento. É com base nesse documento que o empreendedor consegue avaliar o investimento inicial do negócio, entender o tamanho do mercado, definir preços e margem e até montar uma estratégia de marketing. No plano de negócio é onde se discute da embalagem do produto até o número de funcionários. Com um plano bem feito, é possível entender se o empreendimento tem chances reais de dar certo ou se é um poço sem fundo.

Quando alguém resolve empreender, o primeiro fator que olha é justamente o trabalho que gostaria de fazer. A paixão é essencial para iniciar um novo negócio, mas sozinha ela não segura tudo. Neste momento, é necessário deixar a paixão um pouco de lado para não cair no viés de confirmação e estudar a ideia a fundo.

Neste momento de crise, lançar um novo negócio é um desafio enorme. É claro que sempre existem oportunidades, mas não adianta se apegar à ideia de que, em tempos de crise, enquanto uns choram outros vendem lenços. Se você quer encarar o desafio, então deixe o otimismo de lado e comece com muita pesquisa e planejamento. Caso contrário, corre o risco real de entrar para as estatísticas.

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Carolina Ruhman Sandler

é jornalista e fundadora do site financasfemininas.com.br

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