Curso técnico prepara jovens e é opção para driblar desemprego

Rafael Lucchesi

Rafael Lucchesi

Especial para o UOL

Os jovens estão entre os segmentos da população mais afetados pela atual crise econômica. No primeiro trimestre deste ano, o desemprego entre pessoas de até 24 anos atingiu 24%, mais do que o dobro da taxa geral. Com menos experiência e, em geral, pouca qualificação, eles são os que primeiro sofrem quando o mercado de trabalho piora.

No entanto, os dados não devem alimentar o pessimismo. É o momento certo de preparar essa geração para o futuro, para quando o ciclo de crescimento for retomado. Está na hora de apostar em educação profissional.

Segundo o IBGE, em pesquisa de 2013, aproximadamente 80% dos estudantes entre 18 e 24 anos não chegam à universidade. E existem muitas oportunidades para o jovem que opta por uma profissão técnica –diferente da crença, de parcela da sociedade brasileira, de que a perspectiva de mobilidade social está na obtenção de um diploma universitário.

Várias carreiras técnicas competem muito bem com formações de nível superior. Técnicos das áreas de produção de petróleo e de indústrias químicas, por exemplo, tinham salário médio de R$ 7.700 em 2014. São trabalhadores altamente requisitados pelo mercado, mesmo em meio à crise.

Além disso, a educação profissional se modernizou e há uma diversidade de carreiras surgindo por conta dos novos processos utilizados no setor produtivo. O mundo vive a quarta revolução industrial –também chamada de indústria 4.0­–, na qual as empresas se utilizam de tecnologias digitais. Do trabalhador, é exigido ter capacidade de interpretação abstrata e formação técnica para operar equipamentos com alta complexidade.

Nações desenvolvidas já perceberam essa tendência e investem pesadamente na área. Países da União Europeia têm, em média, metade de seus estudantes do ensino médio matriculados também em cursos técnicos, segundo o Centro Europeu para o Desenvolvimento da Educação Profissional.

É preciso remover preconceitos em relação aos cursos de educação profissional. Pesquisa da FGV demonstrou que, entre dois indivíduos com a mesma escolaridade, os que frequentaram o ensino técnico de nível médio tiveram 15% de acréscimo na renda.

Felizmente, a percepção dos brasileiros sobre a importância dessa formação está mudando para melhor. Levantamento da CNI (Confederação Nacional da Indústria), em parceria com o Ibope, mostra que, para 90% dos entrevistados, quem faz curso técnico tem mais oportunidades no mercado de trabalho. A inclusão, no Plano Nacional de Educação, de uma ousada meta que prevê triplicar as matrículas na área até 2024 reflete o desejo de uma sociedade que passou a dar mais valor a esse tipo de qualificação.

Na prática, no entanto, a educação profissional ainda é a escolha de poucos no Brasil. Em 2015, 11% dos jovens brasileiros cursavam o ensino médio concomitantemente com algum curso técnico. É imperativo elevarmos esse contingente para garantir um projeto de vida à juventude.

O jovem que busca o primeiro emprego tem com a educação profissional a possibilidade de entrar de forma mais rápida no mercado de trabalho. Por exemplo, no Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), mais de 65% daqueles que concluíram o ensino técnico em 2014 estavam trabalhando no ano seguinte. Mesmo cursos de formação inicial –que duram cerca de três meses– já permitem ao trabalhador buscar uma colocação mais qualificada.

Ocurso técnico pode ainda ser encarado como primeiro passo de um plano profissional que, não necessariamente, exclui um diploma universitário. Um técnico em mecânica tem a opção, por exemplo, de avançar com sua formação na área e se tornar tecnólogo em mecânica ou engenheiro. No caso de alguns jovens, a inserção rápida no mercado de trabalho é o passaporte para a continuação dos estudos. Com um emprego, é possível ter os recursos necessários à construção de uma carreira.

O Brasil sabe fazer educação profissional de excelência, afinal o país foi o grande campeão da 42ª edição da WorldSkills, a olimpíada internacional de profissões técnicas e que reúne competidores de nações cujos sistemas educacionais são referências em todo o mundo.

O que falta ao país é eleger a educação profissional como uma agenda estratégica. Por ser essencial à competitividade das empresas, trata-se de um tema basilar para a indústria. Levantamento da CNI, feito entre empresários, mostrou que na avaliação de 53% deles a qualidade da mão de obra é o principal entrave ao aumento de produtividade. A falta de qualificação tem impacto direto nos negócios: para produzir o mesmo que 1 americano, o Brasil precisa de 5 trabalhadores.

É urgente preparar jovens e adultos para um mercado em profunda mutação tecnológica e organizacional. A educação profissional deve ser vista como uma agenda de sustentação da renda, de geração de oportunidades para a juventude, de competitividade para o ambiente de negócios e também como um compromisso social, pois pode ajudar o Brasil a ser um país mais equânime.

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Rafael Lucchesi

é diretor-geral do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) e diretor de Educação e Tecnologia da CNI (Confederação Nacional da Indústria)

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