Candidatos terão de lidar com consumidores e empresários mais críticos

Abram Szajman

Abram Szajman

Especial para o UOL

São Paulo já foi um município agrícola, como nos recorda a denominação do viaduto do Chá, na região central. A industrialização acelerada tornou-se sua marca no século 20. Ao longo das últimas décadas, entretanto, o comércio de bens e serviços consolidou-se como a principal atividade econômica da metrópole.

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2013 o setor respondia por 70% do PIB paulistano, participação que era de 62% em 1999. Números da Fecomercio SP, de 2015, mostram que o comércio varejista local movimentou R$ 172 bilhões, enquanto o setor de serviços faturou R$ 256,5 bilhões.

O mais destacado polo comercial e de serviços do Estado e do país também é o principal empregador da capital paulista: em abril de 2016 respondia por cerca de 4,4 milhões de empregados com carteira assinada, que representavam 84% de todos os empregos formais no âmbito municipal. O comércio de São Paulo atende não apenas à sua população, mas também consumidores e empresários das mais diversas procedências.

Como consequência, no âmbito estadual, 57% dos trabalhadores do atacado de eletrônicos e equipamentos estão concentrados na capital, percentual que sobe para 71% no atacado de vestuário, tecidos e calçados, fazendo a fama da rua Santa Ifigênia e das ruas 25 de março e José Paulino, respectivamente.

Em uma cidade tão dinâmica, mas ainda plena de desafios em áreas como mobilidade, habitação e segurança, o trabalho ganha um papel decisivo na qualidade de vida dos cidadãos. Segundo pesquisa da Fecomercio SP e da Rede Nossa São Paulo, realizada em dezembro de 2015, o emprego é o terceiro fator mais importante para a qualidade de vida dos paulistanos, atrás apenas de saúde e educação.

A crise econômica, porém, afetou o poder de compra dos consumidores e o resultado das empresas, levando à queda das vendas e do emprego no setor de comércio e serviços. Em doze meses até abril, na comparação com os doze meses imediatamente anteriores, o faturamento do varejo paulistano registrou queda de 4,1%. No setor de serviços o recuo foi de 3,8%. Mais de 95 mil postos de trabalho foram eliminados em um ano, sendo 10 mil no comércio atacadista, 21 mil no varejo e 64 mil nos serviços.

Com o recuo das receitas das empresas, cai a arrecadação municipal de impostos. O aumento do desemprego, somado à elevação do custo de vida –que subiu mais de 10% em um ano –, leva ao crescimento da inadimplência. Em junho, de acordo com pesquisa da Fecomercio SP, 17,6% das famílias paulistanas estavam com alguma conta em atraso e 7,2% diziam não ter condições de pagar todas as contas no mês seguinte, o que também tem impacto na arrecadação municipal, uma vez que indica maior dificuldade na manutenção do IPTU em dia, por exemplo.

Ao mesmo tempo, por causa do orçamento apertado, as famílias passam a demandar mais serviços públicos nas áreas de lazer, cultura, transporte, saúde e educação. Equilibrar uma receita menor e a maior demanda por serviços públicos será um dos principais desafios da próxima administração municipal.

A retração da atividade econômica, os juros altos, o aumento do custo de vida e do desemprego acentuam ainda mais o problema da desigualdade social na cidade. A criminalidade, por sua vez, tende a crescer caso o cenário econômico não se recupere.

Apesar da melhoria da confiança captada pelos indicadores nos últimos meses, os candidatos terão de lidar com consumidores e empresários mais críticos nas próximas eleições, que não serão convencidos facilmente por qualquer proposta.

Embora as quedas das vendas, do emprego e da confiança sejam reflexos principalmente da crise macroeconômica, medidas podem ser adotadas em âmbito municipal para alavancar a vocação dinâmica de São Paulo, como a redução da burocracia, o aumento da eficiência da máquina administrativa e a racionalização dos tributos.

Parcerias podem e devem ser estabelecidas com o setor privado nas áreas de lazer, cultura, formação profissional e infraestrutura, e em temas como melhoria das calçadas, estacionamentos próximos a estações de trem e metrô e enterramento de fios e cabos elétricos.

Com o intuito de contribuir para o debate das propostas em um contexto de queda da arrecadação e aumento da demanda por serviços públicos, a Fecomercio SP disponibilizou uma plataforma digital com os principais indicadores da economia paulistana, que serão atualizados mensalmente. Conhecer todos os dados dos problemas é o primeiro passo para resolvê-los. 

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Abram Szajman

é presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP)

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