Gestão e investimento público determinam rendimento dos atletas

Sandro Cabral
Darcio Martins

Especial para o UOL

Em meio a derrotas e vitórias da delegação brasileira ao longo da Olímpiada, ouvimos nas rodas de cafezinho, nas mesas de bar ou nos encontros de família frases como: "Que vergonha, o Brasil não investe nada em esportes olímpicos"; "O desempenho do Brasil é ridículo, ficamos atrás de países bem menores no quadro de medalhas"; "Ganhou, mas ganhou sem apoio nenhum do governo. É um herói". Frequentemente proferidas com ares de quem fala javanês, tais frases podem ser colocadas em perspectiva a partir do exame do trabalho realizado ao longo dos últimos anos.

Entre erros e acertos, incluindo experiências bem-sucedidas e casos escandalosos de mau uso dos recursos públicos, é inegável que pela primeira vez na história tivemos um massivo investimento estatal visando à melhoria do desempenho esportivo do país, a começar pelo planejamento de longo prazo estabelecido após a má campanha nos Jogos de Sidney, em 2000.

Com 80% dos investimentos provenientes de fontes governamentais, neste ciclo olímpico o apoio financeiro às confederações desportivas brasileiras atingiu um nível ligeiramente superior à média mundial do investimento em esportes de alto desempenho. Complementarmente, políticas como a Lei de Incentivo ao Esporte, o Programa Bolsa Atleta, o Programa Segundo Tempo, o Plano Brasil Medalhas e o fundamental apoio das Forças Armadas para atletas de alto rendimento foram importantes para o melhor desempenho olímpico do Brasil em todos os tempos, em que pesem algumas distorções e malfeitos detectados. Para além do número recorde de medalhas, atletas brasileiros chegaram a fases decisivas em esportes sem maior tradição como esgrima, halterofilismo, arremesso de peso, marcha atlética, arremesso de martelo e canoagem slalom nos Jogos do Rio.

No entanto, o investimento público e o nosso estoque de talentos individuais, por si só, não parecem ser elementos suficientes para explicar os resultados obtidos pelo Brasil. Afinal, algumas modalidades com investimentos vultosos não foram bem-sucedidas em comparação a outras com investimentos mais tímidos. A natação está entre as modalidades que mais recebeu recursos, porém apresentou resultados insatisfatórios, sem medalhas nas piscinas cariocas.

Além de trabalho duro e da qualidade de nossos atletas, práticas gerenciais são fatores-chave para o sucesso. Por exemplo, a organização administrativa observada em algumas confederações proporcionou uma alocação mais eficaz dos recursos em prol da atividade-fim, possibilitando o investimento em centros de excelência e em equipamentos necessários à prática esportiva (hardware) e na aquisição e desenvolvimento de técnicas inovadoras e adequadas de treinamento (software).

Sem a disponibilização de técnicos estrangeiros gabaritados e acostumados com a rotina vitoriosa do alto rendimento, medalhas na canoagem e no salto com vara, por exemplo, dificilmente estariam em nossas mãos. Sem o intercâmbio entre treinadores estrangeiros e técnicos nacionais não teríamos chegado ao patamar que chegamos na ginástica artística e no boxe.

Para o futuro a esperança é que as confederações que fizeram o dever de casa continuem na mesma trilha e que as outras mirem nos exemplos bem-sucedidos ao seu redor. Acreditamos que a combinação entre investimento público e competências acumuladas em gestão pode ser catalisadora do desenvolvimento do esporte para além do alto rendimento, podendo engendrar o crescimento de ligas esportivas sustentáveis e contribuir para a ampliação do mercado esportivo numa perspectiva mais ampla.

Muito provavelmente, isso exigiria menores investimentos nos próximos ciclos, em função da estrutura e do aprendizado acumulado ao longo do último ciclo olímpico. Para tanto, é preciso que sejamos sábios e aproveitemos o manancial de recursos humanos e naturais que temos à nossa disposição. Por meio de um sistema de identificação, seleção e retenção de talentos, diamantes brutos podem ser descobertos e lapidados, gerando uma massa crítica de atletas em diferentes modalidades.

De igual sorte, é preciso olhar para a formação de bons técnicos por meio da propagação do conhecimento acumulado e da disseminação de técnicas de treinamento por meio de oficinas e capacitações por todo o país. Isso requer, naturalmente, gestores competentes e sujeitos ao intenso escrutínio da imprensa e dos órgãos de controle para assegurar que os recursos captados sejam aplicados nos atletas e não sejam canalizados para perpetuar dirigentes de determinadas confederações no poder. 

Em suma, planejamento e boa gestão de recursos humanos e financeiros são fundamentais para o desenvolvimento esportivo e para a obtenção de bons resultados. Que a compreensão desses fatos seja um dos legados da Olímpiada.

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Sandro Cabral

é professor de Estratégia do doutorado Insper

Darcio Martins

é doutorando em Economia dos Negócios no Insper e professor da PUC-SP

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