Fim da cultura de reprovação é um começo para melhora da educação

Ernesto Martins Faria

Ernesto Martins Faria

Especial para o UOL
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Nas últimas semanas, foram divulgados os resultados da Prova Brasil, do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) e do Enem 2015 –três importantes avaliações da nossa educação básica. Vários especialistas e jornalistas repercutiram os resultados, e a análise a seguir se propõe a apresentar o que eles representam de forma concreta. Para isso, foi feita uma analogia. Imagine três fases na vida de seu filho:

Com 10 anos, ele tirava notas 6 e 7 na escola. Aluno regular, conseguia passar de ano sem grandes dificuldades e demonstrava uma razoável evolução em relação aos últimos anos. Sabia ler, escrever, dominava as quatro operações básicas, mas ainda podia se desenvolver mais em relação à compreensão leitora e ao raciocínio lógico, além de estudar pouco proativamente.

Já aos 14 anos, não via mais sentido na escola. Desde que ingressara nos anos finais, tinha muitas dificuldades, principalmente com matemática. Não via sentido no que estudava e seu professor não conseguia engajá-lo para o estudo.

Já aos 18 anos e tendo passado por uma reprovação escolar, estava no ensino médio. Pretendia entrar na universidade, mas se sentia muito pouco preparado para isso. Não achava que aprendera os conhecimentos cobrados pelos processos seletivos e tinha pouca noção das competências que precisava desenvolver e quais caminhos poderia seguir.

Podemos tomar essas três fases como representações dos resultados que tivemos nos anos iniciais e finais do ensino fundamental e do ensino médio, de acordo com as avaliações.

O Ideb dos anos iniciais do ensino fundamental avançou, embora muitos alunos do país ainda apresentem um nível de proficiência muito abaixo do desejável. Em 2015, o Ideb da rede pública foi de 5,3, enquanto que o Ideb geral foi de 5,5.

Já os anos finais têm avançado pouco nas últimas avaliações. As taxas de aprovação estão subindo muito lentamente, e a evolução em proficiência é abaixo do desejável, além de não concretizar completamente os avanços dos anos iniciais em anos anteriores. O Ideb da rede pública em tal etapa é de 4,2, e o Ideb geral do país é de 4,5.

Aqui cabe a pergunta: por que um aluno que está chegando razoavelmente melhor no 6º ano não termina o 9º ano razoavelmente melhor do que as gerações anteriores?

Não tendo evoluído nos últimos anos, os índices do ensino médio também são preocupantes. As taxas de aprovação evoluem muito lentamente e os índices de proficiência são muito baixos. O Ideb da rede pública em 2015 foi de 3,5 e o Ideb geral do país foi de 3,7. Já os resultados no Enem mostram que os melhores resultados são sistematicamente obtidos por estudantes com melhores condições sociais.

O mais grave ainda, no caso do ensino médio, é que ninguém apontou o caminho. São Paulo e Pernambuco, cujas redes estaduais são as com melhores resultados no Ideb, apresentam índices muito baixos (3,9).

Como melhorar tais resultados?

Sabendo que não há uma única solução ou uma fórmula mágica, primeiramente, deve-se ressaltar que um bom sistema educacional depende de várias ações estruturantes, como um currículo de altas expectativas, uma boa formação de professores e um bom acompanhamento pedagógico.

Recomendo a leitura da série de estudos Excelência com Equidade que fizemos na Fundação Lemann em parceria com o Itaú BBA e com o Instituto Credit Suisse Hedging-Griffo. Essa série retrata qual é o diferencial das escolas que conseguem bons resultados com alunos de baixa renda.

Porém, quero apenas discutir que um bom começo é não aceitar o inaceitável. Precisamos, mesmo que com dificuldades, ter altas expectativas e buscar garantir o aprendizado dos alunos. Nesse sentido, quero colocar a relevância de dois pontos.

O primeiro refere-se à cultura da reprovação. Nossos índices de reprovação são inaceitáveis e a secretaria deve sempre trabalhar com a premissa de que todo aluno pode aprender. Os alunos que são reprovados tendem a ter mais chances de abandonar a escola, além de serem raros os casos de alunos repetentes que obtêm um bom nível de aprendizado. As secretarias de educação precisam dar as condições e o suporte para que escolas consigam garantir a recuperação de defasagens da aprendizagem ao longo do ano.

O segundo é que o foco de todo o sistema educacional deve ser o pedagógico. Alunos brasileiros erram sistematicamente conteúdos, como é o caso da fração. Não podemos permitir que crianças não dominem conhecimentos básicos e importantes para a vida. Dessa forma, orientados pelo que as escolas de bons resultados apontam, precisamos diagnosticar e trabalhar as habilidades que os alunos não dominam em ações de reforço escolar e nos programas de formação de professores.

Certamente, essas ações não resolvem todos os problemas, mas o olhar de que o aluno sempre pode aprender e ter todo o sistema orientado para os resultados pedagógicos já são um bom começo.

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Ernesto Martins Faria

é gerente da área de Pesquisa e Avaliação da Fundação Lemann

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