Trump não pode delegar fracassos e terá que assumir contradições

Ricardo Luigi

Ricardo Luigi

Especial para o UOL
  • Damon Winter/The New York Times

Donald J. Trump foi eleito o presidente dos Estados Unidos de forma inesperada pela grande maioria – talvez até por ele mesmo. Seus discursos alegando fraude nas eleições, desde antes da votação e durante o dia, prenunciam a sua expectativa de não vencer. Agora que ganhou, pode ser que tenha que lidar com a responsabilidade por ter vencido.

No Brasil, principalmente nas eleições para o Poder Legislativo, em especial para vereador, é recorrente a figura do candidato que não quer ganhar. Participa do pleito eleitoral na esperança de se projetar politicamente a ponto de conseguir algum cargo junto aos eleitos. Lógica semelhante parecia ser a seguida pelo então candidato republicano nos EUA.

Trump, se derrotado, sairia mais fortalecido. Além de poder manter sua posição de injustiçado, penalizado por "falar a verdade" (o que não é verdade, pois estudos demonstraram que mentiu mais na campanha que a oponente democrata) em um mundo hipócrita, já teria renovado sua imagem comercial, que vinha em decadência. Originalmente empresário do ramo da construção, de uns tempos para cá tem mantido negócios no setor baseados no licenciamento de sua marca. Construções nem sempre bem-sucedidas levam o seu nome na esperança de atrair compradores. E quando fracassavam, o ônus era sempre dos empreendedores, nunca da Organização Trump.

Por outro lado, eleito presidente, Trump não poderá delegar o fracasso para os outros. Terá que assumir o encargo de suas contradições, de seu discurso isolacionista ("America First") em um mundo globalizado, de suas colocações preconceituosas em um mundo liberal, de sua visão de mercado que oscila entre o liberalismo e o protecionismo.

Um artigo do "New York Times" é preciso: Donald Trump é eleito presidente em incrível repúdio ao establishment. Para aqueles que suspeitavam de uma onda conservadora na América Latina, as eleições americanas são mais uma demonstração inequívoca de que essa onda se alastra pelo mundo, na esteira da insatisfação com a persistente crise econômica e os malefícios da globalização.  

O chamado "trumpismo" funcionou bem na oposição. Mas esse discurso de negação costuma ser antipropositivo. Como lidar com a necessidade de elaborar propostas? Agora é esperar se as bravatas de Trump levarão a medidas firmes no sentido de uma nova "Doutrina Bush", capaz de desestabilizar o já não tão equilibrado sistema internacional, ou se Trump gerenciará seu governo como administra seus negócios: com muito marketing e, na verdade, delegação de poderes a pessoas mais habilitadas.

Trump estava preparado para perder. Como ganhador, terá que lidar com duas possibilidades: a bolha ideológica ou o pragmatismo político. A bolha ideológica que o elegeu não se sustentará contrariando os ditames de um mundo liberal e globalizado. Suas convicções são a desglobalização, a recusa ao multilateralismo e a retomada do isolacionismo americano.

O mais provável é que Trump se paute mais, a partir de agora, pela realpolitik, pelo pragmatismo político, e modere, senão seus discursos, mas suas práticas. Se, no entanto, as intimidações do próximo presidente americano forem cumpridas, ele se aproximará mais do ônus da vitória, tendo que lidar, afinal, com a desconfiança natural do seu povo e da população mundial.

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Ricardo Luigi

é diretor do Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais e professor universitário (ricardoluigi@cenegri.org.br)

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