Um passo à frente e outro também

Marina Silva

Marina Silva

Especial para o UOL

Nesta semana, vivenciamos mais um exemplo do descompasso abissal entre o que clama a sociedade e o que defende a maior parte da classe política. As dez medidas de combate à corrupção, chanceladas por mais de dois milhões de assinaturas, foram atropeladas em nova demonstração explícita de falta de respeito com o que anseia a sociedade e de apego a interesses pessoais e partidários mesquinhos.

Ficou demonstrado também o medo –pânico explícito, em alguns casos– de freios e punições à corrupção, por meio do uso pervertido do poder público para cercear e ameaçar as instituições que investigam e punem.

O Congresso, que deveria representar o povo, foi usado como trincheira em causa própria, como bunker em defesa dos piores costumes e artimanhas da política tradicional que, nos seus estertores, esperneia para que tudo continue como sempre foi.

Já sem disfarces ou constrangimento –e com transmissão ao vivo– expõe sua absoluta falta de compromisso ético com a população, utilizando-se de mandatos de representação coletiva para salvaguardar interesses e práticas que devem ir para o lixo da história. O jogo de cena é repugnante. A sociedade não tolera mais tanta desonestidade e mentira.

Em artigo publicado em dezembro de 2015 –"Dois trilhos para sair da crise"– eu já defendia que "é preciso não compactuar com movimentos erráticos, de salve-se-quem-puder, dos velhos atores acostumados a dominar o espaço da política com sua infindável capacidade de manobra, agora buscando novo polo de atração gravitacional, uma ponte para garantir seu futuro mudando as aparências sem alterar o status quo. É preciso tomar cuidado para não permitir que, sob a oferta dissimulada de um porto seguro na tempestade, fiquem ocultas as mesmas incompetências, privilégios, esquemas de corrupção e desejos inconfessos de frear os rumos das investigações."

Milhões e milhões de brasileiros, desde 2013, vêm se manifestando em grandes mobilizações que culminaram, nos últimos eventos, com mais de 6 milhões de pessoas em todo o país, em um processo autoral de autoconvocação que dispensou partidos, organizações sindicais e estudantis, líderes carismáticos e caciques burocráticos. Mesmo assim, em lugar de tentar decifrar o fenômeno e dialogar com ele, em favor de mudanças inadiáveis para o país, o que temos como resposta do sistema político?

Em vez de remover as tranqueiras que hoje obstruem o caminho para uma conectividade real com o espírito dessas manifestações, o que temos, pasmem, é mais e mais indiferença e manobras para burlar as expectativas da maioria da sociedade de vir a ter um país passado a limpo.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman afirma que a política está impotente. E que nós adquirimos a liberdade tanto para dizer, como para fazer o que quisermos, menos para mudar o sistema. Então, ele pergunta: se a política é para juntar pessoas para fazer mais do mesmo, para que serve mesmo a política?

No meu entendimento, enfrentar a gravidade da situação política brasileira passa diretamente pelo reconhecimento do papel fundamental desempenhado pelo surgimento de um novo sujeito político independente, que escapa das garras de esquemas centralizadores, dirigistas e messiânicos.

Assistimos também ao desmanche progressivo do nefasto monopólio dos que se arvoram ao direito sagrado de serem donos de causas e bandeiras, para depois –como os fatos vêm fartamente atestando– arrogarem-se à licença, em nome do sentido originário delas, para transgredir sem culpa ou responsabilização. É como se ganhassem a carteirinha de sócio remido do bem, a despeito de qualquer transgressão ou malfeito que façam no presente.

A sociedade não quer mais que as decisões e os recursos que pertencem a todos os brasileiros sejam definidos no balcão de negócios em que se transformou uma parcela considerável do sistema político –ressalvadas as honrosas e heroicas exceções de pessoas, lideranças, autoridades e instituições. Por isso, sua manifestação se dá de maneira autoral, espontânea, criativa e pacífica na defesa de causas comuns.

Diante da tamanha crise que o país atravessa precisamos oferecer todo apoio para essas manifestações que, quando comprometidas com a democracia e o estado democrático de direito, podem nos ajudar a encontrar saídas para nossos enormes problemas.

Além do nosso apoio às investigações, contudo, é igualmente necessário estabelecer medidas estruturantes que previnam a corrupção. O pacote original das dez medidas propostas pelo Ministério Público pode ser o caminho para institucionalizar o combate à corrupção em outro patamar, a começar pelo fim da quase certeza de impunidade. Para isso, é fundamental abraçar essas propostas e lhes dar cada vez mais a musculatura do apoio social, bem como à consolidação dos trabalhos da operação Lava Jato.

Não se pode esperar que a solução para a crise venha da parte degradada, mas ainda poderosa da política, cuja forma de agir e apego aos seus privilégios estão no alicerce da corrupção endêmica que queremos combater. Esse é um momento decisivo de nossa história.

O filósofo Adelmo Genro, de saudosa memória, em sua crítica ao dogmatismo, disse que este era uma espécie de um passo atrás e outro também. O Brasil precisa andar para poder abrir seu caminho. Parodiando Adelmo Genro às avessas, chegou a hora de dar um passo à frente e o outro também.

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Marina Silva

é porta-voz nacional da Rede Sustentabilidade, foi senadora (1995-2011), ministra do Meio Ambiente (2003-2008) e candidata à Presidência da República, em 2010 e 2014

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