A quem interessa combater enchentes com a velha estratégia dos piscinões?

Álvaro Rodrigues dos Santos

Álvaro Rodrigues dos Santos

Especial para o UOL
  • Moacyr Lopes Jr. / Folhapress

A cada nova eleição renovam-se as esperanças de que algo de mais efetivo será feito no combate às enchentes que castigam a bacia do Alto Tietê, o que equivale a dizer: que castigam a região metropolitana de São Paulo.

No entanto, para que essa expectativa realmente se concretizasse seria essencial, como ponto de partida, que as novas autoridades se convencessem definitivamente do enorme fracasso da atual e velha estratégia de combate às enchentes que é centrada essencialmente na ampliação das calhas dos rios principais e na implantação de piscinões. Também seria indispensável que as novas autoridades reunissem grandeza e coragem cívicas para confrontar os interesses empresariais privados que se estabeleceram no atendimento da já referida velha estratégia.

Houve uma leve esperança que a eleição de Haddad pudesse vir a significar uma saudável mudança de rota na gestão de tal problema. Doce ilusão que logo se desfez nos primeiros meses de sua gestão, quando ficou bastante claro a todo o meio técnico que o novo prefeito de São Paulo havia feito a comum opção de se acomodar com os interesses anteriormente estabelecidos.

Tudo indica que na gestão Doria sequer a ingênua ilusão de alterações se faça presente, uma vez que o novo prefeito acaba de anunciar o foco estratégico de seu programa de combate às enchentes: a construção de 21 novos piscinões. Isso, quando se sabe que a decisão pela implantação de um piscinão, levando-se em conta os enormes males que causam à cidade, deveria ser a última das últimas alternativas, e não o carro-chefe de um programa.

Bom relembrar a equação básica das enchentes urbanas, ou seja, de volumes crescentemente maiores de águas pluviais em tempos sucessivamente menores e sendo escoados para drenagens naturais e construídas que progressivamente são incapazes de dar vazão. Em outras palavras, a cidade, devido à sua impermeabilização, perde a capacidade de reter as águas de chuva, lançando-as em grandes volumes e rapidamente sobre um sistema de drenagem –valetas, galerias, bueiros, córregos, rios– que já não consegue escoá-las devidamente. E aí temos as enchentes.

Outros fatores adicionais que contribuem diretamente com o desastre são a excessiva canalização de córregos e também o enorme assoreamento de todo o sistema de drenagem por sedimentos oriundos de processos erosivos urbanos e por todo tipo de entulhos de construção civil e lixo urbano.

Ou seja, sem a eliminação das causas da doença, não há como curar o doente. Porém, a quem mais poderia interessar, senão à sociedade, o combate à erosão e à decorrente redução do assoreamento de nossos rios? Certamente, os interessados não seriam aqueles que faturam alto com as infindáveis operações de desassoreamento e de ampliação das calhas.

Afinal, a quem interessaria promover medidas voltadas para o aumento da capacidade de retenção de chuva em reservatórios domésticos ou empresariais com a acumulação e infiltração de água em calçadas e sarjetas drenantes, em pátios e estacionamentos drenantes, em valetas, trincheiras e poços drenantes, em multiplicação dos bosques florestados por todo o espaço urbano? Certamente, não estariam entre os interessados aqueles que hoje se beneficiam da contratação de projetos, da execução e da manutenção de piscinões –estes, verdadeiros atentados urbanísticos, financeiros, sanitários e ambientais.

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Álvaro Rodrigues dos Santos

é geólogo formado pela USP, pesquisador sênior do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), autor de 'Enchentes e Deslizamentos: Causas e Soluções' (ed. PINI) e consultor em geologia, geotecnia e meio ambiente

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