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Opinião: Estereótipos em 'Não olhe para cima' prejudicam a ciência

Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence em cena do filme "Não olhe para cima" - Niko Tavernise/Netflix
Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence em cena do filme 'Não olhe para cima' Imagem: Niko Tavernise/Netflix

Mariana Pezzo, Tárcio Fabrício e Adilson de Oliveira*

29/12/2021 13h19

"Não olhe para cima" domina manchetes e debates acalorados nas redes sociais ao mesmo tempo que acompanhamos as perdas provocadas pelas chuvas na Bahia e, em menor escala, em outras localidades do país.

Com tanto já dito e paralelismos com a realidade explorados ao limite, algo nos parece escapar nas análises do filme, que une esses dois temas: a possibilidade de autocrítica à própria ciência, suas instituições e práticas, dentre elas a de divulgação científica, e com isso as chances que temos de agir para reunir cada vez mais pessoas com olhos bem abertos.

Com intenção satírica ou, no extremo oposto, pela incorporação inconsciente de estereótipos e clichês, os cientistas que protagonizam o filme são retratados como descolados da realidade.

Os personagens de Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence, de um lado, dependem caricaturalmente de psicotrópicos e têm dificuldade de se comunicar com o público, como se falassem outro idioma. De outro, reforçam as mitologias da neutralidade e da verdade científica, ao mitificarem fatos e dados e tratarem o método científico como único, infalível e indissociável do progresso.

O personagem de DiCaprio, professor Mindy, afirma, literalmente, não ter lado e apenas falar a verdade.

Ambos os estereótipos, o do cientista maluco e o de ser superior são deletérios à cultura científica.

Não é assim que a ciência funciona, e mentimos se dizemos que sim, mesmo que na intenção de valorizá-la e protegê-la. Nem tudo —de fato, pouco— se sabe por que se viu diretamente, como é possível enxergar um cometa, e fatos não são tão inequívocos como sim e não e zeros e uns.

A pesquisa não é realizada na torre de marfim, blindada das disputas de poder e dos conflitos mundanos. Existem estratégias que buscam preservar a objetividade, mas a ideia de neutralidade, assim como no jornalismo, é uma ilusão.

Outro paralelo relevante é a supervalorização, no filme, de títulos e outras credenciais, como o Prêmio Nobel e universidades de excelência, bem como a instituição da revisão por pares, sendo usados acriticamente para legitimar posturas distantes das melhores práticas científicas. Semelhanças com o uso espalhafatoso das alcunhas de cientista e doutor para rotular celebridades da divulgação convidam à reflexão.

Sociedade do espetáculo

Em "Não olhe para cima", é explícita a crítica à sociedade do espetáculo. É nela que se transforma em garoto-propaganda o cientista declaradamente neutro, cooptado para figurar como referência de credibilidade e segurança da estratégia defendida por governantes e empresários inescrupulosos.

Como reação, o que vemos é o lado supostamente desinteressado também empregar as armas do espetáculo, contando para isso com a celebridade interpretada por Ariana Grande.

No mundo real da comunicação pública da ciência, este apelo às armas do inimigo também não é raro, por exemplo quando aparecem fumaça e luzes piscantes mesmo onde elas não cabem; quando se diz que um vídeo, para manter a atenção, não pode ter mais que três minutos; ou quando se tem como principal critério de sucesso o número de seguidores de um divulgador.

Será mesmo só isso o que temos a oferecer, o simulacro, uma semiexperiência da excitante aventura que é a compreensão do mundo em que vivemos através da investigação científica?

Em um dos desabafos em frente às câmeras, Mindy, arrependido, pergunta: "O que aconteceu conosco? Como é que falamos uns com os outros? O que nos tornamos? Como consertamos isto?".

Reproduzir os modelos do espetáculo não ajudará, já que foram eles que nos trouxeram até aqui. Gritar na bancada de programas televisivos não parece resolver o problema, na ficção e na realidade.

É urgente nos afastarmos dos extremos, buscarmos lugares em que encontro, escuta e diálogo sejam possíveis. É preciso construir um caminho para conversar com as pessoas que divirja do espetáculo e ainda assim tenha impacto, gerando compreensão, confiança e participação na ciência sem distorcer sua verdadeira natureza.

Caso contrário, é grande o risco de a vida imitar a arte e restarmos indignados, estupefatos e impotentes, de mãos dadas orando ao redor de uma mesa e observando a temperatura subir; a água rarear e, ao mesmo tempo, sobrar; as árvores tombarem e novos vírus chegarem até nós.

*Mariana Pezzo, jornalista e diretora do Instituto da Cultura Científica; Tárcio Fabrício, biólogo e jornalista, pesquisador de pós-doutorado; e Adilson de Oliveira, físico e professor titular, coordenam o Laboratório Aberto de Interatividade para Disseminação do Conhecimento, da UFSCar.