General que criticou política indígena deixa comando da Amazônia e evita falar sobre Raposa/Serra do Sol

Leandro Prazeres
Especial para o UOL Notícias
Em Manaus

Um ano após chamar de "caótica" a política indígena do governo brasileiro, o general Augusto Heleno Pereira está deixando o Comando Militar da Amazônia (CMA), um dos postos mais prestigiosos do Exército Brasileiro.

Aos 61 anos, Heleno, um dos oficiais com maior experiência em combate das Forças Armadas brasileiras, vai assumir o Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército (DCT). Heleno foi o primeiro comandante da Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah), cargo com o qual ganhou notoriedade no cenário nacional.

A poucos dias de sua transferência, marcada para o dia 6 de abril, Heleno concedeu esta entrevista na qual reitera suas críticas à política indígena brasileira. "Há uma evidente preocupação em melhorar a situação, mas eu não retiro nenhuma palavra do que falei", disse, para depois recusar-se a comentar a decisão do Supremo Tribunal Federal de manter a demarcação contínua da reserva Raposa/Serra do Sol: "Você não vai arrancar isso de mim."

O general também volta a criticar o sucateamento das Forças Armadas Brasileiras. "Tenho instalações de pelotões na Amazônia que ainda não têm luz durante 24 horas e nem água potável saindo nas torneiras".

Negando sentir-se retaliado, Heleno diz que não sentirá falta de ação ao comandar o DCT. "Tem ação sim. É que a gente fala em Ciência e Tecnologia e pensa num cara sentado fazendo equações do segundo grau". Leia a entrevista abaixo:

UOL Notícias - Há um ano, o senhor disse que a política indígena brasileira era equivocada. O senhor continua pensando isso?
General Augusto Heleno Pereira -
Continuo. Acho que já foram feitas algumas ações, já foram tentadas algumas modificações. Eu acho que a repercussão das minhas declarações foi muito boa porque houve uma série de providências, mas, de lá pra cá, muita coisa comprovou que não havia nenhuma inverdade no que eu falei. Há uma evidente preocupação em melhorar a situação, mas eu não retiro nenhuma palavra do que eu falei.

MEMÓRIA - ABRIL DE 2008

Em abril de 2008, o general Augusto Heleno afirmou que a política indigenista do país era "lamentável, para não dizer caótica", durante palestra no Clube Militar, no centro do Rio. Sem se referir especificamente à reserva Raposa/Serra do Sol, no norte de Roraima, o general criticou a separação de índios e não-índios.

UOL Notícias - Na sua avaliação, a decisão do STF de manter a demarcação da Raposa/Serra do Sol de forma contínua foi um avanço ou um retrocesso?
General Heleno -
Eu não falo sobre isso. Foi uma decisão tomada pelo Supremo Tribunal Federal, a nossa mais alta Corte. Decisão não se discute, se cumpre. Não cabe a mim falar sobre isso. Você não vai arrancar isso de mim.

UOL Notícias - Comenta-se que sua saída do Comando Militar da Amazônia ocorre de forma prematura. Além disso, o senhor está indo para um departamento (de Ciência e Tecnologia do Exército) com muito menos visibilidade que o seu atual cargo. O senhor se sente retaliado pelas declarações que fez?
General Heleno -
De jeito nenhum. Não há prazo previsto para cargo de oficial general. Esses comentários são ilações. Eu estou indo para o departamento de Ciência e Tecnologia, que é um cargo previsto para general de quatro estrelas e perfeitamente compatível com o meu posto. É lógico que o comando militar da Amazônia era extremamente gratificante. Pra mim, foi um orgulho ser o comandante militar da Amazônia. Considero a prioridade um do Exército brasileiro, um comando importantíssimo. Mas acho que uma das coisas mais saudáveis da vida do militar é esse rodízio. Não há nenhuma conotação de retaliação. Conheço o comandante do Exército e sei que ele jamais se prestaria a esse tipo de coisa.

UOL Notícias - O governo federal anunciou a construção de novos pelotões especiais de fronteira em áreas indígenas na Amazônia. Na sua avaliação, esses pelotões vão resolver o problema de vulnerabilidade da fronteira brasileira na Amazônia?
General Heleno -
Esse é um planejamento que está sendo feito há algum tempo. Foi ordem, inclusive, de um decreto presidencial para que fizéssemos um planejamento de instalação de unidades militares em todas as áreas indígenas. É uma coisa boa, logicamente, mas eu sempre disse que não é o efetivo que está atuando que vai resolver o problema. Temos que lutar, na Amazônia, por qualidade, por capacidade de projeção de poder, capacidade de atuação com material moderno, o reequipamento das nossas organizações militares na Amazônia. Não me comove profundamente aumentar o efetivo. Inclusive tenho pleiteado que se termine o que já existe. Tenho brigadas na Amazônia que ainda não foram completadas. Tenho instalações de pelotões na Amazônia que ainda não têm luz durante 24 horas e nem água potável saindo nas torneiras.

UOL Notícias - Diante desse quadro, pode-se concluir que as condições de nossas instalações na Amazônia são precárias?
General Heleno -
Não é que elas sejam precárias. São clareiras na selva onde oficiais levam seus familiares com uma missão extremamente difícil. Completamente afastados de qualquer centro urbano, onde as dificuldades são enormes. É uma missão para homens de exceção. Mas eu acho que temos que lutar para que instalações que possam ter água potável, internet e luz elétrica 24 horas tenham. Temos que lutar para que o que existe seja mantido e o que não existe seja implementado.

UOL Notícias - Qual é o perigo real que as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) representam ao Brasil hoje?
General Heleno -
Nenhum perigo. Nunca representaram um perigo. Primeiro porque temos um dispositivo de vigilância de fronteira muito eficiente. Depois porque nunca interessou às Farc entrar em choque com o Exército brasileiro. Eles sabem que se o fizessem seriam recebidos a bala. Eles têm consciência disso e não interessa abrir uma outra frente.

UOL Notícias - De que forma o Brasil vem se preparando para um possível recuo, cada vez mais a oeste, das Farc, devido a pressão do Exército colombiano?
General Heleno -
Eles não estão sendo empurrados para o lado brasileiro. Não tivemos nenhum incremento de movimentação. Pelo contrário, a gente percebe até um enfraquecimento. Até as atividades logísticas que a gente não podia impedir porque eram feitas por indivíduos legais, com passaporte legal, que vinham ao Brasil para comprar mantimentos ou, muitas vezes, para serem atendidos nas unidades de saúde, isso diminuiu.

UOL Notícias - O serviço de Inteligência do Exército vem fazendo esse monitoramento com que frequência?
General Heleno -
Inteligência não é atividade para estar na mídia. Inteligência é para ser feita com inteligência [risos].

UOL Notícias - Recentemente, o comandante da 12º Região Militar, general Marco Aurélio, criticou a redução no número de soldados sob seu comando. Essa será uma tendência de agora em diante e quais os seus efeitos?
General Heleno -
Aconteceu uma redução no número de recrutas que foram incorporados. No momento em que você reduz mão-de-obra, você diminui sua capacidade de ação, de dissuasão. Diminui o espaço entre um dia de serviço e outro do nosso soldado. Fica mais pesado. As servidões são maiores. É uma providência que para nós nunca é boa. Mas se houve necessidade... Nós, na ponta da linha, não vamos ficar satisfeitos. Nós perdemos poder de combate.

UOL Notícias - Houve alguma justificativa plausível para esse corte? Foi efeito da crise econômica?
General Heleno -
Não conversei com ninguém sobre isso porque ninguém sabe até onde vai durar a crise. Não há uma definição de até quando vamos ter que conter gastos. Não há como prever se isso é uma tendência. Mas nós somos formados para a adversidade. Uma atitude como essa prejudica? É claro que prejudica, mas não vai nos impedir de cumprir a missão.

UOL Notícias - Em termos práticos, de que forma essa crise já afetou a atuação das Forças Armadas na Amazônia?
General Heleno -
O orçamento está sendo liberado aos poucos. Ainda não foi definido o que será feito em termos de cortes. Ainda não tivemos reflexos palpáveis. Estamos aguardando para saber o que até onde os cortes vão acontecer.

UOL Notícias - No ano passado, o senhor também criticou o sucateamento das Forças Armadas no Brasil. A situação melhorou de lá pra cá?
General Heleno -
Nós ainda não tivemos nada de concreto para mudar essa situação. Há uma estratégia nacional de Defesa onde são feitas considerações mostrando que as críticas que foram feitas foram levadas em conta e que o Brasil tem que assumir o papel de um país que terá de defender suas posições. Teremos de ter um poder militar compatível com o papel que nós pretendemos ter como país.

UOL Notícias - O poder militar do Brasil é compatível com a sua estatura política?
General Heleno -
Se você pegar o que está escrito na Estratégia Nacional de Defesa, você vai chegar a essa conclusão. Eu não vou falar sobre isso. Não é um problema meu. Eu tenho limites de competência. Sou comandante militar da Amazônia. Determinados temas não é para tratar comigo. Isso aí quem tem que dizer é o presidente da República, o Ministro da Defesa...

UOL Notícias - Qual o poder de combate do Brasil em relação a vizinhos como Venezuela e Colômbia?
General Heleno -
Isso aí não é uma preocupação hoje. A Venezuela é um país independente e soberano. Pode se armar do jeito que ela quiser. Se tiver dinheiro pra gastar com isso, que gaste! Não adianta fazer essa comparação.

UOL Notícias - O senhor está saindo de um posto que envolve muita ação e indo para um onde, teoricamente, fará um trabalho mais burocrático. O senhor acha que vai sentir falta da ação?
General Heleno -
Tem ação sim. É que a gente fala em Ciência e Tecnologia e pensa num cara sentado fazendo equações de segundo grau. Não é isso, não. Eu tenho uma série de projetos que precisam ser empurrados para a frente. Tem muita coisa para ser feita.

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